Geladeiras obesas
Quarta-feira, 08/07/2009

O mundo enfrenta uma epidemia de obesidade. Desconfio que as geladeiras também e o pior é que uma epidemia puxa a outra. Cada vez que passo por um magazine encontro um modelo de maior porte exposto na vitrine. A geladeira é um artefato de invenção recente na história da vida cotidiana. Ninguém duvida da sua utilidade para conservar alimentos o que a torna um bem de interesse sanitário e econômico, talvez ecológico, uma vez que o seu uso evita o desperdício de alimentos. Ela também é um bem de conveniência que nos permite algumas mordomias impensáveis para a população de 100 anos atrás como tomar uma cerveja estupidamente gelada a qualquer hora.
Lembro que na minha infância as geladeiras tinham apenas uma porta e não dispunham de sistema frost-free. Freezers domésticos nem eram comercializados nessa época. Atualmente, as geladeiras de duas portas predominam, modelos frost free e freezers são comuns e estão disponíveis em qualquer magazine. Paralelamente a essa ampliação do porte e da potência das máquinas, as famílias encolheram e os hábitos se tornaram mais metropolitanos, com mais pessoas comendo fora de casa. Parece uma contradição: por que a capacidade das geladeiras só aumenta se as pessoas já não precisam de tanta refrigeração?
Procel A, consumo alto. Geladeiras grandes subutilizadas são antiecológicas. Além de consumirem mais recursos na sua fabricação, levam a um desperdício contínuo de energia elétrica. O programa Procel do governo brasileiro, que certifica as geladeiras e freezers, nos alerta sobre a eficiência e o consumo desses eletrodomésticos, mas para não haver confusão é preciso saber que ele compara produtos de mesma capacidade. Vou explicar. Vá até um magazine e observe a etiqueta Procel das geladeiras e freezers expostos na loja. A maioria dos equipamentos hoje em dia está na categoria Procel A, a mais econômica. Isso quer dizer que são fabricados nas melhores práticas o que lhes garante una eficiência energética alta. Contudo, se você olhar a etiqueta Procel com atenção vai perceber, que produtos categoria A podem apresentar diferenças enormes no consumo de energia. Uma geladeira tamanho médio de uma porta pode apresentar consumo mensal médio de 23 kWh enquanto que outra grande com duas portas chega a consumir 60 kWh por mês. Ambas são categoria A.
Ao comprar uma geladeira prefira a categoria Procel A, obviamente, mas primeiro faça uma avaliação sobre a capacidade de refrigeração que você precisa em sua casa. Não leve para casa um equipamento para ficar subutilizado. Sua família é grande? Você não dispõe de supermercado próximo? Precisa armazenar grandes quantidades de alimento congelado? Desconfio que para uma família urbana de quatro pessoas aquela geladeira tradicional de uma porta e tamanho médio resolve o problema. Levando para casa uma geladeira além da sua necessidade o prejuízo é dobrado. Se você errar na compra, começará pagando a mais na loja e depois vai consumir energia elétrica adicional por toda a vida útil do equipamento. São mais de dez anos. Não entre nessa gelada.
Todo mundo é jornalista
Sábado, 04/07/2009

Eu sou blogueiro, escrevo sobre assuntos atuais e me ocupo mais da opinião do que da informação. O que faço é jornalismo? Se for, não estou mais na ilegalidade, afinal o STF (Supremo Tribunal Federal) liberou a atividade jornalística a todos, mesmo que não tenham graduação em jornalismo. Acompanhei com atenção as matérias na imprensa em torno dessa decisão do STF, pois é um assunto em que os jornalistas são parte interessada. É divertido ver o que acontece com a imparcialidade jornalística quando a matéria é do interesse corporativo da classe dos jornalistas.
A abordagem mais usada para tratar do tema foi a cobertura das reações nas escolas de jornalismo. Estudantes e professores foram entrevistados e, na sua maioria, as declarações foram de repúdio à decisão do STF. Vamos fazer a engenharia reversa desse interessante casuísmo jornalístico. O jornal precisa ser imparcial, inclusive quando a matéria tem a ver com seus interesses de classe, principalmente nesse caso. Por outro lado, seria interessante fazer alguma coisa para moldar a opinião pública na direção conveniente. Como fazer com que a opinião pública fique contra a decisão do STF? Entrevistando estudantes de jornalismo, claro. Eles ainda não são jornalistas, serão supostamente prejudicados pela medida e farão a defesa da obrigatoriedade do diploma para o exercício do jornalismo com argumentos bem formados. Dessa maneira, o jornal faz a defesa de uma linha de pensamento sem correr o risco de acusação de parcialidade. Se alguém questionar esse enfoque, o jornal poderá dizer que o repórter vai onde a notícia está e quem está reagindo mais intensamente à decisão do STF são as escolas de jornalismo. Mas será que uma cobertura focada nas escolas de jornalismo e nas entidades de classe dos jornalistas dá um panorama da opinião da sociedade? Suma majesta, o leitor de jornal, foi entrevistado?
Nossas opiniões têm muito a ver com nossa experiência de vida. Sou formado em engenharia química, uma graduação disputada por dois conselhos profissionais: o de química e o de engenharia. Regulamentação não falta para o exercício dessa engenharia. Atuei como engenheiro durante muitos anos, mas hoje não tenho nenhum diploma na parede para legitimar a minha ocupação atual que é a produção de conteúdos e ferramentas educacionais para a Internet. De engenheiro a conteudista da educação. Essa mudança em minha carreira fortaleceu a minha convicção de que regulamentação profissional deve se restringir a poucos casos, especialmente aqueles que envolvem risco à vida humana (medicina, engenharia civil, farmácia, etc.). A regulamentação da profissão de jornalista apresenta o agravante de ir contra o princípio superior da liberdade de expressão. Creio que o STF tomou a decisão sensata e contemporânea na direção de uma desregulamentação do exercício das profissões. Com a dinâmica acelerada do mercado profissional e o aumento da escolaridade da população a regulamentação não faz mais sentido. Como a regulamentação conseguiria lidar com a blogosfera, com o jornalismo cidadão? O bom jornalismo continuará demandando pessoas de formação sólida, mas não necessariamente graduadas em um curso específico. E se somente jornalistas puderem fazer jornalismo quem é que vai fazer a crítica ao corporativismo da classe?
Por que ser organizado se você tem o Google?
Quarta-feira, 01/07/2009

Todo mundo gosta de organização, embora muitos não ousem admitir publicamente esse gosto. A organização faz impérios. Não é uma beleza entrar no McDonalds sabendo que em poucos minutos seu sanduíche sem gosto estará na mão exatamente como da última vez? Poucas pessoas são organizadas e ninguém gosta de ser cobrado por desorganização. Eu gosto de organização e sou organizado, mas garanto que não tenho TOC (transtorno obsessivo compulsivo). Sempre vi essa minha facilidade para ordenar o mundo à minha volta como uma qualidade pessoal. Infelizmente, essa suposta qualidade está ameaçada de extinção. Tudo bem, não é a única qualidade obsoleta que coleciono. Percebi a futura inutilidade do senso de ordem quando li uma matéria sobre a ação promocional do Google chamada Ninjas do GMail.
Google quer que os usuários usem mais e melhor o seu serviço GMail e conclama os usuários a se tornarem ninjas do GMail. São quatro níveis ninja: branco, verde, preto e mestre. Para ser um ninja faixa branca é preciso fazer algumas coisas básicas no GMail, mas a “habilidade” ninja dessa faixa que me chamou a atenção consiste em não organizar seus e-mails. Isso mesmo. Para que se você está no Google? Em vez disso, você deve buscá-los. Muito diferente da linha de pensamento da Microsoft. Quem usa o Outlook da Microsoft sabe que esse cliente de correio permite criar pastas e também regras sofisticadas para ordenar automaticamente os e-mails. São duas visões de mundo: a da Microsoft e a do Google. A da Microsoft é baseada em uma organização estática ao gosto do usuário, a do Google supõe uma “organizabilidade” potencial baseada em indexação. Quem prefere o modo Microsoft de ser, normalmente coloca um rótulo único em cada objeto que classifica. Quem aota o estilo Google de ser, associa os objetos a rótulos, que podem ser muitos e não se preocupa em colocar os objetos em caixinhas.
De qualquer forma, continuarei mantendo meu senso de ordem à disposição, afinal, não é em todas as situações que o Google está à mão. O Google não vai encontrar nada dentro do meu guarda-roupa, não é mesmo?
Para mais informações sobre ninjas do Gmail, clique aqui.
A sedução do instantâneo
Sábado, 27/06/2009

A Internet nos vicia em instantaneidade. Houve um tempo em que para fazer uma pesquisa era necessário se deslocar até uma biblioteca e vasculhar nos livros longamente até encontrar o conteúdo desejado. Nesse tempo, para ver um filme era preciso aguardar a sua exibição em um cinema próximo ou até que a TV programasse sua exibição. A Internet torna tudo mais rápido a ponto de criar a ilusão de que as coisas podem ser produzidas no instante em que são requisitadas.
As ferramentas para produção de conteúdo de Internet também caminham para a valorização do instantâneo. Quase diariamente recebo notícias de algum novo recurso para publicar ideias onde quer que você esteja na exata hora em que a ideia surge. O Twitter é o campeão dessa linha. Uma ideia na cabeça e um celular na mão. Pronto! Foi para a Internet. Não é uma maravilha? Sim e não. A maioria dos conteúdos não precisa de instantaneidade e ficaria bem melhor se maturasse por um tempo antes de ir ao ar. Em muitos casos, a instantaneidade do Twitter chega a me parecer arrogante. É uma pretensão achar que aquelas coisas que afloram em nossas mentes são boas para serem publicadas imediatamente após sua erupção. Eu não caio mais na armadilha de pensar que no dia seguinte o conteúdo terá o mesmo brilho da véspera. O tipo de conteúdo que me interessa mais é aquele que, como os vinhos encorpados, precisa de um tempo na garrafa antes de ir para o cálice. Instantâneo bom para mim é achocolatado e algumas poucas notícias urgentes. Esse post, por exemplo, dormiu uns dias na gaveta digital antes de chegar até você. Tempo suficiente para melhorar o texto e para uma reflexão sobre a sua relevância.
Bloqueiem o Messenger, mantenham o Twitter!
Quarta-feira, 24/06/2009

Na minha ingenuidade reincidente eu já acreditei que a Internet era uma ferramenta a serviço das liberdades democráticas. Essa crença de bom selvagem acabou de vez enquanto eu acompanhava as ações recentes da política americana no Irã envolvendo o Live Messenger e o Twitter.
Faz pouco tempo, a Microsoft deixou de fornecer o seu serviço de mensagens instantâneas MSN Live Messenger para o Irã. A justificativa da empresa é que o Messenger requer instalação de software na máquina do usuário. Como o Irã está na lista negra do governo americano, a Microsoft não pode legalmente fornecer produtos a esse país, inclusive software. O sinal do Messenger foi cortado também em Cuba e Coreia do Norte. Serviços da Microsoft ofertados exclusivamente pela web como o Hotmail continuam disponíveis nesses países que compõem o Eixo do Mal.
Logo depois do corte do Messenger no Irã, houve uma eleição por lá e a oposição derrotada começou a promover protestos pelo país. O governo iraniano tenta neutralizar as ações da oposição e isso inclui bloqueio ao Twitter. O serviço de microblog tem ajudado os oposicionistas iranianos a se articularem. A Secretária de Estado americana Hillary Clinton chegou a intervir para adiar uma manutenção programada do Twitter para não prejudicar a comunicação dos oposicionistas iranianos.
Comparando essas duas ações: o bloqueio do Messenger e o incentivo ao Twitter, dá para perceber que existe um oportunismo descarado do governo americano. O Messenger não seria útil para a comunicação dos iranianos durante esse momento de crise? Messenger não pode, mas Twitter pode e deve ser usado, desde que seja para derrubar o governo xiita iraniano. Não há nenhum compromisso com as liberdades democráticas nessas ações do governo americano. Do governo iraniano também não se espere nada íntegro. Eles bloqueiam e liberam o que bem entendem sem maiores pudores. Antes das eleições bloquearam o Facebook no Irã para garantir a “tranquilidade” do processo eleitoral.
Esses bloqueios de serviços da Internet pelo mundo afora mostram a fragilidade da rede diante dos interesses tanto de governos locais como de países que dão as cartas na política mundial. A cada dia está mais trabalhoso ser ditador. No passado, para cortar as comunicações do inimigo bastava tomar as estações de rádio, de TV e os sistemas de telefonia. No século XXI, o ditador tecnológico tem que controlar também os backbones de Internet.