Bebedouro de água mineral

Quando acaba a água no bebedouro do escritório não demora até aparecer uma colaboradora pró-ativa para resolver o problema:

— Será que não tem um homem forte nesta sala para virar o galão de água mineral?

Imediatamente, vão surgindo as desculpas:

— Estou com uma séria lombalgia.

— Tenho que terminar esse relatório urgente.

— Cadê o pessoal dos serviços gerais?

Algumas vezes eu já virei o galão, mas antes disso sempre pergunto:

— Será que nenhuma mulher moderna da sala se habilita a executar essa operação braçal?

Felizmente, lá no escritório existem mulheres que viram galão de água mineral. Infelizmente são poucas; a maioria delas ainda torce o nariz diante da tarefa, como se tudo que envolve esforço físico fosse coisa de homem.

Durante quase toda a História, as mulheres realizaram atividades que envolvem esforço físico moderado. Minhas avós, Judite e Sofia trabalhavam na roça, capinavam, tiravam água do poço, tratavam os animais, partiam lenha, debulhavam milho. Essa história de dizer que mulher não pode fazer esforço físico é invenção moderna. Provavelmente, começou no pós-guerra com a proliferação dos aparelhos elétricos de uso doméstico. Com a eletricidade dentro de casa, algumas mulheres passaram a crer na ideia de que o máximo esforço que devem realizar é apertar botões. Juntando essa crença com a lógica da divisão de papéis e tarefas da sociedade industrial criou-se a cultura de que mulher faz algumas coisas e homem faz outras. Homem faz força e mulher faz limpeza. Com honrosas exceções, lá no escritório essa divisão continua em vigor. Uma mulher limpa o galão, passa álcool e um homem forte vira o galão no bebedouro.

Como homem feminista que sou, conclamo essas mulheres saudáveis e saradas das academias a galgarem um novo patamar da libertação feminina. A mulher do século XIX tinha deveres. a mulher do século XX tinha direitos, a mulher do século XXI tem direitos e deveres. Decididamente, a libertação da mulher passa por trocar um pneu e pagar a conta do motel.

Crédito de imagem: Submarino

A última sessão de cinema

Quarta-feira, 04/11/2009

cinema

Há várias formas de assistir um bom filme como comprar o DVD, alugá-lo, esperar pela exibição na TV a cabo ou aberta, só para citar algumas alternativas dentro da lei. Na teoria, nenhuma dessas formas se compara à experiência clássica de ir a um bom cinema. Só no cinema você assiste o filme em primeira mão, com a melhor imagem e o melhor som, acomodado no melhor ambiente, certo? Há controvérsias. Eu adoro bons filmes, porém sou franco em dizer que vou pouco ao cinema e, provavelmente, vou abandonar essa opção que nos últimos tempos tem me causado mais chateações do que bons momentos.

No último feriado, minha filha me propôs que fôssemos assistir Bastardos Inglórios. Eu pensei: é um filme do Tarantino. Deve ter todo aquele cinismo e rios de sangue. Por que você quer ver esse filme, filha? Porque fala sobre a Segunda Guerra Mundial. Lembrei que ela deve estar estudando esse assunto na escola e que na semana anterior ela tinha alugado O menino do pijama listrado, um filme sobre Holocausto. Ok, bom argumento, bom filme, vamos lá. Na bilheteria, pediram a carteira de identidade dela. Infelizmente, sua filha tem 17 anos e meio e o filme é para maiores de 18. Para não deixar sem registro, fui falar com a gerente do cinema. Com aquele tom burocrático dos colaboradores contemporâneos ela me explicou que são regras do Ministério da Justiça, bla bla bla. Eu lembrei à gerente que na semana anterior eu estive no mesmo cinema e precisei pagar inteira para meu filho porque ele tinha esquecido a carteirinha de estudante. Se meu filho de 12 anos não é estudante, quem é então? Essas aporrinhações se somam a outras  como horários inconvenientes, sessões lotadas, algazarra, sem falar do cara que atende o celular ao seu lado durante a sessão. Como pão duro de carteirinha que sou, não poderia deixar de citar o preço do cinema que para a família toda fica pelo menos cinco vezes mais caro do que o DVD da locadora.

Federico Fellini dizia que filmes são para se ver no cinema e não em casa, pois só na sagrada sala escura se encontra o ambiente mínimo de respeito que uma obra de arte merece. Concordo com o mestre quanto ao respeito, mas garanto que consigo esse ambiente muito mais facilmente em casa do que no shopping. Sou de um tempo anterior ao videocassete em que só havia duas maneiras de ver um filme: no cinema ou pela TV aberta. Naquela época, os cinemas de Curitiba tinham nomes como Avenida, Excelsior, Vitória, Astor, Rívoli, Lido, Bristol e não ficavam em shoppings porque não havia shoppings. Naqueles tempos de ditadura militar existia uma tal de censura e, mesmo assim, eu assisti alguns filmes impróprios para a minha idade. Por causa desse passado saudoso, eu tenho uma relação sentimental com as salas de cinema, mas meu lado Spock me diz: que videolocadora cobra meia locação de uns e inteira de outros? Ao comprar um DVD, o vendedor pergunta qual é a idade das pessoas que vão assistir o filme? A pipoca feita em casa vai me custar R$ 15,00?

Eu poderia ter dito à gerente do cinema: Ok, vou para casa agora baixar o filme pela Internet e vou assisti-lo de graça sem dar a mínima para portaria de Ministério, mas calma lá! Se todo mundo fizer isso por um punhado de dólares vamos quebrar a indústria do cinema e não teremos mais filmes do Tarantino para ver. Por isso, conversei com minha filha e vamos procurar algumas alternativas de passeio porque a velha sala escura está precisando de uma reforma.  Quanto a Bastardos Inglórios, basta esperar uns meses até o filme ser lançado em DVD. Até lá, minha filha já terá 18 anos e poderemos assisti-lo em casa sem problemas de nenhum tipo.

Pilha de jornais

O jornal impresso está na lista de artefatos ameaçados de extinção por conta do crescimento da Internet. Se ele vai ser extinto mesmo, teremos que esperar para ver, pois o jornal impresso já passou por outra crise no passado quando passou a enfrentar a concorrência dos telejornais e sobreviveu. Há vários sinais de que a crise atual é mais séria, mas vamos esclarecer que a ameaça não recai sobre as redações ou sobre o conteúdo do jornal, mas sobre o seu suporte, que são aquelas grandes folhas de papel de embrulhar peixe. A cada dia, surgem alternativas novas ao tijolão de pasta mecânica que aparece diariamente na frente da casa do assinante. O Kindle, leitor digital da Amazon, permite ler jornais assinados on-line por conexão sem fio. Grandes jornais como The Wall Street Journal já são fortes em assinatura digital. Rupert Murdoch, da News Corporation, articula um acordo entre os grandes jornais americanos para viabilizar um modelo de super assinatura digital, em que o internauta assina um jornal e leva vários. Resumindo, as soluções que estão surgindo privilegiam o meio digital. Paralelamente,  as edições impressas acumulam quedas nas vendas.

Alguém vai chorar o fim do jornal impresso? Se concordarmos que as mulheres choram mais, serão poucas as lágrimas. Especialistas dizem que mulheres não gostam de folhear jornal porque suja as mãos. Do ponto de vista ecológico, o fim do jornal impresso é uma benção. O jornal impresso, provavelmente, é a maior fonte de lixo na casa dos assinantes. O papel jornal é reciclável, mas de baixa qualidade. Em sua composição há muita pasta mecânica, o que o torna de pouco valor para o reuso.

A preservação do meio ambiente, às vezes, acontece por caminhos tortuosos. Quem diria que Rupert Murdoch, um magnata da velha guarda, trabalharia para livrar o mundo das grandes pilhas de informação perecível.

Lixo que vale ouro

Quarta-feira, 28/10/2009

Reciclagem de celulares

A fabricação de aparelhos eletrônicos utiliza uma variedade impressionante de materiais, muitos deles de alto valor comercial. Em uma tonelada de celulares velhos encontramos 340 g de ouro, 3,5 kg de prata, 140 gramas de paládio (que vale mais do que ouro) e 130 kg de cobre. Se esses metais forem recuperados podem render cerca de 15.000 dólares. Bem, aqui começa o problema. Primeiro é preciso reunir os celulares descartados em um mesmo lugar. Depois, vem o desmanche e um processo sofisticado de reciclagem que extrai os metais preciosos do meio da sucata. Não é uma tarefa para amadores. Se esse lixo for simplesmente incinerado, por exemplo, serão liberadas toxinas para a atmosfera. A reciclagem do lixo está se tornando um problema bem complexo, mas que pode ser muito lucrativo.

No Brasil existem mais de 150 milhões de linhas de celular. Em um cálculo conservador 20% dos aparelhos são trocados por novos a cada ano. Mais de 30 milhões de aparelhos são desativados anualmente no Brasil. Se todos fossem reciclados pelas melhores práticas renderiam 1.700 kg de ouro, 17,5 toneladas de prata, 700 kg de paládio e 650 toneladas de cobre. Para onde vai toda essa fortuna? Uma boa parte certamente está esquecida na casa dos donos, outra acaba no meio ambiente, onde polui o solo e contamina a água. Somente uma pequena quantidade é reciclada. As quantidades aumentariam bastante se levássemos em conta outros aparelhos eletrônicos presentes em nosso cotidiano e que também têm vida útil muito curta.

Os números mostram que a reciclagem do lixo eletrônico é promissora e precisa se fortalecer. É uma questão ambiental e de dim-dim, mas calma! Não se entusiasme ao olhar para o monte de celulares velhos guardados no fundo da sua gaveta. A reciclagem é uma indústria frágil que ainda engatinha e todos nós temos que ajudar no seu fortalecimento. Coletar o lixo eletrônico, classificá-lo, desmanchá-lo, processá-lo, tudo isso custa dinheiro e exige investimento. Além dos metais, a reciclagem dos celulares do Brasil também geraria mais de quatro mil toneladas de sucata de baixo valor que precisa ser corretamente destinada, por isso, nada de avareza. Entregue gratuitamente seus aparelhos velhos em um posto de coleta.

Crédito de imagem: www.theinquirer.net

Kindle 2

A revolução digital está chegando para todas as coisas que envolvem letras depositadas sobre papel. O Kindle, badalado leitor digital da Amazon, serve para ler livros em formato eletrônico, mas vale lembrar que através dele também é possível assinar jornais, revistas e até blogs. Detalhes como esse são a ponta do iceberg que ronda o Titanic da indústria editorial. Basta deixar o Kindle ligado durante a madrugada para que pontuais ondas eletromagnéticas o abasteçam com notícias fresquinhas para ler no café da manhã. O mais interessante na proposta da Amazon é que o usuário faz assinatura múltipla, ou seja, pelo preço de um, o assinante leva vários jornais. Uma ideia como essa só pode ser colocada em prática por um gigante como a Amazon que tem condições de reunir grandes jornais em torno de um modelo de negócios totalmente novo. Tudo bem que já existem experiências similares para música, em que o usuário assina um serviço e pode ouvir todas as músicas do acervo.

A esta altura alguns podem perguntar porque pagar por uma assinatura, mesmo que com ela eu possa ler vários jornais, se há formas gratuitas de acessar todo esse conteúdo? Realmente, os grandes jornais liberam grandes volumes de informação gratuitamente na Web e atualmente o leitor consegue se manter bem informado sem fazer assinaturas. A pergunta é por quanto tempo essa gratuidade vai se manter? Até pouco tempo atrás a liberação de conteúdos gratuitos pela Internet não trazia problemas para as redações, pois o negócio principal deles era a venda de assinaturas da versão impressa. Os hábitos estão mudando, porém, e a sustentação econômica das redações pode ficar comprometida em breve. Os grandes jornais americanos, por exemplo, estão se articulando para enfrentar a crise e para preservar seus negócios. Duas coisas são certas: informação de qualidade custa caro e o leitor prefere a opção grátis, sempre que disponível. Onde vai dar esse imbróglio? Não custa sonhar, né? Então, vamos imaginar um mundo em que autores recebem o justo pelo seu trabalho e onde o acesso à informação é o mais democrático possível. Só falta definir quem vai pagar a conta.