Cágado vai perder o acento?

Sábado, 05/07/2008

A cada reforma ortográfica mexemos um pouco nas regras de acentuação. Com o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa vão desaparecer alguns acentos. Por exemplo: o acento que diferencia para preposição de pára verbo vai cair. Infelizmente, nem todos os acentos diferenciais serão decepados. Não sei por que cargas d’água o acento de pôr verbo continua a diferenciar de por preposição. Seria tão simples e elegante extinguir o acento diferencial de vez, mas nossos letrados adoram exceções. Imagino os protestos veementes deles se alguém propusesse a regra definitiva e redentora: acabam todos os acentos da ortografia portuguesa. Os ingleses nunca usaram acentos e são felizes. Somente um número irrelevante de frases poderia gerar ambigüidade pela falta de acentos como em: Vi um cágado na beira do rio.

Para consolo dos inconformados com as tortuosas regras ortográficas da nossa língua lembro da nossa única regra de acentuação que não tem exceções: todas as palavras proparoxítonas são acentuadas. Por isso, para alívio geral, cágado continua com acento no a. No primeiro a.

Crédito da imagem: Petrobrás (www.petrobras.com.br)

Balu, o triturador biológico

Sábado, 28/06/2008

Vi uma propaganda de triturador de pia na TV e comecei a pensar sobre o impacto ambiental desse tipo de aparelho. Quem fabrica o triturador procura associá-lo a conceitos de praticidade, higiene e comodidade. Na Internet, é possível encontrar elogios ao caráter ecológico do aparelho. Como assim? Ecológico? Sim, ele eliminaria o lixo orgânico trazendo uma economia de lixeiras, sacos plásticos, coleta, etc. O publicitário mequetrefe que chegou a essa conclusão deve ter faltado à aula sobre conservação da matéria. O resíduo some dentro do triturador deixando de agredir nossos olhos e nariz, mas certamente vai parar em algum lugar.

Eu não simpatizo com o triturador de pia porque é um equipamento caro que consome água, energia elétrica, além de ser ecologicamente polêmico. Sua função é mandar para o esgoto, o que iria para o lixo. Não fiz as contas na ponta do lápis, mas acredito que seria mais ecológico destinar o resíduo orgânico em forma sólida do que tratá-lo como esgoto. Em condomínios que tratam o próprio esgoto os trituradores poderiam ser tolerados desde que os moradores instalassem uma estação de tratamento bem maior, capaz de absorver a carga orgânica gerada pelos trituradores.

No Brasil, felizmente, os trituradores são pouco usados já que por aqui o tratamento de esgoto é bem mais precário do que o tratamento que damos ao lixo soído. O que me consola é que lá em casa, não precisamos de triturador elétrico. Quase todo nosso lixo orgânico vai para a compostagem no fundo do quintal e vira adubo para a horta. O resíduo comestível vai para um triturador biológico chamado Balu (o da foto). Senhores veterinários: não fiquem indignados. O Balu come ração balanceada também, mas adora uma sobra do almoço. Eta vida boa essa de cachorro.

Muitos brasileiros ficam incomodados ao ver o nome do Brasil escrito com Z nas embalagens de produtos para exportação. Quem age assim deve achar um desrespeito alterar a grafia original dos nomes de locais. A idéia de manter a grafia e pronúncia originais dos topônimos é razoável, mas nada fácil de pôr em prática. Nós falantes do português, por exemplo, somos um fiasco nesse quesito. Enquanto os falantes do inglês trocam apenas uma letra na grafia de Brasil, nós convertemos United States of America em Estados Unidos da América; England em Inglaterra e Scotland em Escócia. No português antigo, vernáculo, os nomes estrangeiros de locais eram aportuguesados ao ponto de ficarem irreconhecíveis no local de origem. Não adianta ir à Alemanha e perguntar onde fica Alemanha para os nativos de lá. Eles não usam a palavra Alemanha. O costume do aportuguesamento perdeu a força, porém, o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, que começa a vigorar em breve, traz de volta essa preferência. Um dos artigos do Acordo recomenda que a forma vernácula (antiga) é preferível a qualquer outra. Assim, Genebra é preferível a Genève, Munique é preferível a München e por aí vai. Por isso, antes de reclamar daquele Z de Made in Brazil lembre que os japoneses não usam a palavra Japão e que também não devem gostar de ler Made in Japan porque não é assim que eles escrevem e pronunciam o nome de seu país. Aliás, eles pouco usam o alfabeto latino.

A maioria das pessoas circula em uma área restrita com diâmetro inferior a 10km. Só eventualmente elas saem de seus territórios fazendo deslocamentos mais longos (férias, viagens, etc.). Essa é a conclusão de uma pesquisa sobre a mobilidade de pessoas publicada na revista Nature. Albert-Laszló Barabási e sua equipe da Northeastern University (EUA) rastrearam os deslocamentos de um grupo de 10.000 pessoas a partir das ligações que fazem pelo celular.

O resultado da pesquisa me intrigou porque contrasta com o que vejo quando saio na rua. Carros para todo lado, engarrafamentos e ônibus lotados me dão a impressão que as pessoas se deslocam demais. Fico pensando: áreas de ação de diâmetro inferior a 10km são suficientes para gerar o caos urbano. Imagine o que pode acontecer se as pessoas ampliarem seus deslocamentos.

Antes de essa pesquisa sair eu já tinha uma meta para a minha vida: viver em uma área com diâmetro inferior a 1km. O exemplo que me guia é o do meu pai. Seu José passou a maior parte de sua vida circulando pelo bairro Santa Felicidade, em Curitiba, onde nasceu e vive até hoje. Quase tudo que ele precisa está a menos de 100m de sua casa: mercado, farmácia, panificadora, clube, vídeo locadora, amigos, parentes. Oxalá um dia eu volte para a aldeia do tamanho do mundo onde vive meu pai.

“Não devastem a Amazônia, vocês têm o cerrado para destruir”. Esse é o recado do governo aos pecuaristas que estão queimando a Amazônia. Diante da pressão internacional, nosso governo tenta proteger o bioma amazônico às custas do sacrifício do cerrado. A partir dessa solução sinistra, cria-se uma discussão surreal: afinal, essa fazenda pertence ao bioma amazônico ou ao cerrado? O fazendeiro diz: “Eu acho que é do cerrado e por isso posso tocar fogo nela”. O funcionário do governo contesta: “sua fazenda está dentro da área legal da Amazônia e pouco importa o tipo de árvore que tem lá.”

Nossa consciência ecológica ainda é tão raquítica que classificamos os biomas em duas categorias: os dignos de preocupação e os inúteis. No mesmo noticiário em que eu ouvi essa discussão lamentável sobre onde começa a Amazônia e onde termina o cerrado, um biólogo falou ao repórter sobre sua preocupação com a extinção de várias espécies de insetos e de outros bichos poucos comentados como as minhocas. Pobre biólogo preocupado com animaizinhos inúteis e asquerosos. Não sabe você que só merece atenção nesse mundo aquilo que for do agrado ou do interesse de uma espécie específica: o macaco de poucos pêlos e duvidosa inteligência.

Uma árvore chamada Adalgisa

Sábado, 31/05/2008

Adalgisa é uma das 50 árvores que moram lá em casa. Quando nos mudamos para nossa casa atual ela era só um pequeno arbusto com vários galhos secos, quase nenhuma folha e partes de seu tronco cortadas a serrote. Pensamos até em transformá-la em lenha para churrasco, mas Adalgisa é guerreira. Não sei se sentiu nossa presença, mas logo começou a soltar uma folha aqui, outra ali, foi se refazendo, se embelezando. Hoje, Adalgisa ainda não é uma árvore que ganharia um concurso de beleza arbórea. Ainda traz sinais de maus tratos do passado, mas está carregadinha de mimosas doces. Seus galhos fraquinhos estão arqueados com as frutas. Adalgisa insiste em viver e deixar frutos. Quando passo perto dela faço um elogio para deixa-la feliz. Podem me chamar de animista. Sei que alguns usam esse adjetivo com intenção de xingamento, mas personificar as forças da natureza é uma maneira de interagir com o mundo a cada dia mais necessária, primitiva no sentido de primeira, nunca de atrasada. Dê um nome para a árvore que você ama. Lá em casa tem a mimoseira Adalgisa , o Eriberto pinheiro bravo, a Gertrudes que dá laranja baiana, o Ubirajara que dá araçá…

Quase tudo em uma casa pode ser feito com madeira, do piso ao teto, passando pelos móveis e utensílios. Infelizmente, boa parte da madeira que existe nas casas, inclusive na minha, veio de florestas nativas. Então, para não derrubar a mata, a solução seria fazer casas com cimento, cal, tijolos e aço?  Primeiro saiba que para fabricar esses materiais muita madeira nativa ainda é queimada nos fornos e onde não usam madeira, queimam combustíveis fósseis. Com os diabos: o único recurso que nos resta é mudar para debaixo da ponte? Não. A ponte é feita de cimento e aço também.

A solução mais razoável no atual estado da arte é usar muita madeira, mas não qualquer madeira. Ela deve vir de demolições, reflorestamentos ou de projetos certificados de manejo florestal. A madeira consome menos energia em seu processamento, seqüestra carbono da atmosfera, é renovável, reutilizável e reciclável. Madeira de origem sustentável é tudo de bom, ou pelo menos, é a solução menos agressiva que dispomos.

Os carros que queimam combustíveis fósseis (gasolina, diesel, gás natural, etc) aumentam o aquecimento global, além de deixar o ar poluído e irrespirável. Para acabar com o problema bastaria usar carros elétricos, correto? Bem, os carros elétricos já deixaram de ser protótipos engraçadinhos. Hoje, existem carros elétricos possantes e com boa autonomia. Mas eles são bons para o meio ambiente? Não soltam fumaça nem gases do efeito estufa, pois são abastecidos pela tomada. Epa, mas de onde vem a energia da tomada? Vem das usinas, ora. Se todas as usinas fossem hidrelétricas ou eólicas, tudo bem, mas em muitos casos são termoelétricas e algumas delas, nucleares. Não adianta se iludir. A visão ecológica tem que considerar o processo dust to dust (do pó ao pó). Carro elétrico não tem cano de escape, mas polui pela chaminé da usina. Em países com sobra de potencial hidrelétrico e eólico eles podem ser interessantes, mas onde as usinas queimam carvão, óleo ou gás, o motorista está apenas produzindo a fumaça longe dos olhos.

Você já deve ter visto aquelas propagandas de veículos off road em que o feliz proprietário observa a natureza ao lado de seu off-road estacionado no topo de um morro ou sobre o cascalho de um córrego no meio da mata. As fotos das propagandas de off roads dizem tudo: com um carro assim é possível chegar em qualquer lugar. Mas isso é bom para quem? Para o dono do off road, certamente. E para o fabricante do off road também. Mas e para o meio ambiente? Não seria melhor chegar ao córrego no meio da mata caminhando com uma mochila nas costas? O contato com a natureza seria mais intenso, além dos benefícios da atividade física. Vamos lembrar que veículos off road têm motores potentes e são beberrões de combustível. Não sou inimigo dos off road, eu mesmo gostaria de ter um, mas vamos ser francos: off road para quem precisa de off road e ponto.

Morar na chácara é o sonho de muita gente. Uma propriedade ampla com muito verde longe da agitação urbana; uma casa rústica, mas confortável; animais circulando pelo pátio e hábitos saudáveis de vida. Estamos falando de uma propriedade nos limites do perímetro urbano com área ampla usada principalmente como moradia. A chácara é muito boa para quem mora nela, mas e para o meio ambiente? Não está claro para a maioria que o morador de chácara pode ter um impacto ambiental bem mais alto do que o habitante de apartamento no centro da metrópole.

Vamos explicar: imagine que o morador do apartamento vai a pé para o trabalho e resolve todas as suas necessidades nas imediações do apartamento em que mora enquanto que o chacareiro faz longos deslocamentos diários de carro para chegar ao serviço e resolver seus compromissos. Talvez no condomínio de apartamentos haja coleta seletiva avançada do lixo, enquanto que na chácara sequer haja coleta da prefeitura. Quem sabe o chacareiro não tenha muita consciência ecológica e faça coisas como derrubar árvores nativas enquanto que o morador de apartamento fica bem longe delas. Analisando friamente, morar na chácara tem a ver com qualidade de vida e pouco com preservação do ambiente. Tudo depende da postura de quem mora nela. Um predador ambiental é mais perigoso morando na chácara do que no apartamento.