É irônico, mas o filme Tropa de Elite, que bate duro na corrupção brasileira, fez o maior sucesso nas bancas dos camelôs antes mesmo de seu lançamento no cinema. Estima-se que mais pessoas assistiram ao filme em DVD pirata do que nos cinemas. Eu, que assisti no cinema, estou me sentido na tropa de elite dos espectadores. Não é fácil ser honesto quando o assunto é pirataria. Para assistir a um filme com a família toda (quatro pessoas, sendo duas estudantes) é preciso desembolsar mais de R$ 40,00. Na banca do camelô da esquina, o DVD pirata custa R$ 5,00. O “sistema” cria toda uma máquina de sedução em favor da pirataria. Somente consumidores que passaram por um rigoroso treinamento para endurecer o caráter é que resistem ao assédio da pirataria. É faca na caveira e nada na carteira, mano.
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Lamentavelmente é isso que está acontecendo. O abuso na cobrança de valores que incentivam, os mais afoitos, a recorrerem ao submundo, e, inevitavelmente, financiam o crime – esse sim! – organizado.
Pelo que li na imprensa, o DVD pirata já venceu em torno de três milhões de cópias. O filme nos cinemas está emplacando um milhão e setecentos mil ingressos vendidos. /Abs
Realmente, è triste ver um filme tao bem elaborado e trabalhado como este ser vendido pela pirataria por tao pouco. Mas, vai de cada pessoa a escolha de privilegiar ou nao quem realemnbte lutou para a concretizaçao do trbalaho.
O problema da pirataria não é a pirataria, é a lei. A pirataria existe porque a lei existe. Esta é uma das mensagens que o próprio filme propicia. Bastando trocar o termo pirataria por corrupção ou drogas, estamos ambientados. Quando o outro impera, uma das conclusões é a subversão do eu (fenômeno que chamo de bobo), e outra é a subversão do outro (o que poderíamos entender como egoísmo). Quando falamos em guerra, estamos falando em disputa de eus e de poder. E a paz tem sido a guerra continuada por outros meios. Em Machiavelli, a política é a guerra (seu tratado não é muito mais do que um manual de como pensar em si – mas não estou sendo demasiado romântico, de algum jeito estou com o Janine Ribeiro em A sociedade contra o social, e um pouco da questão é não fazer da democracia a fachada de uma aristocracia – há de se lembrar que Maquiavel escreveu sua proposta política para um principado, não para uma democracia, e a democracia representacionista está um pouco longe do que seja uma democracia). Assim como o problema da política não é a política, mas a ética. A questão da política não são suas conclusões, mas suas premissas (porque, talvez obviamente, as conclusões são meramente decorrências das premissas).
A pirataria sempre foi a subversão da propriedade. Pode-se ser Robin Hood quando se rouba dos ricos para se dar aos pobres, e o pobre é o eu. A propriedade muitas vezes foi um roubo. Creio que só há injustiça numa sociedade justa. ‘Infelizmente’ não é o nosso caso. Não podemos apontar e dizer: olha, a injustiça tá aqui. Muitas vezes ela é a decorrência de coisas que achamos justas. Creio que temos duas opções: ou a gente vai na maré, acreditando ou não que a melhora das condições dos pobres vai ser quase que uma decorrência natural do tempo (no primeiro caso acreditamos no progresso lento, no segundo não temos vontade de que isso ocorra), ou a gente ‘implode’ a sociedade e começa tudo de novo (o que num nível atual seria fundar uma comunidade autosustentável). A questão é que não decidimos ainda se queremos uma vida simples e laboriosa pela natureza ou complicada e confortável pela tecnologia. A resposta da humanidade sempre foi a anterior, mas por incapacidade. Quando finalmente fomos capazes, adotamos a posterior sem pensar. Pode parecer que a vida tecnológica é que é laboriosa, e que a natural é que é confortável, mas o labor na tecnologia tende à economia de trabalho (se tem mais trabalho para fabricar uma máquina de colheita, mas depois que ela é fabricada, se tem menos trabalho para colher). O princípio da revolução industrial sempre foi a produtividade. Daí temos que a produção em massa é mais produtiva.
Assim voltamos à questão da pirataria. O outro pilar da pirataria é a revolução tecnológica. Faz o menor sentido ter mais trabalho para obter o mesmo efeito. Às vezes primamos pela qualidade, mas o princípio geral na sociedade tecnológica e confortável creio ser a própria economia. A solução está aí há muito tempo, a música sofreu com a pirataria antes do cinema. É só uma questão de que a tecnologia velha e os detentores da mesma não querem perder o poder que detinham quando ela era revolucionária. Mas há que ser um pouco bobo, para o bem geral da humanidade. Assim, o lanterninha vai ter que se conformar em perder o emprego. Vai procurar outro. Não só não precisamos mais dele, como ele tem se tornado um estorvo, está atravancando o caminho do progresso, o caminho da economia de trabalho. A onda é que cada um tenha o cinema em casa (um dos efeitos, embora esta claramente não seja a única causa, da produção em massa é o consumo em massa, uma certa alienação)! Entendes o dilema?
Numa comunidade simples onde tudo funciona, talvez ser criminoso fosse um problema de educação (ou de treinamento, etc.). Mas na nossa, certamente não é simplesmente isso. Mais do que um problema ético ou individual, toda espécie de crime que acontece na nossa sociedade, é também um problema estrutural, organizacional. Mas enquanto deixamos que a gestão da nossa própria sociedade esteja nas mãos de meia dúzia de fanfarrões, não nos caberá reclamar. O nosso ‘papel’ enquanto ‘cidadãos’ não é só votar e reclamar. Assim como a responsabilidade do tráfico não é só dos traficantes, mas também dos que o financiam, a responsabilidade do nosso modo de organização social não é só dos políticos, mas de todos que os financiam. Falamos mal e facilmente dos políticos. A nós talvez caiba injúrias maiores: nem chegamos a ser um. Enquanto formos hedonistas (e essa é a grande mensagem da revolução industrial), isto é, se nossas ações visarem simplesmente o prazer, seremos sempre uma engrenagem do sistema onde estamos inseridos (por exemplo, aquele que fundou a comunidade mais obedecerá à natureza do que mandará nela). Isso não é intrinsecamente ruim. Quer dizer, se somos realmente hedonistas, será ruim se doer, será bom se prazer (uso o acepção corrente do termo, embora ache que ela não foi defendida por nenhum filósofo, sequer por Aristipo). Então não se trata de reivindicar um cargo político. Mas de ‘começar’ a fazer política por outros meios.