O homem multi mega funcional

Sábado, 26/04/2008

Pode parecer que estamos retomando o ideal renascentista do homem que dominava as mais variadas artes e ciências. Se fôssemos listar as competências e padrões de comportamento esperados do profissional moderno precisaríamos de muito papel e talvez a relação ficasse mais extensa do que a lista de habilidades dominadas por Leonardo da Vinci. O profissional moderno precisa conhecer idiomas, dominar a Informática, manter ótimo relacionamento interpessoal, ser criativo, flexível, aberto a mudanças, estar atualizado, reciclado, saber escrever com correção e elegância, etc., etc.

Bem, agora vamos falar sério. A maioria das funções do mercado não precisa de um Leonardo da Vinci. Então porque essa histeria com a ampliação ilimitada das competências? Precisamos de todas esses talentos para ser bons profissionais? Sim e não. Sim, é saudável buscar o crescimento pessoal. Não, não é razoável abraçar metas exageradas de desempenho quando não há demanda por elas. Não estaríamos reagindo de forma exagerada aos problemas com os especialistas do passado? Especialistas são aqueles caras que sabem quase tudo sobre quase nada. Como eles não dão conta do recado em algumas situações da vida agora a onda é o profissional generalista, multifuncional, pluri competente. Sejamos holísticos, então, mas cuidado: Quem levar à risca a cartilha do novo profissional corre o risco de ficar sabendo quase nada sobre quase tudo. Não seria melhor, fazer de quase tudo um pouco, mas fazer pelo menos uma coisa bem feita?

Estou desaprendendo a escrita manual. Quando escrevo à caneta parece que minha mão não me obedece mais. Minha letra nunca foi uma maravilha e agora está se tornando mais e mais garranchosa. O pior é que escrevo o tempo todo no trabalho e em casa. Como uso o teclado para redigir 99% dos meus textos, lentamente estou perdendo a habilidade para a caligrafia. Essa constatação me ajuda a refletir sobre alguns estudos surgidos recentemente sobre o potencial do computador para estimular o aprendizado. Tanto no Brasil como no exterior, esses estudos revelam que o uso do computador não melhora o desempenho dos alunos em avaliações como a Prova Brasil, aplicada nos alunos do Ensino Fundamental. Pelo contrário, indicam que o uso regular do computador está associado a uma queda no desempenho dos alunos nessas provas. Uma leitura apressada desses estudos poderia nos levar à conclusão de que o computador prejudica o aprendizado e que seria melhor bani-lo da escola e do quarto dos estudantes. A minha letra garranchosa, entretanto, me leva à outra conclusão. Que valor vai ter no futuro uma caligrafia primorosa? Estou imaginando um mundo em que há teclados por todos os lados, além de computadores comandados por voz. As provas que avaliam o aprendizado dos alunos estão avaliando as competências corretas para o mundo de hoje? Com o computador, os alunos aprendem menos ou aprendem coisas que não se ensinava antes? Talvez essas provas estejam avaliando a caligrafia de alunos que são hábeis apenas em digitação.

A persistência e a teimosia

Sábado, 12/04/2008

Em todos os textos que já li sobre as qualidades do empreendedor figura a persistência. Persistência, palavra bela que nos remete ao padrão de comportamento virtuoso de quem não se desvia do objetivo traçado, é obstinado, tenaz, perseverante. Por outro lado, desde cedo somos alertados dos perigos da teimosia. “Não seja teimoso, meu filho.” “Aquele velho é uma parede de teimosia.” A teimosia destrói relações entre as pessoas e leva ao isolamento. A teimosia é um dos tipos mais citados de chatice. Mas, afinal, qual é a diferença entre persistência e teimosia? Eu diria que ambas quando analisadas fora de contexto remetem ao mesmo padrão de comportamento. São absoutamente iguais quando observadas em si. A diferença? É simples. Teimosia é uma persistência que deu errado e a persistência é uma teimosia que deu certo.

Blogs servem para alguma coisa?

Sábado, 05/04/2008

Não pergunto que benefício os blogs trazem para os blogueiros. Para a sociedade essa é uma questão irrelevante. Interessa-me a serventia que os blogs possam ter para sua majestade o leitor. Antes de responder, vamos esclarecer uma coisa: ficam de fora dessa conversa os blogs inexpressivos como aqueles muito exibicionistas, os que foram criados para zoar ou os que não passam de uma tentativa desesperada de comunicação com o mundo da parte de quem não tem nada a dizer. Notaram que estou incluindo o meu próprio blog no grupo daqueles que podem apresentar alguma relevância, certo? Pois então vamos raciocinar.

Na Era de Gutemberg havia uma aldeia de 1.000 habitantes onde todos liam as obras que 10 habitantes escritores publicavam. Nessa aldeia, havia muitas pessoas com vontade de se tornar escritores, mas por causa dos custos altos somente 10 conseguiam furar a barreira imposta pelo modelo e publicavam suas obras. Graças a um mecanismo natural de regulação, as obras eram publicadas em quantidade proporcional à capacidade de leitura dos habitantes.

Com a chegada da Internet, os custos caíram, as facilidades aumentaram e agora qualquer habitante pode publicar suas obras se quiser. A aldeia passou a ter 100 escritores. No entanto, a capacidade de leitura dos habitantes continuou a mesma porque, além de ler, eles trabalham, saem passear, etc. A Internet expandiu a oferta, não a demanda.

Essa expansão na oferta de textos, em si, não significa nada. Para interpretar o valor da mudança na pequena aldeia vou invocar duas entidades que se alternam em minha cabeça: otimístio e pessimístio.

Pessimístio: aumentar o volume de texto em circulação não representa ganho para a sociedade. Os dez autores de antes eram os melhores e, por isso, eram publicados. Os 90 autores que entraram no circuito não passaram pelos filtros do sistema anterior. Na melhor das hipóteses são divulgadores. Com sua entrada no circuito esses autores apenas drenam a atenção do leitor gerando uma sobrecarga de informação para quem poderia se manter focado em autores top.

Otimístio: a pequena aldeia tem bem mais de dez autores qualificados para publicar seus textos. A demanda restrita impõe um funil muito estreito aos potenciais escritores, deixando inéditos autores de quilate respeitável.

Quem teria razão? Otimístio ou pessimístio? Quem sabe invocando a opinião de Equilibradium.