Balu, o triturador biológico
Sábado, 28/06/2008
Vi uma propaganda de triturador de pia na TV e comecei a pensar sobre o impacto ambiental desse tipo de aparelho. Quem fabrica o triturador procura associá-lo a conceitos de praticidade, higiene e comodidade. Na Internet, é possível encontrar elogios ao caráter ecológico do aparelho. Como assim? Ecológico? Sim, ele eliminaria o lixo orgânico trazendo uma economia de lixeiras, sacos plásticos, coleta, etc. O publicitário mequetrefe que chegou a essa conclusão deve ter faltado à aula sobre conservação da matéria. O resíduo some dentro do triturador deixando de agredir nossos olhos e nariz, mas certamente vai parar em algum lugar.
Eu não simpatizo com o triturador de pia porque é um equipamento caro que consome água, energia elétrica, além de ser ecologicamente polêmico. Sua função é mandar para o esgoto, o que iria para o lixo. Não fiz as contas na ponta do lápis, mas acredito que seria mais ecológico destinar o resíduo orgânico em forma sólida do que tratá-lo como esgoto. Em condomínios que tratam o próprio esgoto os trituradores poderiam ser tolerados desde que os moradores instalassem uma estação de tratamento bem maior, capaz de absorver a carga orgânica gerada pelos trituradores.
No Brasil, felizmente, os trituradores são pouco usados já que por aqui o tratamento de esgoto é bem mais precário do que o tratamento que damos ao lixo soído. O que me consola é que lá em casa, não precisamos de triturador elétrico. Quase todo nosso lixo orgânico vai para a compostagem no fundo do quintal e vira adubo para a horta. O resíduo comestível vai para um triturador biológico chamado Balu (o da foto). Senhores veterinários: não fiquem indignados. O Balu come ração balanceada também, mas adora uma sobra do almoço. Eta vida boa essa de cachorro.
Made in Brasil ou Made in Brazil?
Sábado, 21/06/2008
Muitos brasileiros ficam incomodados ao ver o nome do Brasil escrito com Z nas embalagens de produtos para exportação. Quem age assim deve achar um desrespeito alterar a grafia original dos nomes de locais. A idéia de manter a grafia e pronúncia originais dos topônimos é razoável, mas nada fácil de pôr em prática. Nós falantes do português, por exemplo, somos um fiasco nesse quesito. Enquanto os falantes do inglês trocam apenas uma letra na grafia de Brasil, nós convertemos United States of America em Estados Unidos da América; England em Inglaterra e Scotland em Escócia. No português antigo, vernáculo, os nomes estrangeiros de locais eram aportuguesados ao ponto de ficarem irreconhecíveis no local de origem. Não adianta ir à Alemanha e perguntar onde fica Alemanha para os nativos de lá. Eles não usam a palavra Alemanha. O costume do aportuguesamento perdeu a força, porém, o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, que começa a vigorar em breve, traz de volta essa preferência. Um dos artigos do Acordo recomenda que a forma vernácula (antiga) é preferível a qualquer outra. Assim, Genebra é preferível a Genève, Munique é preferível a München e por aí vai. Por isso, antes de reclamar daquele Z de Made in Brazil lembre que os japoneses não usam a palavra Japão e que também não devem gostar de ler Made in Japan porque não é assim que eles escrevem e pronunciam o nome de seu país. Aliás, eles pouco usam o alfabeto latino.
A vida em um círculo com 1km de diâmetro
Sábado, 14/06/2008
A maioria das pessoas circula em uma área restrita com diâmetro inferior a 10km. Só eventualmente elas saem de seus territórios fazendo deslocamentos mais longos (férias, viagens, etc.). Essa é a conclusão de uma pesquisa sobre a mobilidade de pessoas publicada na revista Nature. Albert-Laszló Barabási e sua equipe da Northeastern University (EUA) rastrearam os deslocamentos de um grupo de 10.000 pessoas a partir das ligações que fazem pelo celular.
O resultado da pesquisa me intrigou porque contrasta com o que vejo quando saio na rua. Carros para todo lado, engarrafamentos e ônibus lotados me dão a impressão que as pessoas se deslocam demais. Fico pensando: áreas de ação de diâmetro inferior a 10km são suficientes para gerar o caos urbano. Imagine o que pode acontecer se as pessoas ampliarem seus deslocamentos.
Antes de essa pesquisa sair eu já tinha uma meta para a minha vida: viver em uma área com diâmetro inferior a 1km. O exemplo que me guia é o do meu pai. Seu José passou a maior parte de sua vida circulando pelo bairro Santa Felicidade, em Curitiba, onde nasceu e vive até hoje. Quase tudo que ele precisa está a menos de 100m de sua casa: mercado, farmácia, panificadora, clube, vídeo locadora, amigos, parentes. Oxalá um dia eu volte para a aldeia do tamanho do mundo onde vive meu pai.
Não queimem a Amazônia, queimem o cerrado
Sábado, 07/06/2008
“Não devastem a Amazônia, vocês têm o cerrado para destruir”. Esse é o recado do governo aos pecuaristas que estão queimando a Amazônia. Diante da pressão internacional, nosso governo tenta proteger o bioma amazônico às custas do sacrifício do cerrado. A partir dessa solução sinistra, cria-se uma discussão surreal: afinal, essa fazenda pertence ao bioma amazônico ou ao cerrado? O fazendeiro diz: “Eu acho que é do cerrado e por isso posso tocar fogo nela”. O funcionário do governo contesta: “sua fazenda está dentro da área legal da Amazônia e pouco importa o tipo de árvore que tem lá.”
Nossa consciência ecológica ainda é tão raquítica que classificamos os biomas em duas categorias: os dignos de preocupação e os inúteis. No mesmo noticiário em que eu ouvi essa discussão lamentável sobre onde começa a Amazônia e onde termina o cerrado, um biólogo falou ao repórter sobre sua preocupação com a extinção de várias espécies de insetos e de outros bichos poucos comentados como as minhocas. Pobre biólogo preocupado com animaizinhos inúteis e asquerosos. Não sabe você que só merece atenção nesse mundo aquilo que for do agrado ou do interesse de uma espécie específica: o macaco de poucos pêlos e duvidosa inteligência.



