Todo mundo é jornalista

Sábado, 04/07/2009

Jornalismo e liberdade de expressão

Eu sou blogueiro, escrevo sobre assuntos atuais e me ocupo mais da opinião do que da informação. O que faço é jornalismo? Se for, não estou mais na ilegalidade, afinal o STF (Supremo Tribunal Federal) liberou a atividade jornalística a todos, mesmo que não tenham graduação em jornalismo. Acompanhei com atenção as matérias na imprensa em torno dessa decisão do STF, pois é um assunto em que os jornalistas são parte interessada. É divertido ver o que acontece com a imparcialidade jornalística quando a matéria é do interesse corporativo da classe dos jornalistas.

A abordagem mais usada para tratar do tema foi a cobertura das reações nas escolas de jornalismo. Estudantes e professores foram entrevistados e, na sua maioria, as declarações foram de repúdio à decisão do STF. Vamos fazer a engenharia reversa desse interessante casuísmo jornalístico. O jornal precisa ser imparcial, inclusive quando a matéria tem a ver com seus interesses de classe, principalmente nesse caso. Por outro lado, seria interessante fazer alguma coisa para moldar a opinião pública na direção conveniente. Como fazer com que a opinião pública fique contra a decisão do STF? Entrevistando estudantes de jornalismo, claro. Eles ainda não são jornalistas, serão supostamente prejudicados pela medida e farão a defesa da obrigatoriedade do diploma para o exercício do jornalismo com argumentos bem formados. Dessa maneira, o jornal faz a defesa de uma linha de pensamento sem correr o risco de acusação de parcialidade. Se alguém questionar esse enfoque, o jornal poderá dizer que o repórter vai onde a notícia está e quem está reagindo mais intensamente à decisão do STF são as escolas de jornalismo. Mas será que uma cobertura focada nas escolas de jornalismo e nas entidades de classe dos jornalistas dá um panorama da opinião da sociedade? Suma majesta, o leitor de jornal, foi entrevistado?

Nossas opiniões têm muito a ver com nossa experiência de vida. Sou formado em engenharia química, uma graduação disputada por dois conselhos profissionais: o de química e o de engenharia. Regulamentação não falta para o exercício dessa engenharia. Atuei como engenheiro durante muitos anos, mas hoje não tenho nenhum diploma na parede para legitimar a minha ocupação atual que é a produção de conteúdos e ferramentas educacionais para a Internet. De engenheiro a conteudista da educação. Essa mudança em minha carreira fortaleceu a minha convicção de que regulamentação profissional deve se restringir a poucos casos, especialmente aqueles que envolvem risco à vida humana (medicina, engenharia civil, farmácia, etc.). A regulamentação da profissão de jornalista apresenta o agravante de ir contra o princípio superior da liberdade de expressão. Creio que o STF tomou a decisão sensata e contemporânea na direção de uma desregulamentação do exercício das profissões. Com a dinâmica acelerada do mercado profissional e o aumento da escolaridade da população a regulamentação não faz mais sentido. Como a regulamentação conseguiria lidar com a blogosfera, com o jornalismo cidadão? O bom jornalismo continuará demandando pessoas de formação sólida, mas não necessariamente graduadas em um curso específico. E se somente jornalistas puderem fazer jornalismo quem é que vai fazer a crítica ao corporativismo da classe?

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