Uniban ou Taliban?
Sábado, 14/11/2009

O incidente envolvendo a aluna Geisy Arruda colocou a direção da Uniban em uma saia justa cor de rosa e mostra que os acadêmicos dessa universidade tem muita lição de casa para pôr em dia. Recapitulando: a aluna compareceu ao campus da Universidade Bandeirante em São Paulo desfilando um modelito curtíssimo e foi hostilizada pelos alunos que a xingaram de puta, entre outras humilhações. A moça teve que sair do campus escoltada pela polícia militar. O episódio ficou registrado em vídeos amadores publicados no YouTube. Com isso, o caso ganhou repercussão nacional na imprensa, o que faz sentido, tendo em vista as cenas grotescas.
A universitária errou no comprimento do vestido e confundiu as rampas da universidade com a avenida Marquês de Sapucaí, onde desfilam as escolas de samba do Rio de Janeiro. O comportamento exibicionista dela não foi adequado ao contexto, mas temos que dar um desconto, pois se trata de uma caloura de 20 anos que mora em um país tropical de costumes flexíveis. O que se faz nesses casos é chamar a moça assanhada para uma conversa na coordenação e pronto.
A reação dos colegas de Geisy, por outro lado, foi desproporcional e preconceituosa. É inadmissível que universitários tenham esse comportamento tacanho de manada. Os estudantes que xingaram, perseguiram e ameaçaram Geisy porque ela desfilou de vestido curto pela escola precisam de uma urgente reciclagem ética. Analisando o desdobramento do incidente concluímos que o amadurecimento desses jovens ainda está longe de acontecer. Até agora os estudantes estão devendo uma retratação para a opinião pública, mas parece que querem apenas ser deixados em paz como se a questão fosse um assunto interno da escola no qual ninguém de fora deve meter o bico. A direção da universidade mostrou que não tem compromissos éticos e que vai para onde sopra o vento. Primeiro expulsaram a aluna, provavelmente, por causa das pressões dos alunos clientes. Menos de 24 horas após a expulsão reverteram a decisão sob a forte pressão da opinião pública.
Esse transbordo fundamentalista da Uniban me faz pensar em outro momento da mobilização estudantil ocorrido na UnB. Em 2008, os estudantes da Universidade de Brasília também se mobilizaram pela exclusão de um membro da comunidade universitária. No caso, tratava-se do reitor Timothy Muholland. Ainda lembro como fiquei contente ao ver os estudantes da UnB lutando para não deixar mais um caso de corrupção acabar em pizza. O arrogante reitor da UnB estava trançando seus pauzinhos para se manter no cargo, mas não contava com o espírito aguerrido dos estudantes que ocuparam a reitoria até que ele anunciasse seu afastamento do cargo. Quanta diferença entre um episódio e outro. Na UnB vimos estudantes lutando pela ética no melhor estilo da combativividade estudantil. enquanto que na Uniban vimos um retrógrado linchamento moral.
Pode ser que eu tenha uma visão idealizada sobre os universitários, mas a minha expectativa é alta e o que espero desses jovens é vê-los envolvidos com as boas causas. Incidentes como esse da Uniban só servem para manchar a imagem dos universitários. Com certeza, na Uniban há muitos jovens descontentes com o desenrolar dos fatos, mas onde estão eles? Por que não se manifestam? Será que só os preconceituosos arruaceiros tem voz naquele campus?
Eu sei que é perigosa a comparação entre os acontecimentos da UnB em 2008 e da Uniban em 2009. Temos de um lado uma universidade pública, concorrida e prestigiada e, do outro, uma instituição privada, popular e com mensalidades a partir de R$ 199,00. O incidente Geisy Arruda teria alguma relação com a massificação do ensino universitário? Espero que não, mas é preciso meditar antes de responder. A parte boa dessa história foi o uso da Internet como canal de expressão do cidadão. A direção da Uniban tentou tirar os vídeos do ar, o que não causa espanto, pois bola fora é com eles mesmo. Felizmente, depois da trapalhada da expulsão da aluna, a direção da Uniban tomou uma medida acertada: promover um ciclo de palestras na escola sobre cidadania. O senador Suplicy de São Paulo foi o primeiro palestrante. Quem sabe assim, a classe universitária vai ao paraíso.