Unfriend: palavra inglesa do ano

Sábado, 21/11/2009

Unfriend é verbo e significa remover alguém da lista de amigos de uma rede social como Facebook ou Orkut. Unfriend foi escolhida como palavra inglesa do ano pela Oxford University Press. Outras palavras também são citadas como destaques de 2009. São palavras criadas há pouco tempo como netbook (computador portátil de dimensões, desempenho e preço reduzidos) e freemium (atributo dos serviços grátis na versão básica e cobrados na versão completa). Como acontece faz alguns anos, as palavras ligadas à tecnologia da informação aparecem em maior número na lista da Oxford, mas, em 2009 palavras das áreas econômica e ambiental também estão em presentes. É natural, pois estamos em ano de crise econômica e a questão ambiental a cada dia ganha mais importância no cotidiano das pessoas.

Aqui no Brasil, até onde eu sei, não temos eleição de palavras do ano. Para ser franco, nossos lexicógrafos estão devendo um dinamismo maior no registro de novas palavras do idioma. Imagino que a lista de palavras brasileiras ficaria parecida com a dos ingleses, uma vez que nosso léxico toma emprestadas muitas palavras do inglês. Netbook e freemium são exemplos de termos usados aqui no Brasil.

Estudiosos mais conservadores consideram que iniciativas como a da Oxford Press são afobadas. Sim, as palavras precisam de tempo para sedimentar antes de serem registradas em dicionário, mas se tudo neste mundo está acontecendo mais rápido, por que os processos oficiais da  língua haveriam de continuar leeeeeeentos? A Oxford Press coloca o idioma inglês em evidência quando publica sua lista, o que é bom tanto para o dinamismo da língua quanto para quem se ocupa dela.

Vírus nfluenza A H1N1

Vejamos quem é bom em trava-línguas. Fale bem rápido três vezes em voz alta: Influenza A (H1N1). Se você passou no primeiro teste, parabéns. Vamos ao segundo. Fale bem rápido a frase: Diagnóstico precoce da influenza A (H1N1) propicia prognóstico positivo. Faz parte do segundo teste entender o significado da frase. O Ministério da Saúde do Brasil optou por usar a expressão Influenza A (H1N1) em sua campanha contra a proliferação da doença que o povo conhece como gripe suína. Pesquisei no Google e encontrei 9.570.000 ocorrências em português para gripe suína contra 526.000 para influenza A (H1N1). Por aí dá para ver a intensidade de uso das duas expressões, uma popular, outra, científica. O combate à gripe suína é um assunto muito sério para ser prejudicado por questões lexicais. Imagino pessoas simples passando diante de um cartaz do ministério onde se lê: Previna-se contra a Influenza A (H1N1). Aposto que o alcance do cartaz seria maior se usasse o nome popular.

Existe uma distância entre a linguagem científica e a popular. Quem nunca mostrou os resultados de exames médicos para um conhecido na esperança de que o colega decifrasse as palavras obscuras que constavam do documento? Geralmente, o nome das coisas embute um conhecimento sobre o objeto que designa. Os nomes populares revelam conhecimentos populares, empíricos. Por exemplo: quando o paciente diz que está com uma queimação no estômago, está citando um sintoma do mal que o acomete e que se assemelha à dor de uma queimadura. O médico vai se referir ao mal como gastrite. O conhecimento incorporado na palavra gastrite só pode ser decifrado com conhecimentos sobre radicais e sufixos gregos. Gastrite vem de gastro (estômago) + ite (inflamação). Eureka! A queimação é uma inflamação do estômago. O divórcio entre o vocabulário popular e o científico, em parte, se explica pela natureza diferente do conhecimento que eles incorporam. Infelizmente, existem também outras motivações em jogo e a questão é mais complexa do que parece. O uso de linguagem obscura para a população, em alguns casos, garante uma reserva de mercado para os especialistas. Os campeões da obscuridade, provavelmente, são os advogados, mas os médicos não ficam para trás.

Quando o Ministério da Saúde optou pelo termo científico devia estar tentando proteger os suinocultores contra mal entendidos. Sinceramente, seria melhor se o ministério tivesse pensado primeiro nas pessoas e depois nos porcos. É mais fácil dizer às pessoas que o porco não transmite a doença do que convencer uma multidão prestes a entrar em pânico de que se fala influenza A (H1N1) em vez de gripe suína.

Blogs para escrever mais e pior

Sábado, 01/08/2009

José Saramago

Com o advento dos blogs, as pessoas estão escrevendo mais, embora pior. Quem diz isso é o Prêmio Nobel de Literatura José Saramago, ele mesmo blogueiro. Depois de ler essa declaração forte do Saramago fui direto ao blog dele conferir se a opinião se aplicava aos posts que ele mesmo produz. Que nada! O blog desse polemicista de 86 anos é muito ativo e a qualidade dos textos, impecável. Saramago nos esclarece: a facilidade com que se produz um blog leva mais pessoas a escrever, embora muitos não se preocupem em publicar textos burilados. Ele, Saramago, trata seus posts com o mesmo rigor de seus romances. Eis um bom exemplo para se refletir sobre esse gênero novo de escrita em que a instantaneidade e a urgência às vezes são confundidas com improviso e afobação.

Quem disse que blog é para escrever nas coxas o que dá na telha? Quem escreve pensando em prestar um serviço, ou seja, quem escreve para o outro e não só para si, tem que considerar que a mídia blog é rápida, mas nada impede que o texto seja elegante, coeso, conciso, denso, criativo, etc. Nada contra os blogs catárticos que o blogueiro usa como diário público, mas o meu estilo favorito de blog é aquele que tem algo a dizer e quando diz, o faz com estilo. Vivemos uma sobrecarga de informação sem precedentes na História e a atenção do leitor é um espaço a cada dia mais disputado. Quer receber atenção? Então blogue mais e melhor.

Matéria da Folha online sobre as declarações de Saramago.

Blog do Saramago

sale (liquidação)

Aqui no Paraná, nosso governador Hugo Chávez dos Pinheirais, digo Roberto Requião, sancionou uma lei antiestrangeirismo nas peças publicitárias que está causando a maior polêmica. A lei foi proposta pelo governo e vigora desde 17/07/2009, seguindo a mesma linha de lei estadual similar, criada em maio de 2009 pelos cariocas. Os publicitários locais estão em pé de guerra porque, segundo eles, a lei gera um custo Paraná para anunciantes nacionais, que terão de adaptar suas peças para veicular em solo paranaense.

A lei diz que termos estrangeiros em peças publicitárias devem ser traduzidos usando letras do mesmo tamanho usado para o estrangeirismo. Pairam dúvidas sobre a extensão da lei. Nomes próprios devem ser traduzidos também? Por exemplo: se uma construtora lançar o Central Park Residence terá que divulgar no anúncio o nome traduzido? Expressões incorporadas ao cotidiano da língua como e-mail ou know-how precisam ser traduzidas? Essas dúvidas ilustram como é complicado modelar a língua por decreto.

Ao propor a lei, o governador Requião devia estar pensando em eliminar aquelas propagandas irritantes que usam expressões como sale, 50% off ou delivery. Tudo bem, eu também fico mordido com elas e imagino que esse tipo de propaganda só agrade a algumas dondocas e dondocos. Mas bem esses são os clientes da loja, dirão os publicitários. E não é com uma penada palaciana que vamos descolonizar a cabeça desse povo, diria a voz da razão.

Não é de hoje que os publicitários e marketeiros recorrem a estrangeirismos para dar um ar de sofisticação aos produtos. Provavelmente, o Central Park Residence vende melhor do que um impensável Residencial Parque Central.Se ainda estivéssemos na esfera de influência francesa, como ocorria há um século, o empreendimento se chamaria Résidence Champs Elysées. Assim caminha a província que imita a metrópole. O governador Requião acredita que essa lei maior da imitação colonial pode ser revogada com uma lei antiestrangeirismo. É uma abordagem, pouco produtiva, mas é uma abordagem. Infelizmente, o fim do estrangeirismo fútil só vai acontecer quando deixarmos de ser colônia, ou quando formos metrópole.

sale
Está em vigor na cidade do Rio de Janeiro desde 19/05/2009 lei que exige tradução das palavras estrangeiras em peças publicitárias. Sale tem que vir traduzida para liquidação, delivery como entrega em domicílo e por aí vai. O projeto é do vereador Roberto Monteiro (PCdoB). Não é de hoje que o PCdoB se envolve na defesa do idioma pátrio. Faz alguns anos, o então deputado federal Aldo Rebelo propôs projeto de lei proibindo o uso de estrangeirismos em território nacional sempre que houvesse vocabulário nacional equivalente. A proposta não aprovada do deputado Rebelo era mais radical do que a de seu colega carioca. O vereador Monteiro alega que a lei ajuda os brasileiros que não dominam outros idiomas além do português. Quem conhece um pouco a cabeça comunas do PCdoB, porém, sabe que a implicância deles é com as palavras-americanas-imperialistas que trazem o american-way-of-life aos povos-oprimidos-da-América-Latina. Exageros à parte, nesse caso, sou obrigado a concordar com o vereador. Tem marketeiro que perdeu a noção do ridículo e quer deixar a vitrine da loja igualzinha àquela que viu na sua última viagem a NewYork. Só que o marketeiro não faz isso por acaso. Se o faz é porque o público alvo da loja adora uma imitação deslavada de NY e LA. Ou Frisco, para os mais descolados.
No mundo globalizado, é ingenuidade supor que os idiomas podem se manter estanques. O intercâmbio é necessário, saudável e bem-vindo. Não dispomos de vocábulo local para palavras como blog ou wiki. Nesse caso, usamos as palavras estrangeiras e não há risco algum para nosso idioma ou cultura. Risco haveria se nos fechássemos às novas tecnologias.
O problema, como sempre, está nos extremos. Proibir os estrangeirismos como queria o deputado Rebelo seria lamentável. Imitar as vitrines americanas usando palavras como sale, off ou delivery é para dondocas de cabeça colonizada. Ah, se algum político viesse com uma lei mais abrangente. Parágrafo único: É proibido ser ridículo ao se expressar em língua portuguesa.