Essa reforma ortográfica! Grafias duplas
Quarta-feira, 04/03/2009

O económico agrónomo cleptómano. Se você é português não deve ter estranhado a frase anterior, mas se é brasileiro pode ter ficado com a impressão que os acentos estão errados.
A reforma ortográfica, destinada a unificar a escrita em língua portuguesa, admite muitas grafias duplas. Não falo das palavras que se escreve de dois modos tanto no Brasil como em Portugal. Refiro-me às grafias duplas geograficamente marcadas. Por aqui, ninguém escreve telefónica com acento agudo e no além mar eles não escrevem toxicômano com acento circunflexo. As palavras proparoxítonas com a vogal oral o fechada têm duas grafias: uma tipicamente brasileira com acento circunflexo e outra com acento agudo usada em Portugal.
Não sei porque os redatores do Acordo Ortográfico deixaram essa grafia dupla persistir. Foi uma bola fora, pois aqui no Brasil ninguém vai escrever anómalo, da mesma forma que os portugueses não vão escrever autômato. A presença dessas palavras na escrita vai denunciar a procedência do texto. Tudo bem que é fácil identificar se o texto é de Portugal ou do Brasil sem olhar para a grafia, afinal, existem diferenças sensíveis de vocabulário e estruturas sintáticas entre essas duas variantes do português. Mas a ideia do Acordo não era unificar a escrita? Ah, esses letrados e suas excessivas exceções. Chegam a ser cómicos/cômicos.
Essa reforma ortográfica! Menos maiúsculas
Sábado, 31/01/2009

A reforma ortográfica flexibilizou o uso de maiúsculas na grafia portuguesa. Nesse ponto, a reforma seguiu a tendência dominante pela diminuição da formalidade nas relações sociais. O uso de maiúsculas na escrita é marcadamente cerimonial. Historicamente, as maiúsculas são mais antigas, surgiram na Idade Antiga, enquanto que as minúsculas foram desenvolvidas na Idade Média. Esse aspecto histórico gerou uma associação das maiúsculas ao passado glorioso do período clássico e, por isso, elas são reconhecidas como mais nobres. Começar um nome com maiúscula dá um toque de formalidade à expressão, soa como uma reverência.
O Acordo Ortográfico deixa por conta dos escribas escolherem entre a opção mais formal (com mais maiúsculas) e a mais contemporânea como nestes exemplos:
Prédio na Rua XV de Novembro.
Prédio na rua XV de Novembro.
O Governador José Serra.
O governador José Serra.
O livro Memórias de um Sargento de Milícias.
O livro Memórias de um sargento de milícias.
As ciências naturais Biologia, Física e Química.
As ciências naturais biologia, física e química.
Em outros usos as iniciais maiúsculas foram suprimidas como nos nomes dos dias da semana, meses, estações do ano e pontos cardeais (segunda-feira, janeiro, primavera e sudoeste).
Houve um tempo em que os cavalheiros tiravam o chapéu ao cruzar com as senhoras de passagem. Atualmente, os homens sequer usam chapéu e, se usassem, dificilmente fariam mesuras às damas. Foi-se o tempo das reverências. A escrita segue o espírito da sociedade, por isso, menos maiúsculas, mais moderno. Ou seria pós-moderno?
Essa reforma ortográfica! Genève, Milano e München
Quarta-feira, 28/01/2009

O Acordo Ortográfico recomenda o uso dos topônimos estrangeiros vernáculos, ou seja, devemos usar os nomes de locais estrangeiros seguindo o português tradicional. Vou exemplificar: o nome do país dos japoneses é escrito Japão aqui no Brasil, Japan pelos americanos e Nippon pelos japoneses quando eles usam o alfabeto latino. Japão é o topônimo vernáculo para o país dos japoneses e pouca semelhança tem com a forma que os nipônicos usam para se referir à sua terra. Isso acontece porque no português vernáculo era comum fazer adaptações drásticas nos topônimos estrangeiros. München passou a Munique, Milano a Milão, Genève a Genebra e assim por diante. Dá para perceber que a língua portuguesa era dominada pela idéia nacionalista de aportuguesar os nomes estrangeiros. Na atualidade, a tendência é de manter a grafia e pronúncia originais dos nomes, sempre que possível.
A regra do Acordo sobre os topônimos vernáculos não é apenas ortográfica. É também uma regra de escolha lexical, pois sugere o uso de uma palavra em lugar de outra. No caso, sugere a palavra aportuguesada em lugar da forma de origem. O Acordo Ortográfico adotou uma postura de equilíbrio nesse ponto. Manteve um pé na tradição ao recomendar o uso das formas vernáculas e se alinhou com a tendência atual do pensamento multicultural ao permitir a grafia original dos topônimos estrangeiros de formação recente. Afinal a língua não pára de evoluir e na época de Camões não existiam Zimbábue, Sri Lanka ou Mianmar.
Por isso, quando for viajar aos EUA lembre de escrever Nova Iorque enquanto estiver em solo brasileiro. Só use New York quando chegar lá. Quanto a Nova York, esqueça tanto aqui como lá.
Essa reforma ortográfica! Grafias estrangeiras
Sábado, 24/01/2009

O Acordo Ortográfico prescreve que grafias estrangeiras são aceitas apenas em nomes próprios estrangeiros e suas palavras derivadas. Entenda-se por grafia estrangeira formas de escrever incomuns em nosso idioma como em Shakespeare e shakespeariano. Se lêssemos a palavra Shakespeare segundo a nossa ortografia o resultado seria /xakespeare/ e não /xêykspir/.
Essa regra do Acordo tem um objetivo válido que é manter uma unidade mínima em nossa grafologia. A aplicação da regra, porém, é incerta principalmente no mundo real, que é bem diferente daquele idealizado por alguns gramáticos. Existem várias palavras em nossa ortografia que utilizam grafia estrangeira como em bacon que pronunciamos /bêicõ/ e paella que se fala /paêλa/. Até hoje eu não vi nenhuma cantina onde sirvam pitza de muçarela. Obs.: o Aurélio registra tanto muçarela como mozarela. Fiquem a vontade para escolher o queijo da sua preferência.
Nesses tempos de globalização é arriscado dizer que vamos evitar a entrada de grafias estrangeiras em nosso idioma. O problema maior, nesse caso, fica por conta das letras K, Y e W que contam como grafia estrangeira mas estão presentes em nossa língua em palavras como karaokê, software e yakisoba. Essa reflexão até que me deu a idéia para o nome de um dicionário digital: Dicionário Uébe.
Como se pede um x-salada (cheese-salada)?
Quarta-feira, 07/01/2009

Todo mundo conhece aquele sanduíche que leva hambúrguer, salada (alface e tomate), maionese e queijo (cheese). A maioria das lanchonetes anuncia o produto como x-salada e outras, em menor número, como cheese-salada. O x-salada é um item da culinária fast food vendido aos milhões nas lanchonetes do Brasil, mas a sua ortografia ainda não foi fixada nos dicionários nem no Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa. A análise desse caso pitoresco renderia uma monografia a um desocupado, mas para os propósitos deste post bastam algumas perguntas sem resposta.
Por que x-salada não está no dicionário se hambúrguer e misto-quente estão? Se servir de consolo, bauru e beirute também não foram dicionarizados. Que estranhos desígnios fazem com que um sanduíche popular esteja no dicionário e outro não? É porque essas palavras nasceram como nomes fantasia, dirão uns. Nem todas as palavras são palavras para dicionário dirão outros. É preciso ter paciência, vão lembrar os mais zen.
Qual é a grafia correta para x-salada (cheese-salada)? Muita gente faz piada com o x dizendo que só o usa quem não sabe escrever cheese, mas aqui vai um lembrete: o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa é contrário ao uso de grafias estrangeiras nas palavras nacionais. Assim, cheese não é uma grafia portuguesa válida, pelo menos nos rigores do Acordo.
Como escrever o nome desse calórico sanduíche, então? Já não bastava a implicância dos nutricionistas e dos anti-americanos contra o cheese-salada e agora também a dos letrados. Que tal, escrevermos xis-salada ou tchis-salada? Pensando bem, temos que levar em conta as novas regras para o hífen. Será que o correto é xissalada ou chissalada? Nossa, essa reflexão toda me deu fome. Acho que vou ali na esquina pedir um x-bacon, ou seria xisbeicom?