usina de álcool

Quando queimamos álcool no motor do carro produzimos CO2 que vai para a atmosfera. Olhando apenas para essa etapa do processo concluiríamos que o álcool aumenta o efeito estufa. Abrindo a lente da nossa análise, porém, vamos ver que o carbono presente no álcool está apenas retornando à atmosfera. Ele foi retirado do ar durante o crescimento da cana que, por fotossíntese, converte CO2 atmosférico em matéria orgânica usada para produzir álcool. Olhando dessa forma, concluiríamos que o ciclo do álcool é fechado e que esse combustível não causa nenhum aumento de efeito estufa, só estamos devolvendo para a atmosfera CO2 que já estava lá alguns meses antes.

Agora, vamos ampliar ainda mais o alcance da nossa investigação, Para produzir o álcool é preciso acionar uma indústria complexa que consome fertilizantes, utiliza máquinas agrícolas, exige transporte de materiais, usa energia intensivamente na usina, etc. Em todas as etapas desse processo, temos débito de carbono, seja na fabricação do fertilizante ou no motor a diesel do caminhão que leva a cana até a usina. Considerando o processo como um todo concluímos que sim, o álcool gera débito de carbono. Seria preciso estudos mais aprofundados para medir em quanto fica esse débito. Alguns especialistas afirmam que para cada tonelada de carbono lançada ao ar por carros a álcool, temos outros 200 kg de carbono emitidos em definitivo pela agroindústria desse produto. A situação se complica bastante se o plantio de cana de alguma forma provocar  o desmatamento de florestas nativas.

O que um ecologista deve fazer então? Lançar-se ao abismo dirigindo seu carro a álcool? Calma. O álcool continua dando de goleada em combustíveis fósseis como gasolina, diesel e gás natural. Esses produtos são lançados integralmente e em definitivo na atmosfera e não são renováveis, além de gerarem débito de carbono alto em sua cadeia produtiva. Com a evolução da tecnologia e da consciência ambiental, o débito de carbono do álcool vai cair. Por isso, em vez de se jogar nas cavas de Varanasi, deixe seu carro a álcool na garagem e utilize-o somente quando for realmente necessário. Sempre que puder, vá de transporte coletivo, de bicicleta, a pé, ou nem vá, resolva pela Internet.

Tata Nano

Nenhum carro é bom para o meio ambiente. Pronto, agora que já dissemos a verdade superior vamos falar sobre os carros populares como alternativa de baixo impacto ambiental. Ultimamente, o carro popular que está na crista da onda é o Tata Nano que será lançado em breve pela montadora indiana Tata Motors com preços a partir de 2.200 dólares. Do ponto de vista ecológico, porém, o número mais importante desse carro é o seu consumo de gasolina: 20km/litro. Sem dúvida, é um consumo melhor que o da maioria dos carros de outras montadoras. A economia do Tata Nano é suficiente para caracterizá-lo como um carro ecológico? Infelizmente, há mais questões a levar em conta quando o assunto é o impacto ambiental dos carros populares.

Mesmo com toda a evolução tecnológica parece existir uma lei básica sobre motores que todo motorista conhece: motor mais potente consume mais combustível. Além disso, motores potentes são mais caros, logo eles não são usados em carros populares. Seguindo essa lógica, carros populares sempre vão consumir menos combustível do que carros top de linha. Não se trata de uma lei da física, mas de uma constatação prática. Nem precisa dizer que essa baixa potência deixa o carro popular bastante ‘impopular’ entre os consumidores, que gostariam de fazer de 0 a 100km/h em 3 segundos, mas o numerário não permite.

Barato e econômico. Restringindo a análise a esses dois itens, um carro popular é melhor para o meio ambiente, sem dúvida. O problema, porém, é macroeconômico. Toda vez que uma montadora coloca no mercado um carro mais barato do que os da concorrência cria-se condições para que uma parcela maior da população compre carro. Ninguém contesta o direito das pessoas com menor renda terem um nível de conforto similar ao das mais afortunadas. A lógica ambiental, todavia, é implacável: Mais carros na rua significa mais emissões de carbono que nos leva a mais aquecimento global. Os carros populares não substituem as banheiras de alto consumo que circulam por aí, pois elas são compradas por outra classe social. O carro popular simplesmente aumenta a frota, sem tirar de circulação as caminhonetes de cabine dupla. Cedo ou tarde teremos que superar essa questão do carro popular x carro de luxo em favor da ideia do carro de baixo impacto ambiental. Esse novo carro terá o baixo consumo de um carro popular e avanços tecnológicos de um carro de luxo. Sobrre o preço não posso afirmar nada. Espero que seja bem baratinho.

Batmovel

O estado americano da Califórnia tem fama de estar na vanguarda da legislação ambiental. Parabéns ao exterminador de emissões e governador Arnold Schwarzenegger. Recentemente, porém, os legisladores californianos lançaram uma proposta no mínimo polêmica. A assembléia da Califórnia pode aprovar uma lei que impõe limite mínimo para a refletividade da pintura dos carros. Explicando: os carros vão ter que refletir a luz solar com eficiência para evitar que fiquem muito aquecidos quando expostos ao sol. Dessa forma, o veículo economiza no ar condicionado, consome menos combustível e lança menos carbono na atmosfera. Essa lei pode inviabilizar a fabricação de carros pretos que absorvem mais os raios solares do que as cores claras.

Leis que reduzem a poluição são sempre bem-vindas, mas é preciso tomar cuidado para não colocar o foco na ferradura, quando o problema é com o cavalo. Se as celebridades californianas saírem todas pela Sunset Boulevard de carro branco, vamos ter um ínfimo ganho ambiental, já que o problema está no carrão potente com seu ar condicionado ultra refrescante e não na cor preta da lataria. Uma lei como essa pode gerar o efeito oposto ao desejado. O cidadão que pintar o seu carro de branco pode ficar relaxado achando que zerou o seu problema ambiental. Aprovada a lei, os donos de automóvel terão que se adequar a ela, haverá muita discussão e gasto de energia à toa, já que no final o ganho será pífio. O que os californianos conscientes sabem é que para reduzir a emissão de carbono a melhor solução é deixar o carro na garagem e sair por aí pedalando uma magrela, pegando o metrô ou resolvendo a parada pela Internet. O problema é que os americanos criaram a civilização do automóvel. Para eles, o carro é praticamente uma extensão de seus corpos. Hollywood poderia ajudar a mudar essa cultura. Que tal se no próximo filme do Batman, o batmóvel fosse branco?

“Não devastem a Amazônia, vocês têm o cerrado para destruir”. Esse é o recado do governo aos pecuaristas que estão queimando a Amazônia. Diante da pressão internacional, nosso governo tenta proteger o bioma amazônico às custas do sacrifício do cerrado. A partir dessa solução sinistra, cria-se uma discussão surreal: afinal, essa fazenda pertence ao bioma amazônico ou ao cerrado? O fazendeiro diz: “Eu acho que é do cerrado e por isso posso tocar fogo nela”. O funcionário do governo contesta: “sua fazenda está dentro da área legal da Amazônia e pouco importa o tipo de árvore que tem lá.”

Nossa consciência ecológica ainda é tão raquítica que classificamos os biomas em duas categorias: os dignos de preocupação e os inúteis. No mesmo noticiário em que eu ouvi essa discussão lamentável sobre onde começa a Amazônia e onde termina o cerrado, um biólogo falou ao repórter sobre sua preocupação com a extinção de várias espécies de insetos e de outros bichos poucos comentados como as minhocas. Pobre biólogo preocupado com animaizinhos inúteis e asquerosos. Não sabe você que só merece atenção nesse mundo aquilo que for do agrado ou do interesse de uma espécie específica: o macaco de poucos pêlos e duvidosa inteligência.

Gado no pasto 

Tem gente por aí recomendando tirar a carne de gado do cardápio porque o boi produz metano durante a digestão e libera esse gás em abundantes arrotos e puns. O metano é um dos gases que causam o efeito estufa, mas antes de aposentar a churrasqueira vamos meditar um pouco sobre a questão. O boi come capim, parte do capim é transformada dentro do boi em metano. O metano sai pelo cano de escape do boi e fica na atmosfera por uns dez anos até reagir e gerar CO2. O CO2 é absorvido pelo capim que será comido pelo boi. Como se vê, o ciclo do metano gerado por ruminantes é fechado. Não podemos acusar esses grosseiros animais sem nenhuma etiqueta pelo aumento do efeito estufa.
É certo que a concentração de metano na atmosfera tem aumentado nos últimos anos, provavelmente por causa da expansão da atividade humana. Também é certo que existem problemas ambientais ligados à criação de gado como a ocupação de vastas áreas agrícolas e o baixo rendimento da pecuária. Só que antes de parar de comer carne vermelha é bom pensarmos no que vamos colocar na mesa para substituí-la? Espero que a resposta não seja peixe. Essa saudável mudança de hábito levaria à extinção dos peixes em menos de uma geração. Decididamente, o problema não é simples, então, para consolo dos amantes do churrasco deixo uma dica: o cultivo de arroz em áreas alagadas gera muito mais metano do que toda a pecuária bovina.