O desenterro do Rio Ivo

Sábado, 20/12/2008

Rua dos Chorôes com Rio Ivo em Curitiba

Por esses dias eu passava de ônibus pela Rua dos Chorões em Curitiba. No meio dessa rua passa o Rio Ivo, um pequeno córrego que atravessa a região central da cidade. Uma senhora de cabelos brancos ao meu lado comentou:

— Que horror, não é mesmo? A prefeitura devia tapar esse esgoto.

Eu estava com meu filho de 11 anos e ambos permanecemos calados diante do comentário da senhora. A maneira de pensar dela é de uma época desenvolvimentista em que era perfeitamente aceitável transformar um rio em esgoto para garantir o crescimento da cidade. Esgoto segundo essa visão é uma coisa para ser escondida e não para ser tratada.

Depois de descer do ônibus conversei com meu filho sobre o Rio Ivo. Em vez de cobrir o rio com asfalto para permitir mais carros em circulação, por que não tratar o esgoto que chega até ele? Por que não fazer o paisagismo de suas margens para que ele volte a ser uma alegria aos olhos de quem passa? E por que não deixá-lo correr a céu aberto em todo o seu percurso novamente? Hoje, boa parte do Rio Ivo está coberta por concreto e asfalto. Os mais novos sequer sabem que há um rio correndo debaixo de seus pés.

A despoluição e revitalização de um rio urbano custa dinheiro, é claro. Mas enterrar o rio também saiu muito caro. A revitalização valoriza o espaço urbano e melhora a qualidade de vida da população. Já estamos preparados para isso em termos econômicos e de tecnologia. Só não estamos preparados em nível de consciência. Talvez no dia em que as pessoas voltarem a ver o rio como fonte sagrada de vida.

Crédito de imagem: Matatias

Ecológico é: demolir viadutos

Sábado, 25/10/2008

A Prefeitura de São Paulo anunciou licitação para demolir o viaduto Diário Popular de 540m localizado na região central de São Paulo. O viaduto vai ao chão porque outras obras absorveram o fluxo de veículos que passava por ele transformando-o em um Belo Antônio. A prefeitura considera que a área no entorno do viaduto vai se valorizar com a sua demolição. No seu lugar será implantado um parque.

A notícia boa é que um viaduto vai desaparecer, a ruim é que ele será desativado porque obras de maior porte absorveram a sua função. Recursos foram gastos para ergue-lo e mais recursos serão consumidos para destruí-lo enquanto o problema do trânsito em São Paulo continua.

Quem dera muitos viadutos fossem ao chão por falta de uso. Ouso dizer que o dia mais ecológico de São Paulo vai acontecer quando o Minhocão com seus 3km de extensão for dinamitado. Mas para isso acontecer é preciso torná-lo inútil. Conseguiremos fazer isso? Chegará o dia em que não precisaremos mais de viadutos? No lugar de viadutos, parques, no lugar do asfalto, grama. Esse é o novo progresso.

Crédito de imagem: www.skyscrapercity.com

Cedo ou tarde todo mundo poderá ter um carro porque a renda aumenta e a tecnologia avança. E pode estar certo que quando esse dia chegar, tirando alguns poucos desprendidos, todos vão optar por ter seu belo carro. Nem precisa dizer que isso pode nos levar ao caos no trânsito e a uma tragédia ambiental, a menos que …

A menos que os carros fiquem a maior parte do tempo na garagem. A consciência ambiental evolui a passos de cágado. Vivemos na civilização da gasolina e as pessoas consideram o carro uma necessidade, embora ele seja mesmo uma comodidade e um símbolo de status. Diante disso, não adianta radicalizar. Em vez de pedir às pessoas que fiquem sem carro é melhor convence-las a reservar o carro apenas para os momentos necessários e significativos. Para ir ao trabalho: transporte coletivo; para passear com a família no final de semana: carro. Para correr para o hospital em uma emergência: carro; para levar o filho à escola todo dia: transporte escolar.

O uso essencial do carro é uma idéia mais assimilável pela população do que a extinção dessas máquinas. Nesse contexto de uso reduzido a população aceitaria meilhor iniciativas como fechar algumas áreas da cidade ao carro particular. Carro: use com moderação.

Um dos candidatos a prefeito de Curitiba está prometendo no horário político da TV que vai resolver o problema do trânsito curitibano construindo muitos viadutos e trincheiras pela cidade. Felizmente, segundo as pesquisas, esse candidato não tem a menor chance de se eleger. Se essa é a sua melhor proposta para melhorar o trânsito, imagine as demais.
Dirigir em Curitiba até uns quinze anos atrás era uma tranqüilidade, graças à combinação de planejamento urbano com um número bem menor de carros em circulação, equivalente à metade do que existe hoje. As administrações recentes têm evitado construir trincheiras e viadutos o que é positivo, pois essas soluções pertencem ao passado, a um urbanismo positivista que valorizava obras monumentais, com grandes movimentações de terra e muito concreto. Viadutos e trincheiras são intervenções drásticas na paisagem urbana que a desumanizam e têm impacto ambiental alto. Além disso, não atacam o problema do trânsito pelo caminho sustentável. Resolver o problema do trânsito não é ampliar as vias de tráfego para comportar mais e mais veículos. A solução genuína para o caos do trânsito é tirar os carros da rua com medidas como estimular o uso do transporte coletivo e descentralizar a cidade para reduzir os deslocamentos da população. Resolver o caos no trânsito é estimular a ocupação do centro comercial por moradores para usar melhor a estrutura urbana, é desestimular a concentração do comércio em shoppings para evitar os longos deslocamentos da população até esses caixotes refrigerados do consumo. Desconfie de candidatos que propõem obras faraônicas para problemas que exigem apenas planejamento e mudanças de postura.

O Dia Mundial sem Carro desse ano (22/09/08) pelo menos na capital paulista foi um vexame. Eu estava lá a serviço e o que vi foi carro para todo lado. O paulistano não deixou o carro na garagem e se alguns poucos aderiram à mobilização não foi o suficiente para amenizar o caos do trânsito.
Os quatro principais candidatos a prefeito de São Paulo se posicionaram nesse dia. Marta Suplicy, Geraldo Alckmin e o atual prefeito Gilberto Kassab foram de ônibus a um evento para marcar o dia que deveria ser sem carro. O candidato Paulo Maluf, ao contrário, promoveu uma carreata e atacou seus adversários acusando-os de hipócritas por pegarem ônibus uma vez por ano.
O Maluf deve saber que em política, boas intenções não valem nada. O que conta são os atos. Os adversários dele podem ser hipócritas, mas se deslocaram de ônibus e ele fez carreata. Paulo Maluf é um dinossauro remanescente de uma linhagem de políticos desenvolvimentistas. Maluf é do tempo das obras faraônicas, do crescimento ao infinito e além; é do tempo dos longos túneis, dos grandes viadutos, dos elevados. Ao fazer uma carreta Maluf foi coerente com sua história. Quando administrou São Paulo ele construiu obras de grande porte para permitir mais e mais carros em circulação. Políticos como Maluf tiveram seu momento e seu papel. São de uma época em que o Brasil crescia de maneira explosiva, tempo em que as pessoas não acreditavam em limites para o progresso nem no esgotamento dos recursos. O tempo do desenvolvimentismo acabou e as pessoas começam a assimilar a idéia do progresso sustentável. Não por acaso, os três candidatos criticados por Maluf estão à frente dele nas pesquisas eleitorais.
Voltando para Curitiba, passei de táxi pelo Elevado Costa e Silva, obra do prefeito Paulo Maluf também conhecida como Minhocão. É triste ver a degradação do espaço urbano que essa obra de 3,4 km causou ao longo do seu traçado. Pela janela do táxi eu via prédios e mais prédios em estado lamentável de conservação por causa da desvalorização da área. Nesse dia, o elevado construído para desafogar o trânsito paulista estava congestionado.

Em tempo: mesmo estando em São Paulo, cidade dos grandes deslocamentos, não furei o Dia Mundial sem Carro. Resolvi tudo com meu S-pé-2. Por sorte, os locais em que fui estavam todos ao alcance de uma saudável caminhada.

Crédito de imagem: www.br101.org