A boa e velha justiça com as próprias mãos
Quarta-feira, 26/11/2008
Nos últimos tempos assisti a três filmes particularmente violentos e interessantes: Os reis da rua, Sentença de morte e Valente. O tema comum aos três filmes é a justiça com as próprias mãos. Em cada um deles, os personagens se envolvem profundamente na violência urbana. Em Valente, a personagem de Jodie Foster é vítima de espancamento brutal. Em Sentença de Morte, o personagem de Kevin Bacon tem o filho assassinado por uma gangue urbana. Em Os reis da rua, Keanu Reeves interpreta um policial que resolve seus casos segundo seus próprios métodos.
A violência não é uma novidade no cinema, nem tampouco a justiça com as próprias mãos. Quem já assistiu aos velhos westerns sabe que no oeste longínquo a única maneira de fazer justiça era com um revólver na mão. Fico pensando a quem faz bem esse tipo de filme: ao roteirista, ao diretor ou ao espectador? Creio que a todos. É isso mesmo que eu disse: esses filmes fazem bem. Por que? Simplesmente porque abrem uma válvula de escape no alto da cabeça do cidadão que assiste pela TV diariamente o fracasso da Justiça oficial em resolver a violência urbana. E a justiça com as próprias mãos resolve alguma coisa? Boa pergunta. Quem sabe assistindo a alguns bons filmes sobre o assunto, ajude formar opinião a respeito.
A de anarquia. T de terror
Sábado, 29/03/2008
O símbolo usado no filme V de Vingança é um traço nervoso da letra V dentro de um círculo. Basta girar o símbolo para ele ficar parecido como o A de anarquia que foi pichado em tantos muros pelo movimento anarquista. Eu sei que estou atrasado com o meu comentário porque o filme foi lançado em 2006, mas como eu sou apenas um cinéfilo amador posso me conceder algumas liberdades. Uma delas é a de assistir à maioria dos filmes apenas quando eles chegam à locadora. À primeira vista, trata-se de mais versão para as telas de um sucesso das histórias em quadrinhos. Ele apresenta inclusive o clássico problema dos heróis mascarados: ficamos privados das expressões faciais do ator. Eu não gostei do filme, mas isso não é um empecilho para eu reconhecer que é uma obra importante. Por que? Porque traça a visão entusiasmada e fundamentalista de uma parcela significativa da população. Porque faz a glamourização descarada do terror e, infelizmente, há muitas pessoas que acham que o terror é a grande solução para os grandes problemas. É impossível não associar a apoteótica explosão do final do filme à queda das torres gêmeas de Nova York. V de Vingança é o elogio da destruição simbólica, é a legitimação do terror como vingança. T de terror. Mas o que é o terror? Bem, vamos parar por aqui porque o assunto pode ficar filosófico e deprimente.
Sou tropa de elite
Sábado, 20/10/2007
É irônico, mas o filme Tropa de Elite, que bate duro na corrupção brasileira, fez o maior sucesso nas bancas dos camelôs antes mesmo de seu lançamento no cinema. Estima-se que mais pessoas assistiram ao filme em DVD pirata do que nos cinemas. Eu, que assisti no cinema, estou me sentido na tropa de elite dos espectadores. Não é fácil ser honesto quando o assunto é pirataria. Para assistir a um filme com a família toda (quatro pessoas, sendo duas estudantes) é preciso desembolsar mais de R$ 40,00. Na banca do camelô da esquina, o DVD pirata custa R$ 5,00. O “sistema” cria toda uma máquina de sedução em favor da pirataria. Somente consumidores que passaram por um rigoroso treinamento para endurecer o caráter é que resistem ao assédio da pirataria. É faca na caveira e nada na carteira, mano.
Para ver minha crítica ao filme Tropa de Elite, clique aqui.
Títulos and titles
Quinta-feira, 07/06/2007
Traduções podem ser surpreendentes. Às vezes empobrecem o texto original. Dizem que essa é a possibilidade que ocorre com maior freqüência. Em outros casos, fazem o texto original parecer melhor do que realmente é. E há os casos em que a tradução é independente a ponto de não ter quase nada a ver com o original. Veja alguns títulos de filmes só para ilustrar a idéia. Em itálico, o título original e entre parênteses uma tradução mais literal.
A primeira noite de um homem
The graduate (O diplomado)
Crepúsculo dos deuses
Sunset Boulevard (Bulevar do pôr do sol).
O original faz referência à famosa avenida de Hollywood.
Duelo de titãs
Last train from Gun Hill (Último trem de Gun Hill)
Gun Hill é uma localidade onde acontecem cenas do filme.
O destino bate à sua porta
The postman always rings twice (O carteiro sempre toca duas vezes)
Os brutos também amam
Shane (Nome do personagem principal)
Meu ódio será sua herança
The wild bunch (O bando selvagem)
Rastros de ódio
The searchers (Os procuradores ou Os buscadores).
Sete homens e um destino
The magnificent seven (Os sete magníficos)
Três homens em conflito
Il buno, il brutto, il cattivo (O bom, o mau e o feio)
Vidas amargas
East of Eden (A leste do Éden)
O meu favorito é Rastros de ódio. Ainda está para aparecer um título melhor que esse. Não tem quase nada a ver com o original, mas sintetiza o filme. Filosófico, profundo. Aliás, os títulos brasileiros de westerns são muito inspirados, um caso a parte realmente.
A babelização do cinema
Quinta-feira, 07/06/2007
Babel, o último filme de Alejandro González Iñárritu, consolida uma das tendências do cinema americano: o multiculturalismo. Iñárritu é mexicano, mas faz carreira brilhante em Hollywood, juntamente com conterrâneos seus como Alfonso Cuarón e Guillermo Del Toro. Isso não é exatamente uma novidade, pois Hollywood em seu anos iniciais acolheu diretores estrangeiros que se tornaram lendários como o italiano Frank Capra, o grego Elia Kazan ou o austríaco Billy Wilder. Esses saudosos diretores, porém, eram imigrantes que buscaram a América em uma época em que lá ficava a terra prometida. Em tempos atuais, o que vale são as regras da globalização. Hollywood vai buscar os bons diretores onde quer que eles estejam. O brasileiro Fernando Meirelles já dirigiu em Hollywood, um reconhecimento ao seu talento incontestável e ao seu potencial para gerar bilheterias. Mas não é só por isso que Hollywood abre portas aos talentos de outros países. A moeda sonante caindo nas bilheterias do mundo afora continua ditando a lei imutável da indústria cinematográfica. E para embolsar o money é preciso estar sintonizado com as tendências culturais. A onda da padronização pelo american way já teve seu auge e começa a refluir. A cada ação, uma reação. A americanização do mundo gerou seus efeitos colaterais e os anticorpos da cultura produziram o multiculturalismo. Já são inúmeros os filmes notáveis falados em vários idiomas, ou americanos, mas falados em outro idioma que não o inglês. Bom para todos, inclusive para os americanos. Nem só de big mac vive o homem.


