Quantos livros de papel um Kindle substitui?
Quarta-feira, 18/11/2009

O Kindle, leitor de livros digitais da Amazon tem memória para armazenar 1.500 livros, logo este é o número de livros de papel que ele substitui, certo? Que bom se fosse simples assim. Vamos para o mundo real: são poucas as pessoas que leem 1.500 livros ao longo de uma vida. Basta fazer um cálculo simples: se o leitor conseguir ler um livro por quinzena, o que é uma média realista, vai levar 57 anos para dar conta da biblioteca contida em um Kindle. Ninguém sabe se o Kindle dura 57 anos, mas como trata-se de um aparelho eletrônico é sensato supor que sua vida útil média gira em torno de dez anos. Vamos levar em conta também que o Kindle é um bem de uso pessoal. As pessoas não compartilham seu leitor digital por aí, exceto bibliotecas que adquirem aparelhos para emprestar ao seu público. Como o uso normal do Kindle é pessoal e intransferível, durante sua vida útil uns 260 livros serão lidos em sua tela. É um número interessante e se levarmos em conta que as pessoas adquirem muitos livros que não leem, a economia de papel do Kindle é maior ainda. Além disso, muitos jornais e revistas podem passar por ele durante sua vida útil e talvez aí esteja a maior economia de papel que esse aparelho pode propiciar. Sim, o Kindle substitui um volume considerável de papel mesmo como bem de uso individual A natureza agradece. Se você pretende adquirir um leitor digital de livros, considere a possibilidade de compartilhá-lo com as pessoas próximas de você. Um e-book reader na mão de uma pessoa salva árvores, compartilhado entre várias pessoas, salva muito mais.
Uniban ou Taliban?
Sábado, 14/11/2009

O incidente envolvendo a aluna Geisy Arruda colocou a direção da Uniban em uma saia justa cor de rosa e mostra que os acadêmicos dessa universidade tem muita lição de casa para pôr em dia. Recapitulando: a aluna compareceu ao campus da Universidade Bandeirante em São Paulo desfilando um modelito curtíssimo e foi hostilizada pelos alunos que a xingaram de puta, entre outras humilhações. A moça teve que sair do campus escoltada pela polícia militar. O episódio ficou registrado em vídeos amadores publicados no YouTube. Com isso, o caso ganhou repercussão nacional na imprensa, o que faz sentido, tendo em vista as cenas grotescas.
A universitária errou no comprimento do vestido e confundiu as rampas da universidade com a avenida Marquês de Sapucaí, onde desfilam as escolas de samba do Rio de Janeiro. O comportamento exibicionista dela não foi adequado ao contexto, mas temos que dar um desconto, pois se trata de uma caloura de 20 anos que mora em um país tropical de costumes flexíveis. O que se faz nesses casos é chamar a moça assanhada para uma conversa na coordenação e pronto.
A reação dos colegas de Geisy, por outro lado, foi desproporcional e preconceituosa. É inadmissível que universitários tenham esse comportamento tacanho de manada. Os estudantes que xingaram, perseguiram e ameaçaram Geisy porque ela desfilou de vestido curto pela escola precisam de uma urgente reciclagem ética. Analisando o desdobramento do incidente concluímos que o amadurecimento desses jovens ainda está longe de acontecer. Até agora os estudantes estão devendo uma retratação para a opinião pública, mas parece que querem apenas ser deixados em paz como se a questão fosse um assunto interno da escola no qual ninguém de fora deve meter o bico. A direção da universidade mostrou que não tem compromissos éticos e que vai para onde sopra o vento. Primeiro expulsaram a aluna, provavelmente, por causa das pressões dos alunos clientes. Menos de 24 horas após a expulsão reverteram a decisão sob a forte pressão da opinião pública.
Esse transbordo fundamentalista da Uniban me faz pensar em outro momento da mobilização estudantil ocorrido na UnB. Em 2008, os estudantes da Universidade de Brasília também se mobilizaram pela exclusão de um membro da comunidade universitária. No caso, tratava-se do reitor Timothy Muholland. Ainda lembro como fiquei contente ao ver os estudantes da UnB lutando para não deixar mais um caso de corrupção acabar em pizza. O arrogante reitor da UnB estava trançando seus pauzinhos para se manter no cargo, mas não contava com o espírito aguerrido dos estudantes que ocuparam a reitoria até que ele anunciasse seu afastamento do cargo. Quanta diferença entre um episódio e outro. Na UnB vimos estudantes lutando pela ética no melhor estilo da combativividade estudantil. enquanto que na Uniban vimos um retrógrado linchamento moral.
Pode ser que eu tenha uma visão idealizada sobre os universitários, mas a minha expectativa é alta e o que espero desses jovens é vê-los envolvidos com as boas causas. Incidentes como esse da Uniban só servem para manchar a imagem dos universitários. Com certeza, na Uniban há muitos jovens descontentes com o desenrolar dos fatos, mas onde estão eles? Por que não se manifestam? Será que só os preconceituosos arruaceiros tem voz naquele campus?
Eu sei que é perigosa a comparação entre os acontecimentos da UnB em 2008 e da Uniban em 2009. Temos de um lado uma universidade pública, concorrida e prestigiada e, do outro, uma instituição privada, popular e com mensalidades a partir de R$ 199,00. O incidente Geisy Arruda teria alguma relação com a massificação do ensino universitário? Espero que não, mas é preciso meditar antes de responder. A parte boa dessa história foi o uso da Internet como canal de expressão do cidadão. A direção da Uniban tentou tirar os vídeos do ar, o que não causa espanto, pois bola fora é com eles mesmo. Felizmente, depois da trapalhada da expulsão da aluna, a direção da Uniban tomou uma medida acertada: promover um ciclo de palestras na escola sobre cidadania. O senador Suplicy de São Paulo foi o primeiro palestrante. Quem sabe assim, a classe universitária vai ao paraíso.
O feminista e o galão de água mineral
Sábado, 07/11/2009

Quando acaba a água no bebedouro do escritório não demora até aparecer uma colaboradora pró-ativa para resolver o problema:
— Será que não tem um homem forte nesta sala para virar o galão de água mineral?
Imediatamente, vão surgindo as desculpas:
— Estou com uma séria lombalgia.
— Tenho que terminar esse relatório urgente.
— Cadê o pessoal dos serviços gerais?
Algumas vezes eu já virei o galão, mas antes disso sempre pergunto:
— Será que nenhuma mulher moderna da sala se habilita a executar essa operação braçal?
Felizmente, lá no escritório existem mulheres que viram galão de água mineral. Infelizmente são poucas; a maioria delas ainda torce o nariz diante da tarefa, como se tudo que envolve esforço físico fosse coisa de homem.
Durante quase toda a História, as mulheres realizaram atividades que envolvem esforço físico moderado. Minhas avós, Judite e Sofia trabalhavam na roça, capinavam, tiravam água do poço, tratavam os animais, partiam lenha, debulhavam milho. Essa história de dizer que mulher não pode fazer esforço físico é invenção moderna. Provavelmente, começou no pós-guerra com a proliferação dos aparelhos elétricos de uso doméstico. Com a eletricidade dentro de casa, algumas mulheres passaram a crer na ideia de que o máximo esforço que devem realizar é apertar botões. Juntando essa crença com a lógica da divisão de papéis e tarefas da sociedade industrial criou-se a cultura de que mulher faz algumas coisas e homem faz outras. Homem faz força e mulher faz limpeza. Com honrosas exceções, lá no escritório essa divisão continua em vigor. Uma mulher limpa o galão, passa álcool e um homem forte vira o galão no bebedouro.
Como homem feminista que sou, conclamo essas mulheres saudáveis e saradas das academias a galgarem um novo patamar da libertação feminina. A mulher do século XIX tinha deveres. a mulher do século XX tinha direitos, a mulher do século XXI tem direitos e deveres. Decididamente, a libertação da mulher passa por trocar um pneu e pagar a conta do motel.
Crédito de imagem: Submarino
A última sessão de cinema
Quarta-feira, 04/11/2009

Há várias formas de assistir um bom filme como comprar o DVD, alugá-lo, esperar pela exibição na TV a cabo ou aberta, só para citar algumas alternativas dentro da lei. Na teoria, nenhuma dessas formas se compara à experiência clássica de ir a um bom cinema. Só no cinema você assiste o filme em primeira mão, com a melhor imagem e o melhor som, acomodado no melhor ambiente, certo? Há controvérsias. Eu adoro bons filmes, porém sou franco em dizer que vou pouco ao cinema e, provavelmente, vou abandonar essa opção que nos últimos tempos tem me causado mais chateações do que bons momentos.
No último feriado, minha filha me propôs que fôssemos assistir Bastardos Inglórios. Eu pensei: é um filme do Tarantino. Deve ter todo aquele cinismo e rios de sangue. Por que você quer ver esse filme, filha? Porque fala sobre a Segunda Guerra Mundial. Lembrei que ela deve estar estudando esse assunto na escola e que na semana anterior ela tinha alugado O menino do pijama listrado, um filme sobre Holocausto. Ok, bom argumento, bom filme, vamos lá. Na bilheteria, pediram a carteira de identidade dela. Infelizmente, sua filha tem 17 anos e meio e o filme é para maiores de 18. Para não deixar sem registro, fui falar com a gerente do cinema. Com aquele tom burocrático dos colaboradores contemporâneos ela me explicou que são regras do Ministério da Justiça, bla bla bla. Eu lembrei à gerente que na semana anterior eu estive no mesmo cinema e precisei pagar inteira para meu filho porque ele tinha esquecido a carteirinha de estudante. Se meu filho de 12 anos não é estudante, quem é então? Essas aporrinhações se somam a outras como horários inconvenientes, sessões lotadas, algazarra, sem falar do cara que atende o celular ao seu lado durante a sessão. Como pão duro de carteirinha que sou, não poderia deixar de citar o preço do cinema que para a família toda fica pelo menos cinco vezes mais caro do que o DVD da locadora.
Federico Fellini dizia que filmes são para se ver no cinema e não em casa, pois só na sagrada sala escura se encontra o ambiente mínimo de respeito que uma obra de arte merece. Concordo com o mestre quanto ao respeito, mas garanto que consigo esse ambiente muito mais facilmente em casa do que no shopping. Sou de um tempo anterior ao videocassete em que só havia duas maneiras de ver um filme: no cinema ou pela TV aberta. Naquela época, os cinemas de Curitiba tinham nomes como Avenida, Excelsior, Vitória, Astor, Rívoli, Lido, Bristol e não ficavam em shoppings porque não havia shoppings. Naqueles tempos de ditadura militar existia uma tal de censura e, mesmo assim, eu assisti alguns filmes impróprios para a minha idade. Por causa desse passado saudoso, eu tenho uma relação sentimental com as salas de cinema, mas meu lado Spock me diz: que videolocadora cobra meia locação de uns e inteira de outros? Ao comprar um DVD, o vendedor pergunta qual é a idade das pessoas que vão assistir o filme? A pipoca feita em casa vai me custar R$ 15,00?
Eu poderia ter dito à gerente do cinema: Ok, vou para casa agora baixar o filme pela Internet e vou assisti-lo de graça sem dar a mínima para portaria de Ministério, mas calma lá! Se todo mundo fizer isso por um punhado de dólares vamos quebrar a indústria do cinema e não teremos mais filmes do Tarantino para ver. Por isso, conversei com minha filha e vamos procurar algumas alternativas de passeio porque a velha sala escura está precisando de uma reforma. Quanto a Bastardos Inglórios, basta esperar uns meses até o filme ser lançado em DVD. Até lá, minha filha já terá 18 anos e poderemos assisti-lo em casa sem problemas de nenhum tipo.
As três identidades do homem digital
Quarta-feira, 07/10/2009

O homem moderno tem uma imagem digital a zelar, ou melhor: três. Estou falando do eu mesmo, do eu corporativo e do outro eu. Nem todos conseguem separar com clareza essas três imagens, o que pode render transtornos consideráveis ao proprietário.
- Eu mesmo. Corresponde à sua identidade de pessoa física, de paisano. Essa identidade torce para um time de futebol, vota, tem apelido, fé, preferência sexual, etc. É uma identidade mais informal, mas geralmente contida.
- Eu corporativo. Liga-se à sua imagem de profissional, de estudante, ao papel social que você desempenha. O eu corporativo é mais formal, cauteloso e reservado.
- Outro eu. Também conhecido como perfil fake, é uma projeção, é o individuo que se manifesta sob o manto do anonimato. Qual será mais autêntico? o eu mesmo ou o outro eu? Essa é uma pergunta que ficará sem resposta pelos séculos. O outro eu costuma levar pitadas de marotice e transgressão.
A regra é simples e clara: separe as três identidades. O eu mesmo deve ter um endereço de e-mail e o eu corporativo, outro. Isso é básico, mas muita gente usa a mesma caixa postal para se declarar à namorada e para se desculpar com o chefe pelo abraso na entrega do serviço. Pessoas cautelosas têm contas de e-mail separadas para cada eu, mas a preocupação com a separação das identidades costuma ficar por aí. Quem cria dois Twitters: um profissional e outro pessoal? Quem faz duas contas no MSN, uma para usar em casa e outra para o escritório? A mistura de identidades costuma ser maior entre o eu mesmo e o eu corporativo. O outro eu, por definição, é para ficar isolado das demais identidades, senão dá encrenca. Quando o usuário de informática faz essa separação com clareza, seu dia a dia fica mais organizado e não acontece mistura de estações. É uma identidade de dia, outra de noite e uma terceira no silêncio da madrugada.