Como se pede um x-salada (cheese-salada)?
Quarta-feira, 07/01/2009

Todo mundo conhece aquele sanduíche que leva hambúrguer, salada (alface e tomate), maionese e queijo (cheese). A maioria das lanchonetes anuncia o produto como x-salada e outras, em menor número, como cheese-salada. O x-salada é um item da culinária fast food vendido aos milhões nas lanchonetes do Brasil, mas a sua ortografia ainda não foi fixada nos dicionários nem no Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa. A análise desse caso pitoresco renderia uma monografia a um desocupado, mas para os propósitos deste post bastam algumas perguntas sem resposta.
Por que x-salada não está no dicionário se hambúrguer e misto-quente estão? Se servir de consolo, bauru e beirute também não foram dicionarizados. Que estranhos desígnios fazem com que um sanduíche popular esteja no dicionário e outro não? É porque essas palavras nasceram como nomes fantasia, dirão uns. Nem todas as palavras são palavras para dicionário dirão outros. É preciso ter paciência, vão lembrar os mais zen.
Qual é a grafia correta para x-salada (cheese-salada)? Muita gente faz piada com o x dizendo que só o usa quem não sabe escrever cheese, mas aqui vai um lembrete: o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa é contrário ao uso de grafias estrangeiras nas palavras nacionais. Assim, cheese não é uma grafia portuguesa válida, pelo menos nos rigores do Acordo.
Como escrever o nome desse calórico sanduíche, então? Já não bastava a implicância dos nutricionistas e dos anti-americanos contra o cheese-salada e agora também a dos letrados. Que tal, escrevermos xis-salada ou tchis-salada? Pensando bem, temos que levar em conta as novas regras para o hífen. Será que o correto é xissalada ou chissalada? Nossa, essa reflexão toda me deu fome. Acho que vou ali na esquina pedir um x-bacon, ou seria xisbeicom?
Por que solucionática não está nos dicionários?
Quarta-feira, 03/12/2008
A palavra solucionática não consta no Dicionário Houaiss, nem no Aurélio, os dois dicionários mais importantes do Brasil. Poucas palavras na língua portuguesa têm uma biografia tão rica e documentada. Sabemos quem é o pai (Dadá Maravilha), quando foi criada (em uma conversa no avião entre Dadá e o presidente JK) e há vários documentos que tratam dela (incluindo uma crônica de Carlos Drummond de Andrade).
Solucionática ganhou notoriedade quando o jogador Dadá Maravilha soltou sua famosa frase durante entrevista após um jogo de futebol: “Não me venham com a problemática que eu tenho a solucionática.” Fazendo uma pesquisa no Google encontramos a palavra em pleno uso. Ela dá nome a uma empresa de Informática, faz parte do nome de vários blogs, além de constar em vários sites associada às frases famosas do folclórico Dadá. Porém, não é uma palavra dicionarizada. Não vale dizer que uma palavra precisa se consolidar para aparecer no dicionário, afinal de contas, soucionática está em uso há mais de trinta anos. Talvez o problema com solucionática seja o fato de ela ser uma espécie de antipalavra. Ela foi inventada por um jogador de futebol de inguinorança notória. Não vem ao caso o fato de o Dadá ter uma criatividade exuberante para se expressar. Um gênio iletrado não pode criar uma palavra dicionarizada? Solucionática não é uma palavra, é uma piada, dirão alguns. Ou não? Está colocada a problemática. Qual seria a solucionática? Ops. Usei a antipalavra.
Não perca: Ouça a entrevista de Dadá Maravilha em que conta a história da sua famosa palavra. Entrevista ao Radar Cultura.
Crédito de imagem: J. Bosco
Essa língua portuguesa: o bundá
Quarta-feira, 19/11/2008
E se de repente alguém lhe dissesse: tire o seu bundá da cadeira, por favor. Calma, não é um alemão sem domínio do idioma português. Bundá é apenas um traste, um agrupamento de utensílios velhos. Fui apresentado à esse especimen vocabular raro por acaso, durante uma consulta ao Aurélio. Bundá é sinônimo de cacaréus. Repare na transcrição a seguir que preciosidade é o verbete cacareus do Aurélio. É por essa e por outras que me ufano de me expressar em língua portuguesa brasileira, última flor do Lácio do além mar.
cacaréus
Substantivo masculino plural.
1. Trastes e utensílios velhos:
“A velha …. lá foi, …. alojar-se em casa do genro, com um batalhão de moleques, suas crias, e com os cacaréus ainda do tempo do defunto marido.” (Aluísio Azevedo, O Mulato, 14.) [Sin. (bras. na grande maioria): afavecos, cacarecos, cacaria, cacaréu, bagulho, brogúncias, bundá, candibá, caraminguás, muafos, mucufos, mucumbagem, mucumbu, quibembes, tralha, tralhada, xurumbambo.] ~ V. cacaréu.
Crédito de imagem: olhares.aeiou.pt
Leitor de dicionário
Quarta-feira, 06/06/2007
Há várias formas de se melhorar o conhecimento da língua. Pode-se ler a lista telefônica, classificados de jornal ou banheiro de rodoviária. Mas o dicionário é uma fonte deliciosa de informação sobre a cultura popular. Meus verbetes favoritos do Aurélio são estes:
Cachaça
[De or. controvertida.] S. f. Bras. 1. Aguardente que se obtém mediante a fermentação e destilação do mel1 (4), ou borras do melaço. [Sin. (pop. ou de gír., e bras. na maioria, muitos deles regionais): abre, abrideira, aca, aço, a-do-ó, água-benta, água-bruta, água-de-briga, água-de-cana, água-que-gato-não-bebe, água-que-passarinho-não-bebe, aguardente, aguardente de cana, aguarrás, águas-de-setembro, alpista, aninha, arrebenta-peito, assovio-de-cobra, azougue, azuladinha, azulzinha, bagaceira, baronesa, bicha, bico, birita, boa, borbulhante, boresca, branca, branquinha, brasa, brasileira, caiana, calibrina, cambraia, cana, cândida, canguara, canha, caninha, canjebrina, canjica, capote-de-pobre, catuta, caxaramba, caxiri, caxirim, cobreira, corta-bainha, cotréia, cumbe, cumulaia, danada, delas-frias, dengosa, desmancha-samba, dindinha, dona-branca, ela, elixir, engasga-gato, espírito, esquenta-por-dentro, filha-de-senhor-de-engenho, fruta, gás, girgolina, goró, gororoba, gramática, guampa, homeopatia, imaculada, já-começa, januária, jeribita ou jurubita, jinjibirra, junça, jura, legume, limpa, lindinha, lisa, maçangana, malunga, malvada, mamãe-de-aluana ou mamãe-de-aruana, mamãe-de-luana, mamãe-de-luanda, mamãe-sacode, mandureba ou mundureba, marafo, maria-branca, mata-bicho, meu-consolo, minduba, miscorete, moça-branca, monjopina, montuava, morrão, morretiana, não-sei-quê, óleo, orotanje, otim, panete, parati, patrícia, perigosa, pevide, pilóia, pinga, piribita, prego, porongo, pura, purinha, quebra-goela, quebra-munheca, rama, remédio, restilo, retrós, roxo-forte, samba, sete-virtudes, sinhaninha, sinhazinha, sipia, siúba, sumo-da-cana, suor-de-alambique, supupara, tafiá, teimosa, terebintina, tira-teima, tiúba, tome-juízo, três-martelos, uca, veneno, xinapre, zuninga.] 2. P. ext. Pop. Qualquer bebida alcoólica. [M. us. no pl.] 3. Dose (3) de cachaça. 4. Bras. Espuma grossa que, na primeira fervura, se tira do suco da cana na caldeira. 5. Fig. Paixão, inclinação, gosto (por pessoa ou coisa): Tem uma cachaça pela pequena!; O cinema é a sua cachaça. ¿ S. m. 6. Bras. V. ébrio (8). Cachaça da cabeça. 1. Bras. Aguardente da cabeça.
Caipira
[De or. controvertida; tupi, poss.] S. 2 g. 1. Bras. S. Habitante do campo ou da roça, particularmente os de pouca instrução e de convívio e modos rústicos e canhestros. [Sin., sendo alguns regionais: araruama, babaquara, babeco, baiano, baiquara, beira-corgo, beiradeiro, biriba ou biriva, botocudo, brocoió, bruaqueiro, caapora, caboclo, caburé, cafumango, caiçara, cambembe, camisão, canguaí, canguçu, capa-bode, capiau, capicongo, capuava, capurreiro, cariazal, casaca, casacudo, casca-grossa, catatuá, catimbó, catrumano, chapadeiro, curau, curumba, groteiro, guasca, jeca, jacu, macaqueiro, mambira, mandi ou mandim, mandioqueiro, mano-juca, maratimba, mateiro, matuto, mixanga, mixuango ou muxuango, mocorongo, moqueta, mucufo, pé-duro, pé-no-chão, pioca, piraguara, piraquara, queijeiro, restingueiro, roceiro, saquarema, sertanejo, sitiano, tabaréu, tapiocano, urumbeba ou urumbeva.] ¿ S. m. 2. Bras. N.E. Jogo de parada, com um dado apenas, ou roleta, entre gente de condição humilde. ¿ Adj. 2 g. 3. Bras. Diz-se do caipira (1); biriba ou biriva, matuto, sertanejo. 4. Bras. Pertencente ou relativo a, ou próprio de caipira (1); biriba ou biriva, jeca, matuto, roceiro, sertanejo. 5. Bras. Diz-se do indivíduo sem traquejo social; cafona, casca-grossa. 6. Bras. Diz-se das festas juninas e do traje típico usado nessas festas. [Cf. (nas acepç. 1, 3, 4 e 5) provinciano.]
Morrer
[Do lat. vulg. morrere, por mori.] V. int. 1. Perder a vida; exalar o último suspiro; falecer, finar-se, expirar, fazer ablativo de viagem, perecer: “Minha mãe de saudades morreria / Se eu morresse amanhã.” (Álvares de Azevedo, Obras Completas, I, p. 326.) [Sin., muitos deles bras., pop. ou de gíria: abotoar, abotoar o paletó, adormecer no Senhor, apagar, apitar, assentar o cabelo, bafuntar, bater a alcatra na terra ingrata, bater a(s) bota(s), bater a caçoleta, bater a canastra, bater a pacuera, bater com a cola na cerca, bater o pacau, bater o prego, bater o trinta-e-um, bater o trinta-e-um-de-roda, botar o bloco na rua, comer capim pela raiz, dar a alma a Deus, dar a alma ao Criador, dar à casca, dar à espinha, dar a lonca, dar a ossada, dar com o rabo na cerca, dar o couro às varas, dar o último alento, defuntar, desaparecer, descansar, descer à cova, descer à terra, descer ao túmulo, desencarnar, desinfetar o beco, desocupar o beco, desviver, dizer adeus ao mundo, embarcar, embarcar deste mundo para um melhor, empacotar, entregar a alma a Deus, entregar a alma ao Diabo, entregar a rapadura, espichar, espichar a canela, esticar, esticar a canela, esticar o cambito, esticar o pernil, estuporar(-se), expirar, fazer ablativo de partida, fazer ablativo de viagem, fazer passagem, fechar o paletó, fechar os olhos, fenecer, finar(-se), fincar as aspas no inferno, ir para a Cacuia, ir para a cidade dos pés juntos, ir para a Cucuia, ir para bom lugar, ir para o Acre, ir para o beleléu, ir para o outro mundo, ir(-se), ir(-se) desta para melhor, largar a casca, passar, passar desta para melhor, passar desta para melhor vida, pifar, pitar macaia, quebrar a tira, render a alma ao Criador, render o espírito, vestir o paletó de madeira, vestir o pijama de madeira, virar presunto.] 2. Extinguir-se, acabar(-se), findar: “A tarde morre tranqüilamente: / Na freguesia soam trindades” (Conde de Monsaraz, Musa Alentejana, p. 17) 3. Afrouxar gradualmente; desaparecer: A luz morria no horizonte; “Ontem à tarde quando o Sol morria, / A natureza era um poema santo” (Castro Alves, Obras Escolhidas, p. 97) 4. Perder (a planta) a cor e o vigor; estiolar-se. 5. Ficar suspenso; interromper-se: O grito morreu na garganta. 6. Ficar no esquecimento; perder a eficácia: As palavras dos grandes filósofos nunca morrem. 7. Terminar, acabar, findar. 8. Perder o movimento. 9. Perder o brilho; tornar-se menos vivo: A luz do lampadário entrou a morrer. 10. Bras. Autom. Parar de funcionar: De repente o automóvel morreu. T. c. 11. Acabar, terminar, chegar: A estrada morria na montanha. 12. Lançar suas águas; desaguar: O rio morre no oceano. T. i. 13. Experimentar em grau muito intenso (sentimento, sensação, desejo, etc.): morrer de amor, de tristeza, de inveja. 14. Ter grande afeição, grande amor, a: morrer pela namorada. 15. Desejar, querer ardentemente: Morria por saber o segredo da amada. 16. Bras. Gír. Satisfazer uma dívida; pagar: morrer na conta. Pred. 17. Achar-se (em determinado estado ou condição) no fim da vida: “Victor Hugo, o maior lírico da idade moderna, morreu riquíssimo.” (Olavo Bilac, Conferências Literárias, p. 258.) T. d. 18. Experimentar, sofrer: “Não poderá arrumar a sua morte. Morrerá uma morte qualquer” (Gustavo Corção, Lições de Abismo, p. 172) P. 19. V. morrer (1): “E vim a meditar em quem me cercaria, / Depois de eu me morrer, as pálpebras já frouxas.” (Cesário Verde, Obra Completa, p. 59.) 20. Padecer ou sofrer, desejando intensamente; finar-se: “o simpático alferes Carlos Magno, que era um padecente pelo belo sexo, morria-se por elas” (Virgílio Várzea, Nas Ondas, p. 148); “Sempre, sempre que te escuto / De um teu crime a confissão, / Entre vida e morte luto, / Suo, gelo, em dor me enluto, / Morro-me, perco a razão.” (Antônio Feliciano de Castilho, Os Amores, III, p. 90) [Part.: morrido e morto.] ¿ S. m. 21. Morte (1). Morrer de rir. 1. Rir às bandeiras despregadas; gargalhar. Morrer na praia. Pop. 1. Fracassar na etapa final de atividade, empreendimento, etc. Lindo de morrer. Bras. Gír. 1. Muitíssimo bonito; extraordinariamente lindo.

