Kindle 2 e livros

O Kindle, leitor de livros digitais da Amazon tem memória para armazenar 1.500 livros, logo este é o número de livros de papel que ele substitui, certo? Que bom se fosse simples assim. Vamos para o mundo real: são poucas as pessoas que leem 1.500 livros ao longo de uma vida. Basta fazer um cálculo simples: se o leitor conseguir ler um livro por quinzena, o que é uma média realista, vai levar 57 anos para dar conta da biblioteca contida em um Kindle. Ninguém sabe se o Kindle dura 57 anos, mas como trata-se de um aparelho eletrônico é sensato supor que sua vida útil média gira em torno de dez anos. Vamos levar em conta também que o Kindle é um bem de uso pessoal. As pessoas não compartilham seu leitor digital por aí, exceto bibliotecas que adquirem aparelhos para emprestar ao seu público. Como o uso normal do Kindle é pessoal e intransferível, durante sua vida útil uns 260 livros serão lidos em sua tela. É um número interessante e se levarmos em conta que as pessoas adquirem muitos livros que não leem, a economia de papel do Kindle é maior ainda. Além disso, muitos jornais e revistas podem passar por ele durante sua vida útil e talvez aí esteja a maior economia de papel que esse aparelho pode propiciar. Sim, o Kindle substitui um volume considerável de papel mesmo como bem de uso individual  A natureza agradece. Se você pretende adquirir um leitor digital de livros, considere a possibilidade de compartilhá-lo com as pessoas próximas de você. Um e-book reader na mão de uma pessoa salva árvores, compartilhado entre várias pessoas, salva muito mais.

Yes, nós temos Kindle

Quarta-feira, 21/10/2009

Kindle na capa da Newsweek

Desde 19 de outubro último, o Kindle 2, que é vendido nos EUA desde 2007, passou a ser comercializado no Brasil e em outros 99 países. O preço para o leitor digital de livros da Amazon em nosso país é estimado em torno de R$ 1.000,00. Ainda não se sabe quais operadoras de telefonia vão fornecer a conexão 3G que o aparelho precisa para fazer o download dos livros digitais e, por enquanto, não haverá obras em língua portuguesa no acervo do Kindle. No começo tudo é mais complicado, não é mesmo? mas acredito que essas limitações e incertezas rapidamente serão resolvidas e o Kindle vai fazer parte do dia a dia dos brasileiros tecnológicos que gostam de ler.

Faço essa propaganda espontânea e gratuita do Kindle 2 em nome da divulgação dos e-book readers, nos quais acredito há mais de dez anos e que só agora estão decolando. Algumas ideias precisam de tempo para vingar e o universo das pessoas dadas à leitura é conservador. Quem não quiser comprar um Kindle 2 pode optar pelo e-book reader da Sony, ou da Fujitsu que tem tela colorida, ou qualquer outro aparelho desse mercado florescente e promissor. Quem quiser esperar mais tempo para se decidir, sem problemas. Embora o mercado do livro digital tenha uma defasagem em relação às outras mídias da indústria cultural, uma coisa é certa: a reviravolta que o Kindle está fazendo na produção editorial só se compara com a revolução que o iPod fez na indústria da música. Obras digitiais para Kindle estão entre os itens mais vendidos na livraria da Amazon, o aparelho é foco das atenções da imprensa e vende cada vez mais. Não dá para ignorá-lo. Ele não é o único, mas é o ícone.

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1984 George Orwell

Imagine a cena: você compra um Kindle, o leitor digital de livros da Amazon e adquire alguns livros digitais, entre eles A revolução dos Bichos e 1984, ambos de George Orwell. Feliz, você começa a lê-los, mas de repente, na calada da noite e sem aviso, esses dois livros desaparecem misteriosamente de seu Kindle. Pois é, foi o que aconteceu. Parece coisa de Grande Irmão, mas esse “realinhamento informacional” foi praticado pela Amazon. Por causa de uma pendenga com a editora que publica os livros, a Amazon decidiu remover as duas obras do seu cátalogo, não só da loja como também remotamente dos aparelhos que tinham os livros instalados. Agora sabemos que a Amazon pode mexer no Kindle a distância e que a funcionalidade de comunicação sem fio do aparelho pode ser usada para o bem e para o mal.

A Amazon compensou os usuários de Kindle com créditos para aquisição de outros livros do acervo. Não é um prejuízo de perder cabelos, mas essa trapalhada da Amazon é um alerta sobre o potencial maligno das soluções automáticas de atualização a distância. Infelizmente, todas as software houses estão indo por esse caminho. Windows, Firefox, Adobe, Norton, todo mundo quer mexer na sua máquina sem pedir licença. É mais ou menos como se você estivesse em casa vendo um filme e de repente um cara da Warner entrasse na sua sala para recolher o DVD por causa de disputas judiciais que não lhe interessam. Muitos já devem ter enfrentado constrangimentos com atualizações invasivas. Imagine que você tem uma apresentação a fazer para uma plateia importante, clica no navegador e vem o aviso de que o Firefox resolveu se atualizar sozinho. Enquanto isso, você e a plateia podem tomar um cafezinho.

A Amazon poderia aproveitar a propaganda gratuita que conseguiu com essa gafe para explicar claramente aos seus clientes qual será sua política daqui para frente. Um portavoz da Amazon explicou que a empresa não vai mais  apagar arquivos do cliente em circunstâncias similares.  Para bom entendedor fica claro que eles se reservam o direito de limpar bits em outras circunstâncias dissimilares. Como sou um defensor dos leitores digitais, gostaria de saber se o usuário é dono do seu Kindle e do que está dentro dele, ou se ondas eletromagnéticas desmaterializantes podem invadi-lo a qualquer momento sem consentimento do proprietário?

E-book reader

Na Wikipedia é possível encontrar uma longa lista de formatos para e-books. Quando digo formato me refiro ao padrão usado para armazenar o conteúdo do livro em meio digital. Existem formatos de e-book para todos os gostos, mas vou destacar três: AZW, PDF e OPF. O formato AZW é proprietário, ou seja, definido pela Amazon, a maior livraria virtual da Internet. O formato PDF não é exatamente aberto, já que é definido por uma empresa comercial, a Adobe, que lucra vendendo editores de arquivo PDF. Apesar disso, o formato PDF é bem aceito, pois existem soluções sem custo para quem quiser gerar esse tipo de arquivo. O formato OPF é livre.

A grande quantidade de formatos para os livros eletrônicos mostra que ainda não ocorreu a convergência necessária para a massificação da ideia. A Amazon comprou essa briga e vai tentar impor o seu formato aos usuários. Seus executivos devem saber o que querem, mas será que levaram em conta a lição da indústria da música? As grandes gravadoras e lojas on-line tentaram por vários caminhos vender música on-line em formatos protegidos contra pirataria. Depois de muito desgaste, uma a uma jogaram a toalha e aderiram ao formato MP3 sem proteção.

Nessa campanha pela popularização do e-book, talvez a Sony acabe levando vantagem. Ela tem seu próprio e-book reader, que não faz tanto barulho como o Kindle 2 da Amazon, mas lê PDF e vários outros formatos populares. Tudo bem que o forte da Sony é vender aparelhos eletrônicos e o negócio principal da Amazon são os livros digitais. A japonesa pouco se importa com a pirataria de livros enquanto que a americana pode ver seu negócio ruir caso a pirataria de e-books vire epidemia. Só esquero que prospere uma solução que melhor atenda as duas pontas do processo: de um lado o escritor e do outro sua majestade o leitor.

Estante

No Kindle 2, o e-book reader da Amazon, dá para armazenar cerca de 1.500 livros. Esse leitor de livros digitais substitui, portanto, uma estante grande de 2×3m repleta com quase uma tonelada de papel impresso. A comparação mostra que os leitores de livros digitais podem trazer grande vantagem ao ambiente. Usando o leitor digital economizamos a madeira da estante e o papel dos livros, duas matérias primas de alto impacto ambiental. Calma lá! Quando o assunto é impacto ambiental temos que ser mais rigorosos. A fabricação do e-book reader também consome recursos e gera lixo eletrônico no final da vida útil do aparelho. Uma estante com livros dura tranquilamente mais de cinquenta anos. Leitores eletrônicos, provavelmente, não alcançam essa longevidade e o usuário terá que trocar de aparelho algumas vezes ao longo de cinquenta anos. O e-book reader consome energia, pouca, mas consome e, no longo prazo, esse consumo pode ser significativo. Outro detalhe: boa parte dos usuários não vai usar o potencial de armazenamento do e-book reader. Quantas pessoas que você conhece possuem uma estante com 1.500 livros em casa? Como se vê, o cálculo não é simples e creio que ainda não existem dados para dizer se os e-book readers são tão fantásticos para o ambiente quanto parecem. O que temos no momento é uma intuição bem clara de que ele proporciona grande economia de papel impresso e logística de armazenagem.

Até aqui imaginamos um mundo onde o cidadão compra seu e-book reader e deixa de montar uma biblioteca doméstica tradicional. Temos que lembrar, todavia, que a consciência ecológica avança em várias frentes. Ser ecológico também é optar pelo reuso e circulação dos bens. Nosso cálculo mudaria se os leitores preferissem ir à biblioteca pública em vez da livraria, A biblioteca pública permite leitura simultânea de várias obras enquanto o acervo do e-book reader só fica disponivel para um leitor de cada vez. Para substituir uma biblioteca pública tradicional com acervo de 1.500 livros seria preciso disponibilizar cerca de 150 e-book readers aos leitores, admitindo que 10% do acervo sempre está em leitura.

Moral da história: o e-book reader pode ser ótimo para o meio ambiente. Ou não. Tudo depende de como as pessoas vão usá-lo. No meu caso, se eu adquirir um e-book reader só vou poder alardear ganho ambiental depois de doar meus amados livros de papel para a biblioteca pública. Tem horas que para ser ecológico é preciso se inspirar em São Francisco de Assis.