Yes, nós temos Kindle

Quarta-feira, 21/10/2009

Kindle na capa da Newsweek

Desde 19 de outubro último, o Kindle 2, que é vendido nos EUA desde 2007, passou a ser comercializado no Brasil e em outros 99 países. O preço para o leitor digital de livros da Amazon em nosso país é estimado em torno de R$ 1.000,00. Ainda não se sabe quais operadoras de telefonia vão fornecer a conexão 3G que o aparelho precisa para fazer o download dos livros digitais e, por enquanto, não haverá obras em língua portuguesa no acervo do Kindle. No começo tudo é mais complicado, não é mesmo? mas acredito que essas limitações e incertezas rapidamente serão resolvidas e o Kindle vai fazer parte do dia a dia dos brasileiros tecnológicos que gostam de ler.

Faço essa propaganda espontânea e gratuita do Kindle 2 em nome da divulgação dos e-book readers, nos quais acredito há mais de dez anos e que só agora estão decolando. Algumas ideias precisam de tempo para vingar e o universo das pessoas dadas à leitura é conservador. Quem não quiser comprar um Kindle 2 pode optar pelo e-book reader da Sony, ou da Fujitsu que tem tela colorida, ou qualquer outro aparelho desse mercado florescente e promissor. Quem quiser esperar mais tempo para se decidir, sem problemas. Embora o mercado do livro digital tenha uma defasagem em relação às outras mídias da indústria cultural, uma coisa é certa: a reviravolta que o Kindle está fazendo na produção editorial só se compara com a revolução que o iPod fez na indústria da música. Obras digitiais para Kindle estão entre os itens mais vendidos na livraria da Amazon, o aparelho é foco das atenções da imprensa e vende cada vez mais. Não dá para ignorá-lo. Ele não é o único, mas é o ícone.

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1984 George Orwell

Imagine a cena: você compra um Kindle, o leitor digital de livros da Amazon e adquire alguns livros digitais, entre eles A revolução dos Bichos e 1984, ambos de George Orwell. Feliz, você começa a lê-los, mas de repente, na calada da noite e sem aviso, esses dois livros desaparecem misteriosamente de seu Kindle. Pois é, foi o que aconteceu. Parece coisa de Grande Irmão, mas esse “realinhamento informacional” foi praticado pela Amazon. Por causa de uma pendenga com a editora que publica os livros, a Amazon decidiu remover as duas obras do seu cátalogo, não só da loja como também remotamente dos aparelhos que tinham os livros instalados. Agora sabemos que a Amazon pode mexer no Kindle a distância e que a funcionalidade de comunicação sem fio do aparelho pode ser usada para o bem e para o mal.

A Amazon compensou os usuários de Kindle com créditos para aquisição de outros livros do acervo. Não é um prejuízo de perder cabelos, mas essa trapalhada da Amazon é um alerta sobre o potencial maligno das soluções automáticas de atualização a distância. Infelizmente, todas as software houses estão indo por esse caminho. Windows, Firefox, Adobe, Norton, todo mundo quer mexer na sua máquina sem pedir licença. É mais ou menos como se você estivesse em casa vendo um filme e de repente um cara da Warner entrasse na sua sala para recolher o DVD por causa de disputas judiciais que não lhe interessam. Muitos já devem ter enfrentado constrangimentos com atualizações invasivas. Imagine que você tem uma apresentação a fazer para uma plateia importante, clica no navegador e vem o aviso de que o Firefox resolveu se atualizar sozinho. Enquanto isso, você e a plateia podem tomar um cafezinho.

A Amazon poderia aproveitar a propaganda gratuita que conseguiu com essa gafe para explicar claramente aos seus clientes qual será sua política daqui para frente. Um portavoz da Amazon explicou que a empresa não vai mais  apagar arquivos do cliente em circunstâncias similares.  Para bom entendedor fica claro que eles se reservam o direito de limpar bits em outras circunstâncias dissimilares. Como sou um defensor dos leitores digitais, gostaria de saber se o usuário é dono do seu Kindle e do que está dentro dele, ou se ondas eletromagnéticas desmaterializantes podem invadi-lo a qualquer momento sem consentimento do proprietário?

E-book reader

Na Wikipedia é possível encontrar uma longa lista de formatos para e-books. Quando digo formato me refiro ao padrão usado para armazenar o conteúdo do livro em meio digital. Existem formatos de e-book para todos os gostos, mas vou destacar três: AZW, PDF e OPF. O formato AZW é proprietário, ou seja, definido pela Amazon, a maior livraria virtual da Internet. O formato PDF não é exatamente aberto, já que é definido por uma empresa comercial, a Adobe, que lucra vendendo editores de arquivo PDF. Apesar disso, o formato PDF é bem aceito, pois existem soluções sem custo para quem quiser gerar esse tipo de arquivo. O formato OPF é livre.

A grande quantidade de formatos para os livros eletrônicos mostra que ainda não ocorreu a convergência necessária para a massificação da ideia. A Amazon comprou essa briga e vai tentar impor o seu formato aos usuários. Seus executivos devem saber o que querem, mas será que levaram em conta a lição da indústria da música? As grandes gravadoras e lojas on-line tentaram por vários caminhos vender música on-line em formatos protegidos contra pirataria. Depois de muito desgaste, uma a uma jogaram a toalha e aderiram ao formato MP3 sem proteção.

Nessa campanha pela popularização do e-book, talvez a Sony acabe levando vantagem. Ela tem seu próprio e-book reader, que não faz tanto barulho como o Kindle 2 da Amazon, mas lê PDF e vários outros formatos populares. Tudo bem que o forte da Sony é vender aparelhos eletrônicos e o negócio principal da Amazon são os livros digitais. A japonesa pouco se importa com a pirataria de livros enquanto que a americana pode ver seu negócio ruir caso a pirataria de e-books vire epidemia. Só esquero que prospere uma solução que melhor atenda as duas pontas do processo: de um lado o escritor e do outro sua majestade o leitor.

Estante

No Kindle 2, o e-book reader da Amazon, dá para armazenar cerca de 1.500 livros. Esse leitor de livros digitais substitui, portanto, uma estante grande de 2×3m repleta com quase uma tonelada de papel impresso. A comparação mostra que os leitores de livros digitais podem trazer grande vantagem ao ambiente. Usando o leitor digital economizamos a madeira da estante e o papel dos livros, duas matérias primas de alto impacto ambiental. Calma lá! Quando o assunto é impacto ambiental temos que ser mais rigorosos. A fabricação do e-book reader também consome recursos e gera lixo eletrônico no final da vida útil do aparelho. Uma estante com livros dura tranquilamente mais de cinquenta anos. Leitores eletrônicos, provavelmente, não alcançam essa longevidade e o usuário terá que trocar de aparelho algumas vezes ao longo de cinquenta anos. O e-book reader consome energia, pouca, mas consome e, no longo prazo, esse consumo pode ser significativo. Outro detalhe: boa parte dos usuários não vai usar o potencial de armazenamento do e-book reader. Quantas pessoas que você conhece possuem uma estante com 1.500 livros em casa? Como se vê, o cálculo não é simples e creio que ainda não existem dados para dizer se os e-book readers são tão fantásticos para o ambiente quanto parecem. O que temos no momento é uma intuição bem clara de que ele proporciona grande economia de papel impresso e logística de armazenagem.

Até aqui imaginamos um mundo onde o cidadão compra seu e-book reader e deixa de montar uma biblioteca doméstica tradicional. Temos que lembrar, todavia, que a consciência ecológica avança em várias frentes. Ser ecológico também é optar pelo reuso e circulação dos bens. Nosso cálculo mudaria se os leitores preferissem ir à biblioteca pública em vez da livraria, A biblioteca pública permite leitura simultânea de várias obras enquanto o acervo do e-book reader só fica disponivel para um leitor de cada vez. Para substituir uma biblioteca pública tradicional com acervo de 1.500 livros seria preciso disponibilizar cerca de 150 e-book readers aos leitores, admitindo que 10% do acervo sempre está em leitura.

Moral da história: o e-book reader pode ser ótimo para o meio ambiente. Ou não. Tudo depende de como as pessoas vão usá-lo. No meu caso, se eu adquirir um e-book reader só vou poder alardear ganho ambiental depois de doar meus amados livros de papel para a biblioteca pública. Tem horas que para ser ecológico é preciso se inspirar em São Francisco de Assis.

livros antigos

O que dura mais: um livro de papel ou um e-book? Essa é uma pergunta que só o tempo vai responder. Nós já conhecemos o potencial do livro convencional para durar mais de cem anos. Quanto ao livro digital, há muitas dúvidas sobre a sua longevidade. Estranho, não é mesmo? O e-book é composto de bits o que o deixa imune a traças, umidade e mordidas do cachorro. Mas pense bem: imagine que você compra um Kindle 2, o badalado e-book reader da Amazon. Em seguida, você monta uma biblioteca digital de 1500 livros, todos comprados na loja virtual da Amazon, obviamente. Essa bela coleção digital vai durar tanto quanto uma biblioteca convencional? Para isso, acontecer, o seu Kindle precisa durar algumas décadas, ou então, será preciso trocá-lo por outro aparelho similar e compatível que venha a ser produzido no futuro. Se você trocar de leitor, terá que transferir os dados do aparelho antigo para o novo, o que só será possível se a Amazon existir como empresa daqui algumas décadas. Os e-books que você comprou são protegidos por um sistema antipirataria que só a Amazon destrava. É bem provável que a Informática evolua dramaticamente nas próximas décadas e, talvez, seus e-books tenham que passar por várias conversões de formato nesse período. Repare que essas dificuldades levantadas aqui são hipotéticas e rabugentas, mas os especialistas em gerenciamento da informação estão bem preocupados com a conservação da informação digital a longo prazo. A moral da história é que o trabalho de cuidar de seus e-books ao longo do tempo pode ser maior do que o esforço para proteger uma estante convencional contra traças, umidade, sol ou roubos. Para ser franco, preservar qualquer coisa contra a ação do tempo é uma tarefa inglória. Percebo isso quando olho no espelho.