Kindle 2 e livros

O Kindle, leitor de livros digitais da Amazon tem memória para armazenar 1.500 livros, logo este é o número de livros de papel que ele substitui, certo? Que bom se fosse simples assim. Vamos para o mundo real: são poucas as pessoas que leem 1.500 livros ao longo de uma vida. Basta fazer um cálculo simples: se o leitor conseguir ler um livro por quinzena, o que é uma média realista, vai levar 57 anos para dar conta da biblioteca contida em um Kindle. Ninguém sabe se o Kindle dura 57 anos, mas como trata-se de um aparelho eletrônico é sensato supor que sua vida útil média gira em torno de dez anos. Vamos levar em conta também que o Kindle é um bem de uso pessoal. As pessoas não compartilham seu leitor digital por aí, exceto bibliotecas que adquirem aparelhos para emprestar ao seu público. Como o uso normal do Kindle é pessoal e intransferível, durante sua vida útil uns 260 livros serão lidos em sua tela. É um número interessante e se levarmos em conta que as pessoas adquirem muitos livros que não leem, a economia de papel do Kindle é maior ainda. Além disso, muitos jornais e revistas podem passar por ele durante sua vida útil e talvez aí esteja a maior economia de papel que esse aparelho pode propiciar. Sim, o Kindle substitui um volume considerável de papel mesmo como bem de uso individual  A natureza agradece. Se você pretende adquirir um leitor digital de livros, considere a possibilidade de compartilhá-lo com as pessoas próximas de você. Um e-book reader na mão de uma pessoa salva árvores, compartilhado entre várias pessoas, salva muito mais.

Pilha de jornais

O jornal impresso está na lista de artefatos ameaçados de extinção por conta do crescimento da Internet. Se ele vai ser extinto mesmo, teremos que esperar para ver, pois o jornal impresso já passou por outra crise no passado quando passou a enfrentar a concorrência dos telejornais e sobreviveu. Há vários sinais de que a crise atual é mais séria, mas vamos esclarecer que a ameaça não recai sobre as redações ou sobre o conteúdo do jornal, mas sobre o seu suporte, que são aquelas grandes folhas de papel de embrulhar peixe. A cada dia, surgem alternativas novas ao tijolão de pasta mecânica que aparece diariamente na frente da casa do assinante. O Kindle, leitor digital da Amazon, permite ler jornais assinados on-line por conexão sem fio. Grandes jornais como The Wall Street Journal já são fortes em assinatura digital. Rupert Murdoch, da News Corporation, articula um acordo entre os grandes jornais americanos para viabilizar um modelo de super assinatura digital, em que o internauta assina um jornal e leva vários. Resumindo, as soluções que estão surgindo privilegiam o meio digital. Paralelamente,  as edições impressas acumulam quedas nas vendas.

Alguém vai chorar o fim do jornal impresso? Se concordarmos que as mulheres choram mais, serão poucas as lágrimas. Especialistas dizem que mulheres não gostam de folhear jornal porque suja as mãos. Do ponto de vista ecológico, o fim do jornal impresso é uma benção. O jornal impresso, provavelmente, é a maior fonte de lixo na casa dos assinantes. O papel jornal é reciclável, mas de baixa qualidade. Em sua composição há muita pasta mecânica, o que o torna de pouco valor para o reuso.

A preservação do meio ambiente, às vezes, acontece por caminhos tortuosos. Quem diria que Rupert Murdoch, um magnata da velha guarda, trabalharia para livrar o mundo das grandes pilhas de informação perecível.

Kindle 2

A revolução digital está chegando para todas as coisas que envolvem letras depositadas sobre papel. O Kindle, badalado leitor digital da Amazon, serve para ler livros em formato eletrônico, mas vale lembrar que através dele também é possível assinar jornais, revistas e até blogs. Detalhes como esse são a ponta do iceberg que ronda o Titanic da indústria editorial. Basta deixar o Kindle ligado durante a madrugada para que pontuais ondas eletromagnéticas o abasteçam com notícias fresquinhas para ler no café da manhã. O mais interessante na proposta da Amazon é que o usuário faz assinatura múltipla, ou seja, pelo preço de um, o assinante leva vários jornais. Uma ideia como essa só pode ser colocada em prática por um gigante como a Amazon que tem condições de reunir grandes jornais em torno de um modelo de negócios totalmente novo. Tudo bem que já existem experiências similares para música, em que o usuário assina um serviço e pode ouvir todas as músicas do acervo.

A esta altura alguns podem perguntar porque pagar por uma assinatura, mesmo que com ela eu possa ler vários jornais, se há formas gratuitas de acessar todo esse conteúdo? Realmente, os grandes jornais liberam grandes volumes de informação gratuitamente na Web e atualmente o leitor consegue se manter bem informado sem fazer assinaturas. A pergunta é por quanto tempo essa gratuidade vai se manter? Até pouco tempo atrás a liberação de conteúdos gratuitos pela Internet não trazia problemas para as redações, pois o negócio principal deles era a venda de assinaturas da versão impressa. Os hábitos estão mudando, porém, e a sustentação econômica das redações pode ficar comprometida em breve. Os grandes jornais americanos, por exemplo, estão se articulando para enfrentar a crise e para preservar seus negócios. Duas coisas são certas: informação de qualidade custa caro e o leitor prefere a opção grátis, sempre que disponível. Onde vai dar esse imbróglio? Não custa sonhar, né? Então, vamos imaginar um mundo em que autores recebem o justo pelo seu trabalho e onde o acesso à informação é o mais democrático possível. Só falta definir quem vai pagar a conta.

Dieta ecológica

Sábado, 03/10/2009

hamburger de frango grelhado

O homo sapiens é o animal com a dieta mais variada do planeta. Essa espécie come tudo que se mexe e o que não se mexe também, mas é incrível como a sua alimentação é regulada por normas culturais. Os hábitos alimentares do ser humano são determinados por influências de todos os tipos, algumas remontam há séculos, outras são bem recentes, como a preocupação ecológica.

Vamos exemplificar a complexidade dos hábitos alimentares falando sobre o consumo de carne, talvez o alimento mais regulado culturalmente. Os vegetarianos, obviamente, desaconselham o consumo de qualquer tipo de carne e suas motivações têm raízes espirituais ou simplesmente vem do respeito às formas de vida animal. Embora ecologistas tenham preocupações quanto ao consumo de carne, não dá para fazer uma associação direta entre ecologistas e vegetarianos.

A carne de boi é vetada aos seguidores do hinduísmo; os gourmets, ao contrário, tem os bovinos em elevada estima;  já as nutricionistas desaconselham o consumo sem controle desse alimento, pelos riscos que a carne vermelha apresenta à saúde. Os ecologistas também implicam com a carne bovina, pois sua produção consome muita área de pastagem e tem baixo rendimento se comparado com outros alimentos.

Quando o assunto é carne suína, sabemos que os seguidores do judaísmo e os muçulmanos não podem consumi-la. As nutricionistas torcem o nariz para ela por causa da obesidade dos porquinhos. Os ecologistas são menos resistentes a essa fonte de proteína porque os porcos são criados em confinamento, o que resulta em uma agroindústria de menor impacto.

Os peixes são os queridinhos das nutricionistas e, até onde eu sei, não são vetados por nenhuma religião, mas os ecologistas alertam que a maior parte do peixe vem da pesca extrativa predatória e isso vai acabar com os ecossistemas aquáticos.

A carne de frango, arre, não é vetada por quase ninguém, só não pode ser comida no Ano Novo, pois sabemos que a galinha cisca para trás e isso não é nada auspicioso.

Minha filha, que aderiu a hábitos alimentares saudáveis e ecológicos, me fez pensar melhor na alimentação da família, tanto que vou pôr lenha na fogueira, propondo uma dieta ecológica para se somar às milhares de dietas do mundo. Não é dieta radical e dá atenção ao consumo de carne. A dieta é simples e leva em conta os sete dias da semana. Veja o prato principal de cada dia.

  • Segunda-feira vegetariana restrita. Dia de se recuperar dos excessos do final de semana. Uma refeição vegetariana sem nenhum derivado animal, de preferência, com vegetais orgânicos é ótima para o meio ambiente e para o organismo.
  • Terça-feira do frango. Frango é proteína barata de impacto ambiental reduzido.
  • Quarta-feira vegetariana. Um dia por semana, vai bem uma dieta vegetariana, mas sem restrição aos derivados animais. Valem leite, queijo, ovos, etc.
  • Quinta-feira mais frango. Frango deve ser repetido na semana, pois é carne ecológica, além de ser saudável.
  • Sexta-feira aquática. Os animais da água são bons para a saúde, mas dê preferência aos criados pelo homem em vez dos que vem de pesca predatória.
  • Sábado gordo. A carne de porco deve ser consumida com moderação, para não estressar seu cardiologista, mas sábado é o dia internacional da feijoada.
  • Domingo vermelho. Uma vez por semana vamos de carne de gado. Assim, evitamos o consumo excessivo de carne vermelha sem abrir mão do churrasco e contribuímos para a redução do rebanho bovino e seus puns cheios de metano.

Esse cardápio pode variar um pouco de acordo com as convicções e hábitos de cada um. Nada contra a inclusão no cardápio de alguma carne menos comum como carneiro, pato, peru, cabrito, avestruz, jacaré, rã, etc. O que não pode de jeito nenhum é carne de caça.

Quem precisa de carro flex?

Quarta-feira, 23/09/2009

carro flex

Em um mundo ecologicamente perfeito não haveria carros flex. Pensando bem, nesse mundo não haveria automóveis, mas vamos manter o pé na realidade e entender os prós e contras do carro flex. No Brasil, flex é o carro bicombustível que roda com álcool hidratado, com a gasolina nacional (que tem 25% de álcool) ou com a mistura em qualquer proporção desses dois combustíveis. Álcool e gasolina têm propriedades diferentes e cada um precisa de uma regulagem própria do motor para alcançar o melhor rendimento. Os carros flex fazem algumas regulagens automaticamente para se adaptar à mistura presente no tanque. A diferença mais importante em termos de regulagem, porém, é a taxa de compressão. Ela deve ser mais alta para o álcool, mas os carros flex não têm regulagem dinâmica da taxa de compressão do motor. Em vez disso, usam uma taxa intermediária fixa. A conseqüência é que o motor flex não fica na regulagem ideal nem para álcool, nem para gasolina e rende menos do que carros com motores mono combustível equivalentes. Só para exemplificar: a Saveiro total flex 1.6 faz 8,7 km/l com álcool. A Saveiro 1.6 a álcool de 1986 fazia 10,67 km/l. Parece piada, mas no Brasil tem carro velho rendendo mais do que carro novo cheio de tecnologia.

Se o carro monocombustível é melhor em consumo e potência, por que os carros flex, vendidos desde 2003, fazem tanto sucesso? Quando o consumidor adquire um carro flex está pensando em duas coisas: abastecer sempre com álcool e ficar calçado caso haja um rebuliço no mercado e o álcool fique muito caro ou venha a faltar nas bombas. O motorista quer usar apenas álcool em seu carro flex, pois acha que vai economizar uma boa grana. Na maioria dos casos a economia acontece mesmo, mas não dá para ter certeza antes de fazer as contas. Nem sempre a diferença de preço entre álcool e gasolina está favorável. Além disso, é preciso considerar que um carro monocombustível renderia bem mais. Em alguns momentos, abastecer um flex com álcool sai mais caro do que abastecer um carro a gasolina equivalente, mas o consumidor nem percebe porque o cálculo é enjoado de fazer. Enfim, os brasileiros querem sempre abastecer com o combustível mais barato. Lei de Gerson. A indústria automobilística tem interesse no carro flex porque dessa forma oferece duas opções ao consumidor e investe em apenas um projeto. O país sai prejudicado, pois o consumo geral de combustíveis poderia cair mais de 10% caso a frota fosse apenas de carros mono combustíveis eficientes.

Os carros flex se justificam em um país que está diversificando a sua matriz energética e ainda não conseguiu montar uma cadeia produtiva estável para seus combustíveis. Nos EUA, por exemplo, dos 170.000 postos existentes, em torno de 2.000 apenas oferecem álcool combustível. Lá, os carros flex fazem sentido, não para o consumidor economizar dinheiro, mas simplesmente para que consiga abastecer o carro. Nossa realidade é outra. Estamos evoluídos na questão dos bio combustíveis, produzimos mais álcool do que gasolina. Nossa aposta no álcool começou há mais de trinta anos. Aqui, combustível alternativo é a gasolina, o álcool está disponível em quase todos os postos e a indústria desse combustível é sólida. O mercado oscila, é verdade, mas será que nós que produzimos petróleo e álcool, precisamos do carro flex para regular os preços? Eu, que já tive vários carros 100% a álcool e nunca fiquei na mão mesmo nas manhãs frias de Curitiba, gostaria de vê-los novamente a venda. São mais econômicos, mais ecológicos, mais brasileiros.