Para que serve um caderno de caligrafia?
Sábado, 04/04/2009

Já é possível ver alunos brasileiros assistindo aula com notebook sobre a carteira. Alguns deles são felizardos com renda familiar para tanto. Outros são alunos que participam de programas de governo como o UCA (Um Computador por Aluno). Esses alunos são resistentes à escrita manual. Dizem que teclar é mais prático, mais organizado, mais moderno. Uma parte dos professores acha que independente dos avanços tecnológicos, escrever à mão é importante. Não dá para contar com o computador em todas as situações, dizem.
Estamos em um período de transição das tecnologias de escrita e ainda é cedo para dizer se a escrita manual vai se tornar obsoleta, mas essa conversa me fez lembrar de outra habilidade: a de produzir fogo sem recorrer a fósforos ou isqueiro. Nossos antepassados que moravam em cavernas dominavam bem essa técnica que hoje só é conhecida por poucos especialistas como escoteiros e militares. No tempo das cavernas, ninguém pensava que fosse possível sobreviver sem saber acender uma fogueira a partir de madeira seca. Atualmente, se você sair por aí dizendo que essa habilidade é importante vai ser ridicularizado.
Tenho a impressão que a habilidade para a escrita manual logo estará empalhada no museu das técnicas obsoletas. Em uma geração a tecnologia da escrita vai ser reescrita. Para ser sincero, não estou preocupado com o destino dos cadernos de caligrafia. Ao longo da história tantas habilidades foram ultrapassadas. Quantos sabem se expressar com pena e tinta nanquim na atualidade?
Não se descabelem, saudosistas das belas formas curvilíneas dos calígrafos exímios. Outras habilidades mais urgentes vos esperam. Digitar com dez dedos sem olhar para o teclado, por exemplo. Bem, talvez nem isso seja necessário no futuro próximo repleto de computadores comandados por voz.
A diferença entre o físico e o engenheiro
Quarta-feira, 01/04/2009

Em um serviço on-line de perguntas e respostas voltado para estudantes do ensino fundamental e médio, o aluno perguntou:
— Se eu preencher uma garrafa PET de 500ml com areia, quanto ela vai pesar?
A resposta de outro aluno veio rápída:
— Pegue uma garrafa PET de 500ml, encha com areia e pese na balança.
A pergunta, provavelmente, partiu de algum professor de física ou ciências e, por intermédio do aluno perguntador, chegou ao serviço on-line. Se eu fosse o aluno perguntador, faria exatamente o que lhe foi sugerido. Depois, fotografaria a garrafa sobre a balança e entregaria a foto ao professor como prova inequívoca de vocação para a física experimental. O professor teria que aceitar a resposta, mesmo que sua expectativa fosse receber um cálculo usando as fórmulas da densidade aparente. Caso o professor não tivesse senso de humor nem respeito por inteligências múltiplas, o aluno perguntador poderia argumentar dizendo que a questão não especificava um método de resolução.
Não vou esconder minha simpatia pelo aluno que respondeu à pergunta. Além de ajudar um colega voluntariamente, ele mostrou um senso prático incomum nos dias correntes. Alguns professores podem achar que esse empirismo não tem o alcance de uma demonstração teórica abstrata. Concordo que abstração é importante, mas senso prático também é na mesma proporção. Tudo depende do abacaxi que você tem nas mãos para descascar. E assim demonstramos na teoria e na prática que ensinar para a vida é uma arte.
Crédito de imagem: Filizola
Prova de caligrafia para quem só usa teclado
Sábado, 19/04/2008
Estou desaprendendo a escrita manual. Quando escrevo à caneta parece que minha mão não me obedece mais. Minha letra nunca foi uma maravilha e agora está se tornando mais e mais garranchosa. O pior é que escrevo o tempo todo no trabalho e em casa. Como uso o teclado para redigir 99% dos meus textos, lentamente estou perdendo a habilidade para a caligrafia. Essa constatação me ajuda a refletir sobre alguns estudos surgidos recentemente sobre o potencial do computador para estimular o aprendizado. Tanto no Brasil como no exterior, esses estudos revelam que o uso do computador não melhora o desempenho dos alunos em avaliações como a Prova Brasil, aplicada nos alunos do Ensino Fundamental. Pelo contrário, indicam que o uso regular do computador está associado a uma queda no desempenho dos alunos nessas provas. Uma leitura apressada desses estudos poderia nos levar à conclusão de que o computador prejudica o aprendizado e que seria melhor bani-lo da escola e do quarto dos estudantes. A minha letra garranchosa, entretanto, me leva à outra conclusão. Que valor vai ter no futuro uma caligrafia primorosa? Estou imaginando um mundo em que há teclados por todos os lados, além de computadores comandados por voz. As provas que avaliam o aprendizado dos alunos estão avaliando as competências corretas para o mundo de hoje? Com o computador, os alunos aprendem menos ou aprendem coisas que não se ensinava antes? Talvez essas provas estejam avaliando a caligrafia de alunos que são hábeis apenas em digitação.
