A última sessão de cinema

Quarta-feira, 04/11/2009

cinema

Há várias formas de assistir um bom filme como comprar o DVD, alugá-lo, esperar pela exibição na TV a cabo ou aberta, só para citar algumas alternativas dentro da lei. Na teoria, nenhuma dessas formas se compara à experiência clássica de ir a um bom cinema. Só no cinema você assiste o filme em primeira mão, com a melhor imagem e o melhor som, acomodado no melhor ambiente, certo? Há controvérsias. Eu adoro bons filmes, porém sou franco em dizer que vou pouco ao cinema e, provavelmente, vou abandonar essa opção que nos últimos tempos tem me causado mais chateações do que bons momentos.

No último feriado, minha filha me propôs que fôssemos assistir Bastardos Inglórios. Eu pensei: é um filme do Tarantino. Deve ter todo aquele cinismo e rios de sangue. Por que você quer ver esse filme, filha? Porque fala sobre a Segunda Guerra Mundial. Lembrei que ela deve estar estudando esse assunto na escola e que na semana anterior ela tinha alugado O menino do pijama listrado, um filme sobre Holocausto. Ok, bom argumento, bom filme, vamos lá. Na bilheteria, pediram a carteira de identidade dela. Infelizmente, sua filha tem 17 anos e meio e o filme é para maiores de 18. Para não deixar sem registro, fui falar com a gerente do cinema. Com aquele tom burocrático dos colaboradores contemporâneos ela me explicou que são regras do Ministério da Justiça, bla bla bla. Eu lembrei à gerente que na semana anterior eu estive no mesmo cinema e precisei pagar inteira para meu filho porque ele tinha esquecido a carteirinha de estudante. Se meu filho de 12 anos não é estudante, quem é então? Essas aporrinhações se somam a outras  como horários inconvenientes, sessões lotadas, algazarra, sem falar do cara que atende o celular ao seu lado durante a sessão. Como pão duro de carteirinha que sou, não poderia deixar de citar o preço do cinema que para a família toda fica pelo menos cinco vezes mais caro do que o DVD da locadora.

Federico Fellini dizia que filmes são para se ver no cinema e não em casa, pois só na sagrada sala escura se encontra o ambiente mínimo de respeito que uma obra de arte merece. Concordo com o mestre quanto ao respeito, mas garanto que consigo esse ambiente muito mais facilmente em casa do que no shopping. Sou de um tempo anterior ao videocassete em que só havia duas maneiras de ver um filme: no cinema ou pela TV aberta. Naquela época, os cinemas de Curitiba tinham nomes como Avenida, Excelsior, Vitória, Astor, Rívoli, Lido, Bristol e não ficavam em shoppings porque não havia shoppings. Naqueles tempos de ditadura militar existia uma tal de censura e, mesmo assim, eu assisti alguns filmes impróprios para a minha idade. Por causa desse passado saudoso, eu tenho uma relação sentimental com as salas de cinema, mas meu lado Spock me diz: que videolocadora cobra meia locação de uns e inteira de outros? Ao comprar um DVD, o vendedor pergunta qual é a idade das pessoas que vão assistir o filme? A pipoca feita em casa vai me custar R$ 15,00?

Eu poderia ter dito à gerente do cinema: Ok, vou para casa agora baixar o filme pela Internet e vou assisti-lo de graça sem dar a mínima para portaria de Ministério, mas calma lá! Se todo mundo fizer isso por um punhado de dólares vamos quebrar a indústria do cinema e não teremos mais filmes do Tarantino para ver. Por isso, conversei com minha filha e vamos procurar algumas alternativas de passeio porque a velha sala escura está precisando de uma reforma.  Quanto a Bastardos Inglórios, basta esperar uns meses até o filme ser lançado em DVD. Até lá, minha filha já terá 18 anos e poderemos assisti-lo em casa sem problemas de nenhum tipo.

os reis da rua Sentença de morte Valente

Nos últimos tempos assisti a três filmes particularmente violentos e interessantes: Os reis da rua, Sentença de morte e Valente. O tema comum aos três filmes é a justiça com as próprias mãos. Em cada um deles, os personagens se envolvem profundamente na violência urbana. Em Valente, a personagem de Jodie Foster é vítima de espancamento brutal. Em Sentença de Morte, o personagem de Kevin Bacon tem o filho assassinado por uma gangue urbana. Em Os reis da rua, Keanu Reeves interpreta um policial que resolve seus casos segundo seus próprios métodos.

A violência não é uma novidade no cinema, nem tampouco a justiça com as próprias mãos. Quem já assistiu aos velhos westerns sabe que no oeste longínquo a única maneira de fazer justiça era com um revólver na mão. Fico pensando a quem faz bem esse tipo de filme: ao roteirista, ao diretor ou ao espectador? Creio que a todos. É isso mesmo que eu disse: esses filmes fazem bem. Por que? Simplesmente porque abrem uma válvula de escape no alto da cabeça do cidadão que assiste pela TV diariamente o fracasso da Justiça oficial em resolver a violência urbana. E a justiça com as próprias mãos resolve alguma coisa? Boa pergunta. Quem sabe assistindo a alguns bons filmes sobre o assunto, ajude formar opinião a respeito.

A de anarquia. T de terror

Sábado, 29/03/2008

V de vingança 

O símbolo usado no filme V de Vingança é um traço nervoso da letra V dentro de um círculo. Basta girar o símbolo para ele ficar parecido como o A de anarquia que foi pichado em tantos muros pelo movimento anarquista. Eu sei que estou atrasado com o meu comentário porque o filme foi lançado em 2006, mas como eu sou apenas um cinéfilo amador posso me conceder algumas liberdades. Uma delas é a de assistir à maioria dos filmes apenas quando eles chegam à locadora. À primeira vista, trata-se de mais versão para as telas de um sucesso das histórias em quadrinhos. Ele apresenta inclusive o clássico problema dos heróis mascarados: ficamos privados das expressões faciais do ator. Eu não gostei do filme, mas isso não é um empecilho para eu reconhecer que é uma obra importante. Por que? Porque traça a visão entusiasmada e fundamentalista de uma parcela significativa da população. Porque faz a glamourização descarada do terror e, infelizmente, há muitas pessoas que acham que o terror é a grande solução para os grandes problemas. É impossível não associar a apoteótica explosão do final do filme à queda das torres gêmeas de Nova York. V de Vingança é o elogio da destruição simbólica, é a legitimação do terror como vingança. T de terror. Mas o que é o terror? Bem, vamos parar por aqui porque o assunto pode ficar filosófico e deprimente.

Um bom vinho ou um bom filme

Quarta-feira, 02/01/2008

Cálice 

As coisas boas da vida podem ser desfrutadas a preços muito variados. Ser surpreendido no meio do dia por uma pancada de chuva com sol é grátis. Caminhar pela rua XV de Novembro em Curitiba em uma madrugada fria também não custa nada (para quem mora em Curitiba, pelo menos). Outras coisas dependem de numerário. Veja que comparação interessante pode ser feita entre filmes e vinhos.

  • Garrafa de vinho mata rato: R$ 5,00
  • Garrafa de vinho de ótima qualidade: R$ 50,00.
  • Garrafa de vinho francês grand cru: R$ 500,00
  • Aluguel de filme ruim que só a peste: R$ 5,00.
  • Aluguel de filme de alta qualidade: R$ 5,00.
  • Aluguel de filme obra prima seis estrelas: R$ 5,00.

Não saberia dizer o que vale mais: apreciar um grand cru francês ou assistir a uma obra prima do cinema. O que sei é que a diferença no bolso é definitiva e que cada uma das opções pode ser inesquecível ou insignificante dependendo da conjunção de astros que vigora no dia em que você reservou para elas. Por isso, caro leitor que inicia mais um ano, lembre que para cada uma das coisas boas e caras da vida, existe pelo menos uma outra igualmente ótima e baratinha, talvez gratuita.

Sou tropa de elite

Sábado, 20/10/2007

Bilhete de cinema Tropa de EliteÉ irônico, mas o filme Tropa de Elite, que bate duro na corrupção brasileira, fez o maior sucesso nas bancas dos camelôs antes mesmo de seu lançamento no cinema. Estima-se que mais pessoas assistiram ao filme em DVD pirata do que nos cinemas. Eu, que assisti no cinema, estou me sentido na tropa de elite dos espectadores. Não é fácil ser honesto quando o assunto é pirataria. Para assistir a um filme com a família toda (quatro pessoas, sendo duas estudantes) é preciso desembolsar mais de  R$ 40,00.  Na banca do camelô da esquina, o DVD pirata custa R$ 5,00. O “sistema” cria toda uma máquina de sedução em favor da pirataria. Somente consumidores que passaram por um rigoroso treinamento para endurecer o caráter é que resistem ao assédio da pirataria. É faca na caveira e nada na carteira, mano.

Para ver minha crítica ao filme Tropa de Elite, clique aqui.