Por que ser organizado se você tem o Google?
Quarta-feira, 01/07/2009

Todo mundo gosta de organização, embora muitos não ousem admitir publicamente esse gosto. A organização faz impérios. Não é uma beleza entrar no McDonalds sabendo que em poucos minutos seu sanduíche sem gosto estará na mão exatamente como da última vez? Poucas pessoas são organizadas e ninguém gosta de ser cobrado por desorganização. Eu gosto de organização e sou organizado, mas garanto que não tenho TOC (transtorno obsessivo compulsivo). Sempre vi essa minha facilidade para ordenar o mundo à minha volta como uma qualidade pessoal. Infelizmente, essa suposta qualidade está ameaçada de extinção. Tudo bem, não é a única qualidade obsoleta que coleciono. Percebi a futura inutilidade do senso de ordem quando li uma matéria sobre a ação promocional do Google chamada Ninjas do GMail.
Google quer que os usuários usem mais e melhor o seu serviço GMail e conclama os usuários a se tornarem ninjas do GMail. São quatro níveis ninja: branco, verde, preto e mestre. Para ser um ninja faixa branca é preciso fazer algumas coisas básicas no GMail, mas a “habilidade” ninja dessa faixa que me chamou a atenção consiste em não organizar seus e-mails. Isso mesmo. Para que se você está no Google? Em vez disso, você deve buscá-los. Muito diferente da linha de pensamento da Microsoft. Quem usa o Outlook da Microsoft sabe que esse cliente de correio permite criar pastas e também regras sofisticadas para ordenar automaticamente os e-mails. São duas visões de mundo: a da Microsoft e a do Google. A da Microsoft é baseada em uma organização estática ao gosto do usuário, a do Google supõe uma “organizabilidade” potencial baseada em indexação. Quem prefere o modo Microsoft de ser, normalmente coloca um rótulo único em cada objeto que classifica. Quem aota o estilo Google de ser, associa os objetos a rótulos, que podem ser muitos e não se preocupa em colocar os objetos em caixinhas.
De qualquer forma, continuarei mantendo meu senso de ordem à disposição, afinal, não é em todas as situações que o Google está à mão. O Google não vai encontrar nada dentro do meu guarda-roupa, não é mesmo?
Para mais informações sobre ninjas do Gmail, clique aqui.
O dia em que o Google substituiu a Internet
Sábado, 09/05/2009

Imagine que você quer saber dia, hora e local do próximo jogo do seu time de futebol. Não seria bom escrever no buscador de Internet uma pergunta simples como:
— Quero informações sobre o próximo jogo do Atlético Paranaense.
E receber uma resposta direta:
— O próximo jogo será contra o Coritiba, dia 25/04 às 16h na Arena da Baixada.
O dia em que isso acontecer, os buscadores deixarão de ser meros sistemas de busca para se tornarem oráculos da sabedoria do universo. Rezo para que esse dia nunca chegue. Prefiro o modelo atual em que o sistema de busca responde com endereços de Internet, pois buscadores nada mais são do que uma evolução da lista telefônica. O sistema de busca não tem que dar respostas e, sim, informar onde eu as encontro, da mesma forma que a lista telefônica não fechava negócios, apenas informava o número da loja. Não é o que pensa o pesquisador Weiyi Meng, da Universidade de Binghamton, nos EUA. Ele e sua equipe estão desenvolvendo um sistema de busca que fornece respostas em vez de endereços. O projeto da Universidade pode ser acompanhado no site Webscalers. Não sei até onde vai a ingenuidade do professor Meng, ou seria eu o ingênuo por não botar fé na viabilidade de uma proposta como esta? Acredito que para muitas consultas seja possível fornecer respostas em vez de endereços. A pergunta “quanto é 2 + 2?” pode ser respondida diretamente com uma razoável chance de êxito, mas a imensa maioria das perguntas admite respostas múltiplas, sem falar nas que pertencem ao reino das polêmicas emaranhadas e intransponíveis. Uma pergunta simples como “Quem descobriu o Brasil?” não é simples. Se você pensou em Pedro Álvares Cabral, com certeza, se lembrou das aulas de História do ensino fundamental, mas aqueles bons velhos tempos não voltam mais. Qual é o nível de profundidade que se espera dessa pergunta? O que é descobrimento? Houve outras viagens ao Brasil antes de Cabral vir demarcar essas terras como colônia portuguesa?
Se um sistema de respostas substituísse o sistema de busca os sites de Internet deixariam de ser visitados porque o usuário teria o que precisa no passo anterior à visita. Quem iria produzir conteúdo sem a perspectiva de receber visitas, exceto a dos robôs do Google? Como o ecossistema da informação equilibraria essa equação? Por fim, um sistema de respostas criaria uma perigosa ilusão de verdade suprema. Para que verificar fontes se o buscador já fez isso usando algoritmos idôneos? Quem iria definir esses algoritmos? Atualmente, já temos a caixa preta do ranqueamento do Google que coloca no topo da sua lista quem ele quiser. Imagine se um dia ele começar a dar respostas baseado na fonte que ele quiser. É incrível como algumas pessoas estão dispostas a depositar confiança bobina em sistemas cômodos, mas de alto risco. Bem, isso não é nenhuma novidade, afinal não são poucos os que dizem: li na Internet, logo é verdade.
As merrecas de carbono que o Google gera
Quarta-feira, 14/01/2009

O físico Alex Wissner-Gross da Universidade de Harvard mostrou que fazer pesquisas no Google gera débito de carbono, mais precisamente 7 g de C02 para cada consulta digitada no Grande Irmão. Alex esclarece que o Google mantém muitos servidores programados para reduzir o tempo de resposta da consulta mesmo que isso custe mais energia elétrica. Navegar na Internet também gera impacto ambiental. São 72 gramas de CO2 por hora de navegação. Só me resta dizer parabéns, Flipper! ao ilustre pesquisador.
Tá na cara que toda atividade humana gera impacto ambiental. Até dormindo, causamos danos ao ambiente. Então por que perder tempo pesquisando atividades humanas de impacto mínimo? Por que não focar nossas energias nos grandes problemas como as queimadas da Amazônia ou as caminhonetes a diesel que circulam no caos urbano.
Iniciativas como a do sr. Wissner-Gross só dispersam a atenção da opinião pública e geram um equivocado sentimento de impotência diante da questão ambiental. O que ele espera? Que todo mundo pare de pesquisar na Internet e se dirija às bibliotecas? Existem problemas muito maiores do que o causado pelos servidores do Google. Além do mais, o cálculo de Alex não leva em conta o contexto total. Quando alguém pesquisa preços na Internet deixa de queimar combustível rodando de loja em loja. O ambientalista moderno tem que ser objetivo. Deve atacar os problemas ambientais críticos e com um potencial mais promissor de solução. Que tal começar reduzindo o impacto ambiental de pesquisas universitárias inúteis que se propõem a demonstrar o óbvio ululante?
Veja a matéria da Times on-line com resultados da pesquisa de Alex Wissner-Gross (em inglês).
No Google, o Bem vence o Mal
Sábado, 08/11/2008
Para quem se preocupa com a luta do Bem contra o Mal, aqui vai uma notícia boa: pelo menos no Google o Bem ganha com larga vantagem. Para conferir, basta fazer uma pesquisa no Google Insights for Search. Esse serviço permite analisar a atividade dos usuários na ferramenta de busca do Grande Irmão. Você informa as palavras-chave que quer analisar e recebe um gráfico que mostra o volume de buscas por esses termos desde 2004. Veja algumas comparações interessantes:
Copa x eleições x olimpiadas
mulher pelada x homem pelado
cachaça x cerveja x vinho x wisky
funk x mpb x pagode x rock x sertaneja
O Grande Irmão ataca com Chrome
Sábado, 20/09/2008
Os teóricos da conspiração vivem nos alertando sobre os perigos de as grandes empresas de Internet conhecerem a fundo o perfil dos internautas. Realmente, há um potencial de manipulação quando uma empresa conhece as preferências e hábitos de seus clientes. No entanto, esse poder sombrio tem limites. Com o lançamento do Chrome, o navegador do Google, essa discussão ganhou força novamente. Google já conhece a fundo nossos hábitos de busca na rede e agora quer assumir o controle da janela que usamos para acessá-la. Não é de hoje que eu vejo o Google como sucessor da Microsoft ao cargo de Grande Sacerdote das Artes das Trevas Digitais. O engraçado é que dificilmente encontro alguém com a mesma opinião. As pessoas não percebem o Google como uma ameaça e eu é que não vou dar uma de profeta do apocalipse. Vamos ser práticos: os internautas agem seguindo uma lógica de custo beneficio. Se o preço para ter melhores serviços for uma perda de privacidade não abusiva, tudo bem. Quem ficaria possesso só por ver a propaganda de um show de rock ao lado de uma mensagem em que você fala sobre bandas com um amigo? Tá certo que seria desagradável ver um anúncio de funerária no e-mail em que você trata de doença. Espero que o Google tome cuidados para evitar gafes como essa. Google, como sabemos, quer apenas dominar o mundo, mas ele é assim porque está fadado à lógica imutável das empresas capitalistas. Olhe à sua volta e perceba como o Google não é um caso isolado. Refrigerante é Coca-Cola, avião é Boeing, lâmina de barbear é Gillette e conhaque de alcatrão é São João da Barra. Essa lógica vai mudar um dia? Vai, sim, mas só quando a economia de escala deixar de ser relevante para a sociedade.

