Bebedouro de água mineral

Quando acaba a água no bebedouro do escritório não demora até aparecer uma colaboradora pró-ativa para resolver o problema:

— Será que não tem um homem forte nesta sala para virar o galão de água mineral?

Imediatamente, vão surgindo as desculpas:

— Estou com uma séria lombalgia.

— Tenho que terminar esse relatório urgente.

— Cadê o pessoal dos serviços gerais?

Algumas vezes eu já virei o galão, mas antes disso sempre pergunto:

— Será que nenhuma mulher moderna da sala se habilita a executar essa operação braçal?

Felizmente, lá no escritório existem mulheres que viram galão de água mineral. Infelizmente são poucas; a maioria delas ainda torce o nariz diante da tarefa, como se tudo que envolve esforço físico fosse coisa de homem.

Durante quase toda a História, as mulheres realizaram atividades que envolvem esforço físico moderado. Minhas avós, Judite e Sofia trabalhavam na roça, capinavam, tiravam água do poço, tratavam os animais, partiam lenha, debulhavam milho. Essa história de dizer que mulher não pode fazer esforço físico é invenção moderna. Provavelmente, começou no pós-guerra com a proliferação dos aparelhos elétricos de uso doméstico. Com a eletricidade dentro de casa, algumas mulheres passaram a crer na ideia de que o máximo esforço que devem realizar é apertar botões. Juntando essa crença com a lógica da divisão de papéis e tarefas da sociedade industrial criou-se a cultura de que mulher faz algumas coisas e homem faz outras. Homem faz força e mulher faz limpeza. Com honrosas exceções, lá no escritório essa divisão continua em vigor. Uma mulher limpa o galão, passa álcool e um homem forte vira o galão no bebedouro.

Como homem feminista que sou, conclamo essas mulheres saudáveis e saradas das academias a galgarem um novo patamar da libertação feminina. A mulher do século XIX tinha deveres. a mulher do século XX tinha direitos, a mulher do século XXI tem direitos e deveres. Decididamente, a libertação da mulher passa por trocar um pneu e pagar a conta do motel.

Crédito de imagem: Submarino

O homem multi mega funcional

Sábado, 26/04/2008

Pode parecer que estamos retomando o ideal renascentista do homem que dominava as mais variadas artes e ciências. Se fôssemos listar as competências e padrões de comportamento esperados do profissional moderno precisaríamos de muito papel e talvez a relação ficasse mais extensa do que a lista de habilidades dominadas por Leonardo da Vinci. O profissional moderno precisa conhecer idiomas, dominar a Informática, manter ótimo relacionamento interpessoal, ser criativo, flexível, aberto a mudanças, estar atualizado, reciclado, saber escrever com correção e elegância, etc., etc.

Bem, agora vamos falar sério. A maioria das funções do mercado não precisa de um Leonardo da Vinci. Então porque essa histeria com a ampliação ilimitada das competências? Precisamos de todas esses talentos para ser bons profissionais? Sim e não. Sim, é saudável buscar o crescimento pessoal. Não, não é razoável abraçar metas exageradas de desempenho quando não há demanda por elas. Não estaríamos reagindo de forma exagerada aos problemas com os especialistas do passado? Especialistas são aqueles caras que sabem quase tudo sobre quase nada. Como eles não dão conta do recado em algumas situações da vida agora a onda é o profissional generalista, multifuncional, pluri competente. Sejamos holísticos, então, mas cuidado: Quem levar à risca a cartilha do novo profissional corre o risco de ficar sabendo quase nada sobre quase tudo. Não seria melhor, fazer de quase tudo um pouco, mas fazer pelo menos uma coisa bem feita?

Estou desaprendendo a escrita manual. Quando escrevo à caneta parece que minha mão não me obedece mais. Minha letra nunca foi uma maravilha e agora está se tornando mais e mais garranchosa. O pior é que escrevo o tempo todo no trabalho e em casa. Como uso o teclado para redigir 99% dos meus textos, lentamente estou perdendo a habilidade para a caligrafia. Essa constatação me ajuda a refletir sobre alguns estudos surgidos recentemente sobre o potencial do computador para estimular o aprendizado. Tanto no Brasil como no exterior, esses estudos revelam que o uso do computador não melhora o desempenho dos alunos em avaliações como a Prova Brasil, aplicada nos alunos do Ensino Fundamental. Pelo contrário, indicam que o uso regular do computador está associado a uma queda no desempenho dos alunos nessas provas. Uma leitura apressada desses estudos poderia nos levar à conclusão de que o computador prejudica o aprendizado e que seria melhor bani-lo da escola e do quarto dos estudantes. A minha letra garranchosa, entretanto, me leva à outra conclusão. Que valor vai ter no futuro uma caligrafia primorosa? Estou imaginando um mundo em que há teclados por todos os lados, além de computadores comandados por voz. As provas que avaliam o aprendizado dos alunos estão avaliando as competências corretas para o mundo de hoje? Com o computador, os alunos aprendem menos ou aprendem coisas que não se ensinava antes? Talvez essas provas estejam avaliando a caligrafia de alunos que são hábeis apenas em digitação.

Mega hiper atividade

Quinta-feira, 07/06/2007

Internautas britânicos gastam em média um terço do tempo dedicado à Internet navegando sem propósito definido e fazendo buscas inúteis. Este é o resultado de uma pesquisa realizada no Reino Unido pelo instituto YouGov. A pesquisa confirma uma suspeita: o estilo web de interação favorece a dispersão. As páginas estão cheias de links que levam a páginas com mais links. Facilmente, o usuário cai na tentação de clicar em um desses links chamativos que não tem a ver com o seu objetivo inicial. Dali em diante, de link em link, o usuário logo estará bem longe de seu propósito. Depois de um tempo, muitos internautas não conseguem sequer lembrar o que queriam fazer no início da navegação. Fico aqui pensando que efeito esse ambiente dispersivo pode ter sobre a garotada que está crescendo nele. No futuro, alguém conseguirá ler um livro até oo fim? Haverá mão de obra disponível para trabalhos que exigem atenção sustentada? Tudo bem. Cada geração tem seus problemas. Eu passei a infância e a adolescência diante da televisão e isso não me prejudicou tanto assim. Pelo menos, espero que não. A web pode ser um fator ambiental muito negativo principalmente para aqueles com algum grau de hiperatividade. Por isso, meu caro, se você for pai (ou mãe), observe como a sua turminha está surfando. A atenção sustentada será uma qualidade rara no futuro. Quem a tiver estará em considerável vantagem.

Habilidades obsoletas

Quinta-feira, 07/06/2007

A chegada do Windows Vista pode inutilizar mais uma habilidade que eu tenho em elevada estima: a capacidade de organizar conteúdos. Por motivos óbvios, nós apreciamos com mais intensidade as habilidades que dispomos em quantidade razoável. Ficamos frustrados quando não são valorizadas ou, pior, quando pela evolução tecnológica, elas perdem a utilidade. Para me auto consolar lembrei que não é de hoje que isso vem acontecendo.

Alguns dias atrás fui procurado por uma colega de trabalho que queria saber como se calcula a raiz quadrada de um número. Todos nós conhecemos o axioma fundamental da matemática contemporânea que reza: raiz quadrada é um número obtido na calculadora. Minha colega, porém, ouvira dizer que em um passado remoto as pessoas faziam o cálculo com lápis e papel através de um método ensinado na escola. Como eu sou cronologicamente anterior a ela, fui consultado sobre o assunto, mas infelizmente ou felizmente, no meu tempo de escola já não era comum o ensino do cálculo da raiz quadrada com lápis e papel. Minha colega queria ajudar um aluno da sexta série que faria o cálculo em uma prova de matemática. Isso indica que ainda há pelo menos um professor no Brasil que ainda vê razão em se saber calcular a raiz quadrada de um número. Bem, esse professor deve ter suas razões. Alguns dirão que ele é um ultrapassado, mas talvez existam objetivos pedagógicos válidos por trás dessa abordagem. Agora vamos voltar ao Windows Vista.

O Vista vem equipado com um serviço de busca que opera sobre os arquivos do micro. Funciona como se fosse um personal Google dentro do seu computador. A busca fuça no texto do documento e localiza dados que antes só eram alcançados abrindo os arquivos um a um. De agora em diante, os usuários do micro não precisarão mais organizar seus arquivos cuidadosamente em pastas, nem ser criteriosos na escolha dos nomes para facilitar a localização deles no futuro. Para que ser organizado, se a busca do Vista vai encontrar tudo rapidamente? Basta digitar a palavra-chave correta e o Vista pinça a informação no emaranhado de arquivos do computador. Bom para os desorganizados que nunca sabem onde enfiaram aquele arquivo importante que foi nomeado singelamente como Documento.doc. Quanto aos organizados, esses podem continuar organizados, mas por mero saudosismo, ou quem sabe, para um fortalecimento abstrato e intangível do intelecto. Afinal, sempre há uma calculadora à mão e no futuro haverá sempre um Vista perto de você.