Kindle 2

A revolução digital está chegando para todas as coisas que envolvem letras depositadas sobre papel. O Kindle, badalado leitor digital da Amazon, serve para ler livros em formato eletrônico, mas vale lembrar que através dele também é possível assinar jornais, revistas e até blogs. Detalhes como esse são a ponta do iceberg que ronda o Titanic da indústria editorial. Basta deixar o Kindle ligado durante a madrugada para que pontuais ondas eletromagnéticas o abasteçam com notícias fresquinhas para ler no café da manhã. O mais interessante na proposta da Amazon é que o usuário faz assinatura múltipla, ou seja, pelo preço de um, o assinante leva vários jornais. Uma ideia como essa só pode ser colocada em prática por um gigante como a Amazon que tem condições de reunir grandes jornais em torno de um modelo de negócios totalmente novo. Tudo bem que já existem experiências similares para música, em que o usuário assina um serviço e pode ouvir todas as músicas do acervo.

A esta altura alguns podem perguntar porque pagar por uma assinatura, mesmo que com ela eu possa ler vários jornais, se há formas gratuitas de acessar todo esse conteúdo? Realmente, os grandes jornais liberam grandes volumes de informação gratuitamente na Web e atualmente o leitor consegue se manter bem informado sem fazer assinaturas. A pergunta é por quanto tempo essa gratuidade vai se manter? Até pouco tempo atrás a liberação de conteúdos gratuitos pela Internet não trazia problemas para as redações, pois o negócio principal deles era a venda de assinaturas da versão impressa. Os hábitos estão mudando, porém, e a sustentação econômica das redações pode ficar comprometida em breve. Os grandes jornais americanos, por exemplo, estão se articulando para enfrentar a crise e para preservar seus negócios. Duas coisas são certas: informação de qualidade custa caro e o leitor prefere a opção grátis, sempre que disponível. Onde vai dar esse imbróglio? Não custa sonhar, né? Então, vamos imaginar um mundo em que autores recebem o justo pelo seu trabalho e onde o acesso à informação é o mais democrático possível. Só falta definir quem vai pagar a conta.

Yes, nós temos Kindle

Quarta-feira, 21/10/2009

Kindle na capa da Newsweek

Desde 19 de outubro último, o Kindle 2, que é vendido nos EUA desde 2007, passou a ser comercializado no Brasil e em outros 99 países. O preço para o leitor digital de livros da Amazon em nosso país é estimado em torno de R$ 1.000,00. Ainda não se sabe quais operadoras de telefonia vão fornecer a conexão 3G que o aparelho precisa para fazer o download dos livros digitais e, por enquanto, não haverá obras em língua portuguesa no acervo do Kindle. No começo tudo é mais complicado, não é mesmo? mas acredito que essas limitações e incertezas rapidamente serão resolvidas e o Kindle vai fazer parte do dia a dia dos brasileiros tecnológicos que gostam de ler.

Faço essa propaganda espontânea e gratuita do Kindle 2 em nome da divulgação dos e-book readers, nos quais acredito há mais de dez anos e que só agora estão decolando. Algumas ideias precisam de tempo para vingar e o universo das pessoas dadas à leitura é conservador. Quem não quiser comprar um Kindle 2 pode optar pelo e-book reader da Sony, ou da Fujitsu que tem tela colorida, ou qualquer outro aparelho desse mercado florescente e promissor. Quem quiser esperar mais tempo para se decidir, sem problemas. Embora o mercado do livro digital tenha uma defasagem em relação às outras mídias da indústria cultural, uma coisa é certa: a reviravolta que o Kindle está fazendo na produção editorial só se compara com a revolução que o iPod fez na indústria da música. Obras digitiais para Kindle estão entre os itens mais vendidos na livraria da Amazon, o aparelho é foco das atenções da imprensa e vende cada vez mais. Não dá para ignorá-lo. Ele não é o único, mas é o ícone.

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E-book reader

Na Wikipedia é possível encontrar uma longa lista de formatos para e-books. Quando digo formato me refiro ao padrão usado para armazenar o conteúdo do livro em meio digital. Existem formatos de e-book para todos os gostos, mas vou destacar três: AZW, PDF e OPF. O formato AZW é proprietário, ou seja, definido pela Amazon, a maior livraria virtual da Internet. O formato PDF não é exatamente aberto, já que é definido por uma empresa comercial, a Adobe, que lucra vendendo editores de arquivo PDF. Apesar disso, o formato PDF é bem aceito, pois existem soluções sem custo para quem quiser gerar esse tipo de arquivo. O formato OPF é livre.

A grande quantidade de formatos para os livros eletrônicos mostra que ainda não ocorreu a convergência necessária para a massificação da ideia. A Amazon comprou essa briga e vai tentar impor o seu formato aos usuários. Seus executivos devem saber o que querem, mas será que levaram em conta a lição da indústria da música? As grandes gravadoras e lojas on-line tentaram por vários caminhos vender música on-line em formatos protegidos contra pirataria. Depois de muito desgaste, uma a uma jogaram a toalha e aderiram ao formato MP3 sem proteção.

Nessa campanha pela popularização do e-book, talvez a Sony acabe levando vantagem. Ela tem seu próprio e-book reader, que não faz tanto barulho como o Kindle 2 da Amazon, mas lê PDF e vários outros formatos populares. Tudo bem que o forte da Sony é vender aparelhos eletrônicos e o negócio principal da Amazon são os livros digitais. A japonesa pouco se importa com a pirataria de livros enquanto que a americana pode ver seu negócio ruir caso a pirataria de e-books vire epidemia. Só esquero que prospere uma solução que melhor atenda as duas pontas do processo: de um lado o escritor e do outro sua majestade o leitor.

Estante

No Kindle 2, o e-book reader da Amazon, dá para armazenar cerca de 1.500 livros. Esse leitor de livros digitais substitui, portanto, uma estante grande de 2×3m repleta com quase uma tonelada de papel impresso. A comparação mostra que os leitores de livros digitais podem trazer grande vantagem ao ambiente. Usando o leitor digital economizamos a madeira da estante e o papel dos livros, duas matérias primas de alto impacto ambiental. Calma lá! Quando o assunto é impacto ambiental temos que ser mais rigorosos. A fabricação do e-book reader também consome recursos e gera lixo eletrônico no final da vida útil do aparelho. Uma estante com livros dura tranquilamente mais de cinquenta anos. Leitores eletrônicos, provavelmente, não alcançam essa longevidade e o usuário terá que trocar de aparelho algumas vezes ao longo de cinquenta anos. O e-book reader consome energia, pouca, mas consome e, no longo prazo, esse consumo pode ser significativo. Outro detalhe: boa parte dos usuários não vai usar o potencial de armazenamento do e-book reader. Quantas pessoas que você conhece possuem uma estante com 1.500 livros em casa? Como se vê, o cálculo não é simples e creio que ainda não existem dados para dizer se os e-book readers são tão fantásticos para o ambiente quanto parecem. O que temos no momento é uma intuição bem clara de que ele proporciona grande economia de papel impresso e logística de armazenagem.

Até aqui imaginamos um mundo onde o cidadão compra seu e-book reader e deixa de montar uma biblioteca doméstica tradicional. Temos que lembrar, todavia, que a consciência ecológica avança em várias frentes. Ser ecológico também é optar pelo reuso e circulação dos bens. Nosso cálculo mudaria se os leitores preferissem ir à biblioteca pública em vez da livraria, A biblioteca pública permite leitura simultânea de várias obras enquanto o acervo do e-book reader só fica disponivel para um leitor de cada vez. Para substituir uma biblioteca pública tradicional com acervo de 1.500 livros seria preciso disponibilizar cerca de 150 e-book readers aos leitores, admitindo que 10% do acervo sempre está em leitura.

Moral da história: o e-book reader pode ser ótimo para o meio ambiente. Ou não. Tudo depende de como as pessoas vão usá-lo. No meu caso, se eu adquirir um e-book reader só vou poder alardear ganho ambiental depois de doar meus amados livros de papel para a biblioteca pública. Tem horas que para ser ecológico é preciso se inspirar em São Francisco de Assis.

livros antigos

O que dura mais: um livro de papel ou um e-book? Essa é uma pergunta que só o tempo vai responder. Nós já conhecemos o potencial do livro convencional para durar mais de cem anos. Quanto ao livro digital, há muitas dúvidas sobre a sua longevidade. Estranho, não é mesmo? O e-book é composto de bits o que o deixa imune a traças, umidade e mordidas do cachorro. Mas pense bem: imagine que você compra um Kindle 2, o badalado e-book reader da Amazon. Em seguida, você monta uma biblioteca digital de 1500 livros, todos comprados na loja virtual da Amazon, obviamente. Essa bela coleção digital vai durar tanto quanto uma biblioteca convencional? Para isso, acontecer, o seu Kindle precisa durar algumas décadas, ou então, será preciso trocá-lo por outro aparelho similar e compatível que venha a ser produzido no futuro. Se você trocar de leitor, terá que transferir os dados do aparelho antigo para o novo, o que só será possível se a Amazon existir como empresa daqui algumas décadas. Os e-books que você comprou são protegidos por um sistema antipirataria que só a Amazon destrava. É bem provável que a Informática evolua dramaticamente nas próximas décadas e, talvez, seus e-books tenham que passar por várias conversões de formato nesse período. Repare que essas dificuldades levantadas aqui são hipotéticas e rabugentas, mas os especialistas em gerenciamento da informação estão bem preocupados com a conservação da informação digital a longo prazo. A moral da história é que o trabalho de cuidar de seus e-books ao longo do tempo pode ser maior do que o esforço para proteger uma estante convencional contra traças, umidade, sol ou roubos. Para ser franco, preservar qualquer coisa contra a ação do tempo é uma tarefa inglória. Percebo isso quando olho no espelho.