Pilha de jornais

O jornal impresso está na lista de artefatos ameaçados de extinção por conta do crescimento da Internet. Se ele vai ser extinto mesmo, teremos que esperar para ver, pois o jornal impresso já passou por outra crise no passado quando passou a enfrentar a concorrência dos telejornais e sobreviveu. Há vários sinais de que a crise atual é mais séria, mas vamos esclarecer que a ameaça não recai sobre as redações ou sobre o conteúdo do jornal, mas sobre o seu suporte, que são aquelas grandes folhas de papel de embrulhar peixe. A cada dia, surgem alternativas novas ao tijolão de pasta mecânica que aparece diariamente na frente da casa do assinante. O Kindle, leitor digital da Amazon, permite ler jornais assinados on-line por conexão sem fio. Grandes jornais como The Wall Street Journal já são fortes em assinatura digital. Rupert Murdoch, da News Corporation, articula um acordo entre os grandes jornais americanos para viabilizar um modelo de super assinatura digital, em que o internauta assina um jornal e leva vários. Resumindo, as soluções que estão surgindo privilegiam o meio digital. Paralelamente,  as edições impressas acumulam quedas nas vendas.

Alguém vai chorar o fim do jornal impresso? Se concordarmos que as mulheres choram mais, serão poucas as lágrimas. Especialistas dizem que mulheres não gostam de folhear jornal porque suja as mãos. Do ponto de vista ecológico, o fim do jornal impresso é uma benção. O jornal impresso, provavelmente, é a maior fonte de lixo na casa dos assinantes. O papel jornal é reciclável, mas de baixa qualidade. Em sua composição há muita pasta mecânica, o que o torna de pouco valor para o reuso.

A preservação do meio ambiente, às vezes, acontece por caminhos tortuosos. Quem diria que Rupert Murdoch, um magnata da velha guarda, trabalharia para livrar o mundo das grandes pilhas de informação perecível.

Lixo que vale ouro

Quarta-feira, 28/10/2009

Reciclagem de celulares

A fabricação de aparelhos eletrônicos utiliza uma variedade impressionante de materiais, muitos deles de alto valor comercial. Em uma tonelada de celulares velhos encontramos 340 g de ouro, 3,5 kg de prata, 140 gramas de paládio (que vale mais do que ouro) e 130 kg de cobre. Se esses metais forem recuperados podem render cerca de 15.000 dólares. Bem, aqui começa o problema. Primeiro é preciso reunir os celulares descartados em um mesmo lugar. Depois, vem o desmanche e um processo sofisticado de reciclagem que extrai os metais preciosos do meio da sucata. Não é uma tarefa para amadores. Se esse lixo for simplesmente incinerado, por exemplo, serão liberadas toxinas para a atmosfera. A reciclagem do lixo está se tornando um problema bem complexo, mas que pode ser muito lucrativo.

No Brasil existem mais de 150 milhões de linhas de celular. Em um cálculo conservador 20% dos aparelhos são trocados por novos a cada ano. Mais de 30 milhões de aparelhos são desativados anualmente no Brasil. Se todos fossem reciclados pelas melhores práticas renderiam 1.700 kg de ouro, 17,5 toneladas de prata, 700 kg de paládio e 650 toneladas de cobre. Para onde vai toda essa fortuna? Uma boa parte certamente está esquecida na casa dos donos, outra acaba no meio ambiente, onde polui o solo e contamina a água. Somente uma pequena quantidade é reciclada. As quantidades aumentariam bastante se levássemos em conta outros aparelhos eletrônicos presentes em nosso cotidiano e que também têm vida útil muito curta.

Os números mostram que a reciclagem do lixo eletrônico é promissora e precisa se fortalecer. É uma questão ambiental e de dim-dim, mas calma! Não se entusiasme ao olhar para o monte de celulares velhos guardados no fundo da sua gaveta. A reciclagem é uma indústria frágil que ainda engatinha e todos nós temos que ajudar no seu fortalecimento. Coletar o lixo eletrônico, classificá-lo, desmanchá-lo, processá-lo, tudo isso custa dinheiro e exige investimento. Além dos metais, a reciclagem dos celulares do Brasil também geraria mais de quatro mil toneladas de sucata de baixo valor que precisa ser corretamente destinada, por isso, nada de avareza. Entregue gratuitamente seus aparelhos velhos em um posto de coleta.

Crédito de imagem: www.theinquirer.net

Catador, não. Reciclador!

Sábado, 11/07/2009

Unidade de triagem e reciclagem do lixo

Londrina é a cidade brasileira com a maior coleta formal de lixo reciclável. Em 2008, a cidade coletou uma média mensal de 3.540 toneladas de lixo reciclável segundo a pesquisa Ciclosoft, ganhando de São Paulo, a segunda colocada e que tem uma população 21 vezes maior.

O sucesso de Londrina nessa área é atribuído à forte parceria entre a prefeitura e os catadores, que em Londrina são chamados de recicladores. Os recicladores são responsáveis pela coleta de casa em casa e levam o material reciclável até locais chamados de bandeiras onde o material é colhido por caminhões da prefeitura e levado para barracões das associações de recicladores. É o poder público trabalhando em parceria com a iniciativa privada. Parece que o modelo dá certo, afinal a taxa per capita de coleta formal em Londrina é de 8,27 kg/mês.

Os bons números de Londrina se distinguem, em parte, porque o modelo adotado por lá integra a coleta formal (do poder público) com a informal (dos recicladores). Em outras cidades pesquisadas, a coleta informal não foi contabilizada junto com a formal. É o caso de Curitiba onde a prefeitura coleta 1.530 t de lixo reciclável ao mês, mas onde os catadores recolhem outras 16.875 t/mês. Somando a coleta informal com a formal, Curitiba retira das ruas 18.405 t/mês de recicláveis. Dessa forma, supera Londrina inclusive em índice per capita (10,2 kg/mês por curitibano).

Independente, da forma como a pesquisa apresenta os dados, tanto Londrina como Curitiba têm bons números a mostrar e lições a ensinar para outras cidades brasileiras. Londrina mostra que a parceria com a iniciativa privada nessa área é um bom caminho. Curitiba confirma que os recicladores conseguem coletar muito mais recicláveis do que o poder público. Nos dois casos, a chave do sucesso está na valorização dos recicladores. Iniciativas que trazem dignidade e renda para os recicladores resolvem dois problemas: o social e o ecológico. Toda vizinhança precisa de padaria, farmácia, quitanda e também de um ponto de reciclagem.

Aqui no Paraná, onde moro, alguns supermercados já fornecem aos clientes sacolinhas plásticas descartáveis feitas de material oxibiodegradável. O uso desse tipo de sacola é  exigência de uma lei estadual que determina o fim do uso de sacolas plásticas convencionais no comércio. As sacolinhas “ecológicas” são feitas de polietileno como as demais, no entanto, contêm um aditivo que acelera a decomposição do plástico. Os defensores dessa solução dizem que o ciclo da sacolinha “ecológica” na natureza se reduz de 200 anos para 18 meses.
Vivemos em um tempo de mudança em que será preciso abandonar o modo consumista de vida em favor do modo sustentável. Nesses períodos incertos surgem muitas idéias de jerico que tentam salvar a pátria sem tirar ninguém da zona de conforto. Quem está disposto a seguir o estilo sustentável de vida sabe que não existe a tal sacolinha plástica ecológica. Atitude ecológica é não usar bens descartáveis. Sacola ecológica é a de algodão, retornável e reforçada.
Há vários equívocos na idéia da sacolinha oxibiodegradável. Vou citar apenas alguns:
Os técnicos divergem sobre o risco que o aditivo dessas sacolinhas pode causar ao ambiente. Sabe-se que ele contém metais pesados.

  • Alguns técnicos alegam que o aditivo promove o esfarelamento do plástico, deixando-o reduzido a pequenas partículas. A degradação é química e não biológica. Não se sabe qual dano essas partículas plásticas trarão ao meio ambiente.
  • O plástico usado na produção dessas sacolinhas vem do petróleo e contribui para o efeito estufa. Essa matéria prima poderia ser reservada para usos mais nobres.
  • O uso dessas sacolinhas pode colocar as pessoas em uma posição comodista em relação à reciclagem.
  • Um projeto de lei semelhante sobre sacolinhas “ecológicas” foi vetado pelo governo estadual de São Paulo em 2007. O secretário paulista do Meio Ambiente alegou incertezas sobre a eficácia do projeto para preservação do meio ambiente.

As sacolinhas resolvem alguns problemas certamente: elas tem um efeito estético porque somem da nossa vista mais rapidamente, a indústria do plástico agradece e ninguém precisa mudar de hábitos.
Uma coisa é certa: as sacolinhas “ecológicas” do Paraná estão causando outro tipo de poluição, do pior tipo, que é a poluição da mente das pessoas que ficarão ainda mais confusas sobre as melhores práticas em defesa do meio ambiente.

Quando você decide fazer uma mudança simples em sua vida em favor do meio ambiente percebe como as coisas estão organizadas para nossa comodidade e nem um pouco para a sustentabilidade. À primeira vista parece fácil: para viver sem sacolinhas descartáveis basta comprar uma sacola de pano e ir às compras com ela debaixo do braço. Se você vai à mercearia da esquina comprar três ou quatro itens, tudo bem. Mas e quem vai ao supermercado fazer uma compra grande? Terá que levar várias sacolas, ou nenhuma, se for de carro e não tiver que subir escadas ao chegar no prédio. Lá em casa, temos ido ao supermercado próximo a pé levando várias sacolas reusáveis.

O outro problema de quem decide viver sem sacolinhas é o descarte do lixo. Todo mundo sabe que as pessoas querem as sacolinhas para embalar o lixo. Andando pelas ruas é fácil perceber como a coleta urbana se organizou para depender de sacolinhas. Na frente das casas vemos lixeiras elevadas e abertas desenhadas para acomodar lixo embalado. Nos condomínios, vemos depósitos de lixo com tampa, mas fixos no chão. Se o lixo não estiver embalado, não há como tirá-lo de dentro do depósito. Ainda é raro ver lixeiras basculantes que são a grande sacada, pois podem receber o lixo diretamente sem embalar. O lixeiro manuseia facilmente esse tipo de lixeira porque ela tem rodinhas e como é bem vedada, não causa problemas sanitários.

Ainda vai levar um tempo até a nossa sociedade comodista se adaptar ao modelo sustentável de vida. Uma iniciativa depende de outra, mas temos que começar de algum modo, por isso, que tal sair às compras com uma sacola ecológica e bem transada. E gaste com moderação, né? Seu bolso e o meio ambiente agradecem.

Crédito de imagem: Funverde