Essa reforma ortográfica! Quarentena para os estrangeirismos
Sábado, 18/04/2009

Os criadores da Reforma Ortográfica deixaram a ABL (Academia Brasileira de Letras) em uma saia justa. Cabe à ABL publicar o Vocabulário Ortográfico, o livro que mostra a grafia oficial das palavras da língua portuguesa no Brasil. O problema é que o Acordo Ortográfico veta as grafias estrangeiras. O que são grafias estrangeiras? Boa pergunta, mas não vamos respondê-la nesse post. Basta sabermos que elas são vetadas no VOLP (Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa). São exemplos de grafia estrangeira: hardware, jingle e pizza. O que fazer se essas palavras circulam por aí e precisam ser escritas? A ABL adotou uma solução engenhosa: no final do VOLP incluiu uma lista de palavras sob o lacônico título palavras estrangeiras. Entende-se que são palavras de uso corrente no país, mas que usam grafia estrangeira. Dessa forma, a ABL se livrou do ridículo que seria não registrar oficialmente a grafia de palavras que estão na boca do povo como bunker, yakisoba ou blog. Ao mesmo tempo, colocou essas palavras em quarentena antes de uma incorporação oficial definitiva ao idioma.
Nós estamos acostumados a uma velocidade alta de transformação social e, por isso, achamos leeeeeeento o processo de incorporação das palavras estrangeiras ao nosso léxico. No entanto, é preciso admitir que o conservadorismo da ABL tem sua razão para ser. Primeiro a palavra tem que se firmar como genuína do idioma; depois ela passa por uma acomodação fonética e, por último, por uma acomodação ortográfica. Esse processo ocorre com todos os estrangeirismos. Basta lembrar como demorou a acomodação de palavras que chegaram ao nosso idioma há mais tempo como as francesas boate (de boite), abajur (de abat-jour) ou conhaque (de cognac). E mesmo depois que a palavra ganha sua grafia nacional, leva um bom tempo até que os nativos passem a adotar a grafia aportuguesada. Você já viu alguém tomando uísque? Whisky é mais chic (ops, chique), não é mesmo?
Como será a reforma ortográfica de 2040
Sábado, 28/03/2009

No Brasil, acontece uma reforma ortográfica a cada 30 anos aproximadamente. Tivemos reformas em 1943 e 1971. Em 2009, iniciamos a primeira reforma do século XXI. Seguindo essa lógica podemos imaginar que haverá uma nova reforma daqui três décadas.
Em 2040, a garotada de hoje estará no poder. Hoje, eles passam o dia enviando torpedos pelo celular, teclando no MSN ou xeretando no Orkut. Com certeza, essa experiência de escrita vai influenciar a próxima geração de tomadores de decisão. Quem sabe, então, teremos a primeira reforma ortográfica realmente simplificadora da nossa história.
Esses dias, eu estava no Google Analytics observando os hábitos dos usuários que frequentam o meu site. Os números são claros e mostram que os internautas praticam a ortografia simplificadora. Um exemplo: quando olhei o relatório, 380 internautas tinham procurado uma página do meu site pelo argumento de busca “lixo organico“. Outros 34 usaram as palavras-chave “lixo orgânico“. Ou seja: menos de 10% dos usuários utilizaram o acento circunflexo nesse contexto informal que é uma busca na Internet. Mesmo assim, a pesquisa dá certo porque os mecanismos de busca entendem o que o usuário quer dizer.
No site onde trabalho, os usuários nos enviam perguntas por escrito. A esmagadora maioria delas é redigida somente com minúsculas. As maiúsculas são solenemente ignoradas por 90% desses internautas. Os sinais de pontuação também costumam ser suprimidos. A ausência de pontuação seria uma variação da velha elipse, recurso retórico muito apreciado por quem valoriza a concisão? Sim. Trata-se de uma redação mais concisa, onde não se busca estilo, mas apenas comodidade. Diante desses fatos, penso que se os teclados de computador deixassem de ser fabricados com teclas para acentuação, pontuação e maiúsculas a maioria dos usuários nem notaria a ausência. Por aí, dá para ter uma idéia do rumo que pode tomar a próxima reforma ortográfica. Alguns vão dizer: Qua qua qua, esse internetês não vai dar em nada. Veremos. Basta esperar uns trinta anos.
Crédito de imagem: Revista Língua
Essa reforma ortográfica! Grafias duplas
Quarta-feira, 04/03/2009

O económico agrónomo cleptómano. Se você é português não deve ter estranhado a frase anterior, mas se é brasileiro pode ter ficado com a impressão que os acentos estão errados.
A reforma ortográfica, destinada a unificar a escrita em língua portuguesa, admite muitas grafias duplas. Não falo das palavras que se escreve de dois modos tanto no Brasil como em Portugal. Refiro-me às grafias duplas geograficamente marcadas. Por aqui, ninguém escreve telefónica com acento agudo e no além mar eles não escrevem toxicômano com acento circunflexo. As palavras proparoxítonas com a vogal oral o fechada têm duas grafias: uma tipicamente brasileira com acento circunflexo e outra com acento agudo usada em Portugal.
Não sei porque os redatores do Acordo Ortográfico deixaram essa grafia dupla persistir. Foi uma bola fora, pois aqui no Brasil ninguém vai escrever anómalo, da mesma forma que os portugueses não vão escrever autômato. A presença dessas palavras na escrita vai denunciar a procedência do texto. Tudo bem que é fácil identificar se o texto é de Portugal ou do Brasil sem olhar para a grafia, afinal, existem diferenças sensíveis de vocabulário e estruturas sintáticas entre essas duas variantes do português. Mas a ideia do Acordo não era unificar a escrita? Ah, esses letrados e suas excessivas exceções. Chegam a ser cómicos/cômicos.
Essa reforma ortográfica! Genève, Milano e München
Quarta-feira, 28/01/2009

O Acordo Ortográfico recomenda o uso dos topônimos estrangeiros vernáculos, ou seja, devemos usar os nomes de locais estrangeiros seguindo o português tradicional. Vou exemplificar: o nome do país dos japoneses é escrito Japão aqui no Brasil, Japan pelos americanos e Nippon pelos japoneses quando eles usam o alfabeto latino. Japão é o topônimo vernáculo para o país dos japoneses e pouca semelhança tem com a forma que os nipônicos usam para se referir à sua terra. Isso acontece porque no português vernáculo era comum fazer adaptações drásticas nos topônimos estrangeiros. München passou a Munique, Milano a Milão, Genève a Genebra e assim por diante. Dá para perceber que a língua portuguesa era dominada pela idéia nacionalista de aportuguesar os nomes estrangeiros. Na atualidade, a tendência é de manter a grafia e pronúncia originais dos nomes, sempre que possível.
A regra do Acordo sobre os topônimos vernáculos não é apenas ortográfica. É também uma regra de escolha lexical, pois sugere o uso de uma palavra em lugar de outra. No caso, sugere a palavra aportuguesada em lugar da forma de origem. O Acordo Ortográfico adotou uma postura de equilíbrio nesse ponto. Manteve um pé na tradição ao recomendar o uso das formas vernáculas e se alinhou com a tendência atual do pensamento multicultural ao permitir a grafia original dos topônimos estrangeiros de formação recente. Afinal a língua não pára de evoluir e na época de Camões não existiam Zimbábue, Sri Lanka ou Mianmar.
Por isso, quando for viajar aos EUA lembre de escrever Nova Iorque enquanto estiver em solo brasileiro. Só use New York quando chegar lá. Quanto a Nova York, esqueça tanto aqui como lá.
Essa reforma ortográfica! Grafias estrangeiras
Sábado, 24/01/2009

O Acordo Ortográfico prescreve que grafias estrangeiras são aceitas apenas em nomes próprios estrangeiros e suas palavras derivadas. Entenda-se por grafia estrangeira formas de escrever incomuns em nosso idioma como em Shakespeare e shakespeariano. Se lêssemos a palavra Shakespeare segundo a nossa ortografia o resultado seria /xakespeare/ e não /xêykspir/.
Essa regra do Acordo tem um objetivo válido que é manter uma unidade mínima em nossa grafologia. A aplicação da regra, porém, é incerta principalmente no mundo real, que é bem diferente daquele idealizado por alguns gramáticos. Existem várias palavras em nossa ortografia que utilizam grafia estrangeira como em bacon que pronunciamos /bêicõ/ e paella que se fala /paêλa/. Até hoje eu não vi nenhuma cantina onde sirvam pitza de muçarela. Obs.: o Aurélio registra tanto muçarela como mozarela. Fiquem a vontade para escolher o queijo da sua preferência.
Nesses tempos de globalização é arriscado dizer que vamos evitar a entrada de grafias estrangeiras em nosso idioma. O problema maior, nesse caso, fica por conta das letras K, Y e W que contam como grafia estrangeira mas estão presentes em nossa língua em palavras como karaokê, software e yakisoba. Essa reflexão até que me deu a idéia para o nome de um dicionário digital: Dicionário Uébe.