Bloqueiem o Messenger, mantenham o Twitter!
Quarta-feira, 24/06/2009

Na minha ingenuidade reincidente eu já acreditei que a Internet era uma ferramenta a serviço das liberdades democráticas. Essa crença de bom selvagem acabou de vez enquanto eu acompanhava as ações recentes da política americana no Irã envolvendo o Live Messenger e o Twitter.
Faz pouco tempo, a Microsoft deixou de fornecer o seu serviço de mensagens instantâneas MSN Live Messenger para o Irã. A justificativa da empresa é que o Messenger requer instalação de software na máquina do usuário. Como o Irã está na lista negra do governo americano, a Microsoft não pode legalmente fornecer produtos a esse país, inclusive software. O sinal do Messenger foi cortado também em Cuba e Coreia do Norte. Serviços da Microsoft ofertados exclusivamente pela web como o Hotmail continuam disponíveis nesses países que compõem o Eixo do Mal.
Logo depois do corte do Messenger no Irã, houve uma eleição por lá e a oposição derrotada começou a promover protestos pelo país. O governo iraniano tenta neutralizar as ações da oposição e isso inclui bloqueio ao Twitter. O serviço de microblog tem ajudado os oposicionistas iranianos a se articularem. A Secretária de Estado americana Hillary Clinton chegou a intervir para adiar uma manutenção programada do Twitter para não prejudicar a comunicação dos oposicionistas iranianos.
Comparando essas duas ações: o bloqueio do Messenger e o incentivo ao Twitter, dá para perceber que existe um oportunismo descarado do governo americano. O Messenger não seria útil para a comunicação dos iranianos durante esse momento de crise? Messenger não pode, mas Twitter pode e deve ser usado, desde que seja para derrubar o governo xiita iraniano. Não há nenhum compromisso com as liberdades democráticas nessas ações do governo americano. Do governo iraniano também não se espere nada íntegro. Eles bloqueiam e liberam o que bem entendem sem maiores pudores. Antes das eleições bloquearam o Facebook no Irã para garantir a “tranquilidade” do processo eleitoral.
Esses bloqueios de serviços da Internet pelo mundo afora mostram a fragilidade da rede diante dos interesses tanto de governos locais como de países que dão as cartas na política mundial. A cada dia está mais trabalhoso ser ditador. No passado, para cortar as comunicações do inimigo bastava tomar as estações de rádio, de TV e os sistemas de telefonia. No século XXI, o ditador tecnológico tem que controlar também os backbones de Internet.
Curitiba: a capital mais motorizada do Brasil
Sábado, 04/10/2008
Meu inconsciente curitibano insiste em ver Curitiba como a capital com as melhores soluções de transporte coletivo do Brasil. No horário eleitoral gratuito vejo o prefeito Beto Richa, que disputa a reeleição, falar sobre o que fez e o que quer fazer em favor do transporte coletivo. Em um desses programas pude ouvir os prefeitos de Londres e Chicago em visita à nossa capital elogiando as virtudes do nosso transporte coletivo. A questão é que em paralelo ao desenvolvimento do nosso transporte público, estamos vendo o aumento descontrolado dos veículos particulares. Em 2008 a frota curitibana ultrapassou 1 milhão de veículos. A última estatística aponta Curitiba como a capital brasileira com a maior proporção de carros por habitante. Temos 489 veículos para cada 1.000 habitantes, o que dá praticamente um veículo para cada duas pessoas. Em alguns bairros de maior renda existe mais veículo do que gente.
Conversei com meus botões para ver se chegávamos a uma explicação para esse paradoxo: por que a capital com o transporte coletivo mais elogiado tem a maior frota proporcional de veículos particulares? Depois de matutar, eu e meus botões ficamos desapontados.
São duas coisas distintas que pouco se relacionam: o transporte coletivo e a frota de veículos particulares. A prefeitura investe em transporte coletivo, mas as pessoas não vão deixar de comprar um carro só porque o transporte coletivo é eficiente. Na cabeça das pessoas, transporte coletivo é uma coisa para ser usada quando você não dispõe de uma opção mais cômoda. Mesmo que nosso transporte coletivo fosse uma maravilha, o que não é, as pessoas continuariam desejando comprar um carro porque ele é símbolo de status e vivemos na civilização da gasolina. Nos últimos anos, graças ao crédito farto, ficou fácil comprar um carro e o curitibano foi às compras. Ele pode até se orgulhar do seu transporte coletivo, mas andar de carro dá mais ibope, é mais confortável, geralmente mais rápido. Não é mais barato, nem mais ecológico, mas sustentar um carro é uma conta que dá para encarar e a preocupação ecológica ainda não evoluiu a ponto de fazer as pessoas motorizadas optarem pelo transporte coletivo.
Como resolver essa equação? Curitiba antecipa o que vai acontecer em outras cidades brasileiras. Por mais que o transporte coletivo se aperfeiçoe, será deixado de lado por mais e mais pessoas que vão optar pelo carro.
Uma das administrações anteriores tentou colar em Curitiba a marca de capital ecológica. Realmente, nossa proporção de áreas verdes por habitante é uma das melhores do país, temos coleta seletiva de lixo organizada, mas essa quantidade de carros em circulação acaba com qualquer pretensão nossa de sermos os mais ecológicos. Nosso trânsito se deteriora a cada dia. Se Curitiba quiser voltar a ser capital ecológica, teremos que deixar o carro na garagem para prestigiar ligeirinhos, estações tubo, canaletas, biarticulados, etc. Só que isso envolve uma mudança cultural e algumas iniciativas ousadas da prefeitura. Não sei se criando soluções vip de transporte coletivo, quem sabe fazendo restrições à circulação de carros em áreas movimentadas. Só espero que Curitiba se torne um dia a capital com a maior taxa de carros parados na garagem.
Crédito de imagem: Gazeta do Povo
Viadutos e trincheiras para piorar o que está ruim
Quarta-feira, 01/10/2008
Um dos candidatos a prefeito de Curitiba está prometendo no horário político da TV que vai resolver o problema do trânsito curitibano construindo muitos viadutos e trincheiras pela cidade. Felizmente, segundo as pesquisas, esse candidato não tem a menor chance de se eleger. Se essa é a sua melhor proposta para melhorar o trânsito, imagine as demais.
Dirigir em Curitiba até uns quinze anos atrás era uma tranqüilidade, graças à combinação de planejamento urbano com um número bem menor de carros em circulação, equivalente à metade do que existe hoje. As administrações recentes têm evitado construir trincheiras e viadutos o que é positivo, pois essas soluções pertencem ao passado, a um urbanismo positivista que valorizava obras monumentais, com grandes movimentações de terra e muito concreto. Viadutos e trincheiras são intervenções drásticas na paisagem urbana que a desumanizam e têm impacto ambiental alto. Além disso, não atacam o problema do trânsito pelo caminho sustentável. Resolver o problema do trânsito não é ampliar as vias de tráfego para comportar mais e mais veículos. A solução genuína para o caos do trânsito é tirar os carros da rua com medidas como estimular o uso do transporte coletivo e descentralizar a cidade para reduzir os deslocamentos da população. Resolver o caos no trânsito é estimular a ocupação do centro comercial por moradores para usar melhor a estrutura urbana, é desestimular a concentração do comércio em shoppings para evitar os longos deslocamentos da população até esses caixotes refrigerados do consumo. Desconfie de candidatos que propõem obras faraônicas para problemas que exigem apenas planejamento e mudanças de postura.
A carreata do Maluf no Dia Mundial sem Carro
Sábado, 27/09/2008
O Dia Mundial sem Carro desse ano (22/09/08) pelo menos na capital paulista foi um vexame. Eu estava lá a serviço e o que vi foi carro para todo lado. O paulistano não deixou o carro na garagem e se alguns poucos aderiram à mobilização não foi o suficiente para amenizar o caos do trânsito.
Os quatro principais candidatos a prefeito de São Paulo se posicionaram nesse dia. Marta Suplicy, Geraldo Alckmin e o atual prefeito Gilberto Kassab foram de ônibus a um evento para marcar o dia que deveria ser sem carro. O candidato Paulo Maluf, ao contrário, promoveu uma carreata e atacou seus adversários acusando-os de hipócritas por pegarem ônibus uma vez por ano.
O Maluf deve saber que em política, boas intenções não valem nada. O que conta são os atos. Os adversários dele podem ser hipócritas, mas se deslocaram de ônibus e ele fez carreata. Paulo Maluf é um dinossauro remanescente de uma linhagem de políticos desenvolvimentistas. Maluf é do tempo das obras faraônicas, do crescimento ao infinito e além; é do tempo dos longos túneis, dos grandes viadutos, dos elevados. Ao fazer uma carreta Maluf foi coerente com sua história. Quando administrou São Paulo ele construiu obras de grande porte para permitir mais e mais carros em circulação. Políticos como Maluf tiveram seu momento e seu papel. São de uma época em que o Brasil crescia de maneira explosiva, tempo em que as pessoas não acreditavam em limites para o progresso nem no esgotamento dos recursos. O tempo do desenvolvimentismo acabou e as pessoas começam a assimilar a idéia do progresso sustentável. Não por acaso, os três candidatos criticados por Maluf estão à frente dele nas pesquisas eleitorais.
Voltando para Curitiba, passei de táxi pelo Elevado Costa e Silva, obra do prefeito Paulo Maluf também conhecida como Minhocão. É triste ver a degradação do espaço urbano que essa obra de 3,4 km causou ao longo do seu traçado. Pela janela do táxi eu via prédios e mais prédios em estado lamentável de conservação por causa da desvalorização da área. Nesse dia, o elevado construído para desafogar o trânsito paulista estava congestionado.
Em tempo: mesmo estando em São Paulo, cidade dos grandes deslocamentos, não furei o Dia Mundial sem Carro. Resolvi tudo com meu S-pé-2. Por sorte, os locais em que fui estavam todos ao alcance de uma saudável caminhada.
Crédito de imagem: www.br101.org
Bia Falcão e os dólares na cueca
Quinta-feira, 07/06/2007
Novela de televisão é melodrama e uma das regras desse gênero é que, no final, os mocinhos se dão bem e os vilões se dão mal. Não foi o que aconteceu ao final da novela Belíssima. Bia Falcão, a vilã, após cometer alguns assassinatos no Brasil, foge em um jatinho para Paris, onde encerra a novela em grande estilo bebendo champanhe com seu gigolô trazido do Brasil. Outra regra válida para novelas é que, somente em alguns poucos casos, o autor tem o direito de formar opinião no público e que, na maioria das vezes, ele apenas reflete a opinião formada dos espectadores. Infelizmente, para criar esse final contrário às regras do melodrama, o autor de Belíssima não teve que contrariar a opinião formada dos telespectadores. Ao contrário, a novela teve o fim que teve justamente porque os telespectadores estavam preparados para aceitar um fim com inversão de valores.
Ocorreu algo semelhante em 1988 com a novela Vale Tudo, da Rede Globo. No final de Vale Tudo, o vilão também escapa em um jatinho e manda uma banana para os brasileiros da janela.
Diferentes épocas, mas o mesmo contexto social. Em 1988, o país vivia um período de grande desgaste da classe política diante da opinião pública. A população presenciava políticos corruptos escapando ilesos de qualquer punição por suas falcatruas. Em 2006, a situação não é diferente na degradação da vida política.
Como em todo melodrama, o final é o momento de se passar a mensagem. Seria típico esperar um final em que os valores positivos triunfam, o bem vence o mal, etc. Mas porque o autor optou pela inversão de valores? Por que Bia Falcão terminou tomando champanhe na janela, com a paisagem da Torre Eifel ao fundo? Por que o garoto de programa, que durante a novela toda teve a oportunidade e o incentivo para mudar de ramo, optou por acompanhar Bia a Paris em mais uma concessão do autor à negação dos valores que um melodrama deveria reforçar?
Infelizmente, autor de novela não forma opinião num caso desses. Ele não pode ir contra a vontade do público. E talvez o público queira mesmo ver os vilões se dando bem. Talvez seja esta a reação torta do público diante da ressaca moral que vive o país. Talvez o brasileiro se enxergue bem no papel de gigolô da classe política e ache natural carregar dólares na cueca como mula a serviço de políticos corruptos.


