Uma das regras básicas do comportamento politicamente correto é trocar palavras curtas e simples por expressões longas e difíceis de pronunciar. Por essa regra, a palavra negro, simples e de apenas duas sílabas, é substituída por afro-descendente com seis sílabas. A palavra deficiente é substituída por portador de necessidades especiais. Existem razões razoáveis para não usar palavras carregadas de preconceito, mas a solução definitiva é parar de enxergar preconceito nas palavras. Por que não chamar de negro alguém que tem a pele negra? Por que não chamar de deficiente alguém com deficiência visual? O preconceito não está na boca, mas no ouvido.

Bem, essa conversa sobre preconceito não explica o alongamento dos termos politicamente corretos. Essas expressões são mais longas por dois motivos: primeiro porque a maioria das palavras que está na boca do povo tem conotação pejorativa e, isso obriga os politicamente corretos a usarem expressões compostas inéditas em vez das palavras curtas consagradas. O segundo fenômeno é a atenuação do impacto que se obtém usando um conjunto de palavras em vez de uma palavra curta e simples. Palavras curtas têm densidade alta enquanto que expressões  longas diluem o impacto que a mensagem causa no receptor. É a velha técnica de fazer rodeios para dar notícias ruins. Como poderíamos chamá-la? Que tal processo de despreconceitualização das mensagens histórico ideologicamente conotadas?

Os homens preferem as loiras e as mulheres preferem os inteligentes, certo? Há controvérsias. Algumas mulheres preferem homens, digamos, desinteligentes e muitas preferem mesmo os espertos. Inteligência em sentido estrito é aquela capacidade de resolver problemas complexos, mas esotéricos como deduzir um teorema ou entender a Crítica da Razão Pura de Kant. Já a esperteza é a capacidade de se dar bem. Os espertos entendem a diferença entre esperteza e inteligência, os inteligentes e os desinteligentes, não. Agora voltemos à preferência feminina. No tempo das cavernas, as mulheres preferiam os homens fortões porque eles eram melhores caçadores. Conquistar um fortão era garantia de proteína na caverna. Com o tempo, a preferência feminina se deslocou para os hominídeos inteligentes porque eles estavam melhor equipados para enfrentar a luta da sobrevivência em um mundo que começava a ser regulado por artefatos. Nos dias de hoje muitas mulheres não precisam mais de homens provedores e não existe mais uma relação direta entre inteligência e capacidade de sobrevivência. A esperteza, esta sim, pode ter um impacto favorável sobre o sucesso de um homem. Entenda-se sucesso como dinheiro, status, poder e mulheres. Devemos concluir então que as mulheres de hoje preferem os espertos? Não necessariamente. Como muitas delas podem prover seu próprio sustento não precisam mais ficar presas a essa lógica do interesse. Taí uma brecha para os homens inteligentes se darem bem com elas. E para os homens desinteligentes fica a dica: certas mulheres bem sucedidas não gostam de ninguém fazendo sombra em volta delas. E, de quebra, curtem uma certa rudeza nos modos.

Crédito de imagem: http://www.bupa.co.uk

Até recentemente era possível tirar conclusões seguras e precisas sobre a personalidade do homem apenas contando o número de botões do seu paletó e consultando a lista a seguir:

Paletó de dois botões. Não era produzido há vários anos, logo, quem tinha um é porque havia comprado o fato há bastante tempo, coisa de homem desprendido, provavelmente prático, econômico, sem vaidades e pouco preocupado com as superficialidades da imagem.

Paletó de três botões. Até pouco tempo era o número padrão de botões para um paletó. O homem do paletó de três botões desejava estar sintonizado com a tendência dominante, se reciclava e se preocupava com o que a sua imagem fala aos outros.

Paletó de quatro botões. Moda de vanguarda e o homem que o usa quer se distinguir. Esse homem tem uma preocupação visível com imagem. Seu gosto é mais sofisticado e um pouco extravagante. Nesse grupo encontraríamos os candidatos a metrossexuais.

Durante anos divulguei com sucesso esse método seguro de análise da alma masculina entre as minhas colegas. Mas que surpresa a minha quando fui ao shopping há alguns dias e percebi estupefato que os paletós de dois botões voltaram às vitrines. A moda, como a maioria dos fenômenos culturais, é cíclica. Meu método caiu por terra.

Para concluir, informo aos curiosos que tenho um velho paletó cinza de dois botões que uso no dia-a-dia e um terno azul marinho de três botões para as ocasiões formais. Que maravilha, meu paletó cinza voltou à moda sem nenhum investimento. Em compensação o meu terno azul marinho ficou obsoleto pelos próximos dez anos. 

 

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Uma árvore chamada Adalgisa

Sábado, 31/05/2008

Adalgisa é uma das 50 árvores que moram lá em casa. Quando nos mudamos para nossa casa atual ela era só um pequeno arbusto com vários galhos secos, quase nenhuma folha e partes de seu tronco cortadas a serrote. Pensamos até em transformá-la em lenha para churrasco, mas Adalgisa é guerreira. Não sei se sentiu nossa presença, mas logo começou a soltar uma folha aqui, outra ali, foi se refazendo, se embelezando. Hoje, Adalgisa ainda não é uma árvore que ganharia um concurso de beleza arbórea. Ainda traz sinais de maus tratos do passado, mas está carregadinha de mimosas doces. Seus galhos fraquinhos estão arqueados com as frutas. Adalgisa insiste em viver e deixar frutos. Quando passo perto dela faço um elogio para deixa-la feliz. Podem me chamar de animista. Sei que alguns usam esse adjetivo com intenção de xingamento, mas personificar as forças da natureza é uma maneira de interagir com o mundo a cada dia mais necessária, primitiva no sentido de primeira, nunca de atrasada. Dê um nome para a árvore que você ama. Lá em casa tem a mimoseira Adalgisa , o Eriberto pinheiro bravo, a Gertrudes que dá laranja baiana, o Ubirajara que dá araçá…

O homem multi mega funcional

Sábado, 26/04/2008

Pode parecer que estamos retomando o ideal renascentista do homem que dominava as mais variadas artes e ciências. Se fôssemos listar as competências e padrões de comportamento esperados do profissional moderno precisaríamos de muito papel e talvez a relação ficasse mais extensa do que a lista de habilidades dominadas por Leonardo da Vinci. O profissional moderno precisa conhecer idiomas, dominar a Informática, manter ótimo relacionamento interpessoal, ser criativo, flexível, aberto a mudanças, estar atualizado, reciclado, saber escrever com correção e elegância, etc., etc.

Bem, agora vamos falar sério. A maioria das funções do mercado não precisa de um Leonardo da Vinci. Então porque essa histeria com a ampliação ilimitada das competências? Precisamos de todas esses talentos para ser bons profissionais? Sim e não. Sim, é saudável buscar o crescimento pessoal. Não, não é razoável abraçar metas exageradas de desempenho quando não há demanda por elas. Não estaríamos reagindo de forma exagerada aos problemas com os especialistas do passado? Especialistas são aqueles caras que sabem quase tudo sobre quase nada. Como eles não dão conta do recado em algumas situações da vida agora a onda é o profissional generalista, multifuncional, pluri competente. Sejamos holísticos, então, mas cuidado: Quem levar à risca a cartilha do novo profissional corre o risco de ficar sabendo quase nada sobre quase tudo. Não seria melhor, fazer de quase tudo um pouco, mas fazer pelo menos uma coisa bem feita?