O catador de lixo no caminho da Mercedes Benz
Quarta-feira, 04/02/2009

Um catador de lixo puxa com esforço seu carrinho cheio de papel velho por uma rua central de Curitiba na hora do rush. Atrás do carrinho vem uma Mercedes Benz do ano buzinando a exigir que o catador saia de seu caminho.
O catador faz o seu trabalho em condições difíceis e com poucos recursos. Seu negócio dá pouco lucro e nenhum prestígio. Para o motorista da Mercedes Benz, o catador não passa de um estorvo insignificante. O catador deve levar uma vida simples e de baixo impacto ambiental, afinal, não dirige carrões, não viaja para a Europa e não mora em uma mansão. O motorista da Mercedes Benz, que deve pensar que o seu trabalho é mais importante que o do catador, é uma usina de impacto ambiental. Seu carro tem um motor potente e sua família deve gerar muito mais lixo do que a família do catador. O motorista da Mercedes Benz pode pensar que tem uma consciência ambiental mais evoluída que a do catador. Afinal de contas, o bacana tem curso superior e o catador talvez seja analfabeto. O fato é que o catador analfabeto move a indústria da reciclagem, enquanto que o motorista da Mercedes gostaria que os carrinhos da reciclagem sumissem. Assim, ele poderia voar baixo pelas avenidas com sua máquina de R$ 300.000,00. Vou parar por aqui para ninguém dizer que estou associando o problema ecológico à luta de classes. Tudo bem, eu babo diante de uma Mercedes Benz último tipo, mas sei bem que os felizes proprietários dessa jóia da mecânica têm os mesmos deveres ambientais que nosso heróico piloto do carrinho de lixo.
Ecológico é: demolir viadutos
Sábado, 25/10/2008
A Prefeitura de São Paulo anunciou licitação para demolir o viaduto Diário Popular de 540m localizado na região central de São Paulo. O viaduto vai ao chão porque outras obras absorveram o fluxo de veículos que passava por ele transformando-o em um Belo Antônio. A prefeitura considera que a área no entorno do viaduto vai se valorizar com a sua demolição. No seu lugar será implantado um parque.
A notícia boa é que um viaduto vai desaparecer, a ruim é que ele será desativado porque obras de maior porte absorveram a sua função. Recursos foram gastos para ergue-lo e mais recursos serão consumidos para destruí-lo enquanto o problema do trânsito em São Paulo continua.
Quem dera muitos viadutos fossem ao chão por falta de uso. Ouso dizer que o dia mais ecológico de São Paulo vai acontecer quando o Minhocão com seus 3km de extensão for dinamitado. Mas para isso acontecer é preciso torná-lo inútil. Conseguiremos fazer isso? Chegará o dia em que não precisaremos mais de viadutos? No lugar de viadutos, parques, no lugar do asfalto, grama. Esse é o novo progresso.
Crédito de imagem: www.skyscrapercity.com
Ecológico é: ter carro e não usar
Sábado, 18/10/2008
Cedo ou tarde todo mundo poderá ter um carro porque a renda aumenta e a tecnologia avança. E pode estar certo que quando esse dia chegar, tirando alguns poucos desprendidos, todos vão optar por ter seu belo carro. Nem precisa dizer que isso pode nos levar ao caos no trânsito e a uma tragédia ambiental, a menos que …
A menos que os carros fiquem a maior parte do tempo na garagem. A consciência ambiental evolui a passos de cágado. Vivemos na civilização da gasolina e as pessoas consideram o carro uma necessidade, embora ele seja mesmo uma comodidade e um símbolo de status. Diante disso, não adianta radicalizar. Em vez de pedir às pessoas que fiquem sem carro é melhor convence-las a reservar o carro apenas para os momentos necessários e significativos. Para ir ao trabalho: transporte coletivo; para passear com a família no final de semana: carro. Para correr para o hospital em uma emergência: carro; para levar o filho à escola todo dia: transporte escolar.
O uso essencial do carro é uma idéia mais assimilável pela população do que a extinção dessas máquinas. Nesse contexto de uso reduzido a população aceitaria meilhor iniciativas como fechar algumas áreas da cidade ao carro particular. Carro: use com moderação.
Curitiba: a capital mais motorizada do Brasil
Sábado, 04/10/2008
Meu inconsciente curitibano insiste em ver Curitiba como a capital com as melhores soluções de transporte coletivo do Brasil. No horário eleitoral gratuito vejo o prefeito Beto Richa, que disputa a reeleição, falar sobre o que fez e o que quer fazer em favor do transporte coletivo. Em um desses programas pude ouvir os prefeitos de Londres e Chicago em visita à nossa capital elogiando as virtudes do nosso transporte coletivo. A questão é que em paralelo ao desenvolvimento do nosso transporte público, estamos vendo o aumento descontrolado dos veículos particulares. Em 2008 a frota curitibana ultrapassou 1 milhão de veículos. A última estatística aponta Curitiba como a capital brasileira com a maior proporção de carros por habitante. Temos 489 veículos para cada 1.000 habitantes, o que dá praticamente um veículo para cada duas pessoas. Em alguns bairros de maior renda existe mais veículo do que gente.
Conversei com meus botões para ver se chegávamos a uma explicação para esse paradoxo: por que a capital com o transporte coletivo mais elogiado tem a maior frota proporcional de veículos particulares? Depois de matutar, eu e meus botões ficamos desapontados.
São duas coisas distintas que pouco se relacionam: o transporte coletivo e a frota de veículos particulares. A prefeitura investe em transporte coletivo, mas as pessoas não vão deixar de comprar um carro só porque o transporte coletivo é eficiente. Na cabeça das pessoas, transporte coletivo é uma coisa para ser usada quando você não dispõe de uma opção mais cômoda. Mesmo que nosso transporte coletivo fosse uma maravilha, o que não é, as pessoas continuariam desejando comprar um carro porque ele é símbolo de status e vivemos na civilização da gasolina. Nos últimos anos, graças ao crédito farto, ficou fácil comprar um carro e o curitibano foi às compras. Ele pode até se orgulhar do seu transporte coletivo, mas andar de carro dá mais ibope, é mais confortável, geralmente mais rápido. Não é mais barato, nem mais ecológico, mas sustentar um carro é uma conta que dá para encarar e a preocupação ecológica ainda não evoluiu a ponto de fazer as pessoas motorizadas optarem pelo transporte coletivo.
Como resolver essa equação? Curitiba antecipa o que vai acontecer em outras cidades brasileiras. Por mais que o transporte coletivo se aperfeiçoe, será deixado de lado por mais e mais pessoas que vão optar pelo carro.
Uma das administrações anteriores tentou colar em Curitiba a marca de capital ecológica. Realmente, nossa proporção de áreas verdes por habitante é uma das melhores do país, temos coleta seletiva de lixo organizada, mas essa quantidade de carros em circulação acaba com qualquer pretensão nossa de sermos os mais ecológicos. Nosso trânsito se deteriora a cada dia. Se Curitiba quiser voltar a ser capital ecológica, teremos que deixar o carro na garagem para prestigiar ligeirinhos, estações tubo, canaletas, biarticulados, etc. Só que isso envolve uma mudança cultural e algumas iniciativas ousadas da prefeitura. Não sei se criando soluções vip de transporte coletivo, quem sabe fazendo restrições à circulação de carros em áreas movimentadas. Só espero que Curitiba se torne um dia a capital com a maior taxa de carros parados na garagem.
Crédito de imagem: Gazeta do Povo
Viadutos e trincheiras para piorar o que está ruim
Quarta-feira, 01/10/2008
Um dos candidatos a prefeito de Curitiba está prometendo no horário político da TV que vai resolver o problema do trânsito curitibano construindo muitos viadutos e trincheiras pela cidade. Felizmente, segundo as pesquisas, esse candidato não tem a menor chance de se eleger. Se essa é a sua melhor proposta para melhorar o trânsito, imagine as demais.
Dirigir em Curitiba até uns quinze anos atrás era uma tranqüilidade, graças à combinação de planejamento urbano com um número bem menor de carros em circulação, equivalente à metade do que existe hoje. As administrações recentes têm evitado construir trincheiras e viadutos o que é positivo, pois essas soluções pertencem ao passado, a um urbanismo positivista que valorizava obras monumentais, com grandes movimentações de terra e muito concreto. Viadutos e trincheiras são intervenções drásticas na paisagem urbana que a desumanizam e têm impacto ambiental alto. Além disso, não atacam o problema do trânsito pelo caminho sustentável. Resolver o problema do trânsito não é ampliar as vias de tráfego para comportar mais e mais veículos. A solução genuína para o caos do trânsito é tirar os carros da rua com medidas como estimular o uso do transporte coletivo e descentralizar a cidade para reduzir os deslocamentos da população. Resolver o caos no trânsito é estimular a ocupação do centro comercial por moradores para usar melhor a estrutura urbana, é desestimular a concentração do comércio em shoppings para evitar os longos deslocamentos da população até esses caixotes refrigerados do consumo. Desconfie de candidatos que propõem obras faraônicas para problemas que exigem apenas planejamento e mudanças de postura.



