Quem precisa de carro flex?

Quarta-feira, 23/09/2009

carro flex

Em um mundo ecologicamente perfeito não haveria carros flex. Pensando bem, nesse mundo não haveria automóveis, mas vamos manter o pé na realidade e entender os prós e contras do carro flex. No Brasil, flex é o carro bicombustível que roda com álcool hidratado, com a gasolina nacional (que tem 25% de álcool) ou com a mistura em qualquer proporção desses dois combustíveis. Álcool e gasolina têm propriedades diferentes e cada um precisa de uma regulagem própria do motor para alcançar o melhor rendimento. Os carros flex fazem algumas regulagens automaticamente para se adaptar à mistura presente no tanque. A diferença mais importante em termos de regulagem, porém, é a taxa de compressão. Ela deve ser mais alta para o álcool, mas os carros flex não têm regulagem dinâmica da taxa de compressão do motor. Em vez disso, usam uma taxa intermediária fixa. A conseqüência é que o motor flex não fica na regulagem ideal nem para álcool, nem para gasolina e rende menos do que carros com motores mono combustível equivalentes. Só para exemplificar: a Saveiro total flex 1.6 faz 8,7 km/l com álcool. A Saveiro 1.6 a álcool de 1986 fazia 10,67 km/l. Parece piada, mas no Brasil tem carro velho rendendo mais do que carro novo cheio de tecnologia.

Se o carro monocombustível é melhor em consumo e potência, por que os carros flex, vendidos desde 2003, fazem tanto sucesso? Quando o consumidor adquire um carro flex está pensando em duas coisas: abastecer sempre com álcool e ficar calçado caso haja um rebuliço no mercado e o álcool fique muito caro ou venha a faltar nas bombas. O motorista quer usar apenas álcool em seu carro flex, pois acha que vai economizar uma boa grana. Na maioria dos casos a economia acontece mesmo, mas não dá para ter certeza antes de fazer as contas. Nem sempre a diferença de preço entre álcool e gasolina está favorável. Além disso, é preciso considerar que um carro monocombustível renderia bem mais. Em alguns momentos, abastecer um flex com álcool sai mais caro do que abastecer um carro a gasolina equivalente, mas o consumidor nem percebe porque o cálculo é enjoado de fazer. Enfim, os brasileiros querem sempre abastecer com o combustível mais barato. Lei de Gerson. A indústria automobilística tem interesse no carro flex porque dessa forma oferece duas opções ao consumidor e investe em apenas um projeto. O país sai prejudicado, pois o consumo geral de combustíveis poderia cair mais de 10% caso a frota fosse apenas de carros mono combustíveis eficientes.

Os carros flex se justificam em um país que está diversificando a sua matriz energética e ainda não conseguiu montar uma cadeia produtiva estável para seus combustíveis. Nos EUA, por exemplo, dos 170.000 postos existentes, em torno de 2.000 apenas oferecem álcool combustível. Lá, os carros flex fazem sentido, não para o consumidor economizar dinheiro, mas simplesmente para que consiga abastecer o carro. Nossa realidade é outra. Estamos evoluídos na questão dos bio combustíveis, produzimos mais álcool do que gasolina. Nossa aposta no álcool começou há mais de trinta anos. Aqui, combustível alternativo é a gasolina, o álcool está disponível em quase todos os postos e a indústria desse combustível é sólida. O mercado oscila, é verdade, mas será que nós que produzimos petróleo e álcool, precisamos do carro flex para regular os preços? Eu, que já tive vários carros 100% a álcool e nunca fiquei na mão mesmo nas manhãs frias de Curitiba, gostaria de vê-los novamente a venda. São mais econômicos, mais ecológicos, mais brasileiros.

usina de álcool

Quando queimamos álcool no motor do carro produzimos CO2 que vai para a atmosfera. Olhando apenas para essa etapa do processo concluiríamos que o álcool aumenta o efeito estufa. Abrindo a lente da nossa análise, porém, vamos ver que o carbono presente no álcool está apenas retornando à atmosfera. Ele foi retirado do ar durante o crescimento da cana que, por fotossíntese, converte CO2 atmosférico em matéria orgânica usada para produzir álcool. Olhando dessa forma, concluiríamos que o ciclo do álcool é fechado e que esse combustível não causa nenhum aumento de efeito estufa, só estamos devolvendo para a atmosfera CO2 que já estava lá alguns meses antes.

Agora, vamos ampliar ainda mais o alcance da nossa investigação, Para produzir o álcool é preciso acionar uma indústria complexa que consome fertilizantes, utiliza máquinas agrícolas, exige transporte de materiais, usa energia intensivamente na usina, etc. Em todas as etapas desse processo, temos débito de carbono, seja na fabricação do fertilizante ou no motor a diesel do caminhão que leva a cana até a usina. Considerando o processo como um todo concluímos que sim, o álcool gera débito de carbono. Seria preciso estudos mais aprofundados para medir em quanto fica esse débito. Alguns especialistas afirmam que para cada tonelada de carbono lançada ao ar por carros a álcool, temos outros 200 kg de carbono emitidos em definitivo pela agroindústria desse produto. A situação se complica bastante se o plantio de cana de alguma forma provocar  o desmatamento de florestas nativas.

O que um ecologista deve fazer então? Lançar-se ao abismo dirigindo seu carro a álcool? Calma. O álcool continua dando de goleada em combustíveis fósseis como gasolina, diesel e gás natural. Esses produtos são lançados integralmente e em definitivo na atmosfera e não são renováveis, além de gerarem débito de carbono alto em sua cadeia produtiva. Com a evolução da tecnologia e da consciência ambiental, o débito de carbono do álcool vai cair. Por isso, em vez de se jogar nas cavas de Varanasi, deixe seu carro a álcool na garagem e utilize-o somente quando for realmente necessário. Sempre que puder, vá de transporte coletivo, de bicicleta, a pé, ou nem vá, resolva pela Internet.

Ecológico é: demolir viadutos

Sábado, 25/10/2008

A Prefeitura de São Paulo anunciou licitação para demolir o viaduto Diário Popular de 540m localizado na região central de São Paulo. O viaduto vai ao chão porque outras obras absorveram o fluxo de veículos que passava por ele transformando-o em um Belo Antônio. A prefeitura considera que a área no entorno do viaduto vai se valorizar com a sua demolição. No seu lugar será implantado um parque.

A notícia boa é que um viaduto vai desaparecer, a ruim é que ele será desativado porque obras de maior porte absorveram a sua função. Recursos foram gastos para ergue-lo e mais recursos serão consumidos para destruí-lo enquanto o problema do trânsito em São Paulo continua.

Quem dera muitos viadutos fossem ao chão por falta de uso. Ouso dizer que o dia mais ecológico de São Paulo vai acontecer quando o Minhocão com seus 3km de extensão for dinamitado. Mas para isso acontecer é preciso torná-lo inútil. Conseguiremos fazer isso? Chegará o dia em que não precisaremos mais de viadutos? No lugar de viadutos, parques, no lugar do asfalto, grama. Esse é o novo progresso.

Crédito de imagem: www.skyscrapercity.com

Ecológico é: trocar asfalto por grama

Quarta-feira, 22/10/2008

Faz muito tempo que se fala em metrô para Curitiba. A cada campanha eleitoral, os candidatos se revezam em promessas sobre a criação do metrô curitibano. Não sei se o metrô vai sair um dia ou não, mas o que me chamou a atenção no projeto do atual prefeito para o metrô é a grama. Vou explicar: O transporte coletivo de alta capacidade em Curitiba é feito em vias exclusivas, aqui chamadas de canaletas do ônibus expresso. A principal delas corta a cidade de norte a sul. A proposta da atual administração é construir o metrô embaixo dessas vias exclusivas e, dessa forma, a canaleta pode ser desativada. No seu lugar, serão construídos jardins e áreas de convívio. É o asfalto cedendo lugar ao verde. As áreas cortadas pelas canaletas ficarão mais agradáveis, menos ruidosas, mais valorizadas.

Na lógica desenvolvimentista, asfalto é sagrado, traz status para a cidade e deve aumentar sempre. Nessa escola urbanista, parece sacrilégio propor a substituição de uma rua asfaltada por um jardim. Felizmente, o desenvolvimentismo faraônico está cedendo terreno a uma visão mais arejada sobre a qualidade de vida urbana. Espero que nos próximos anos Curitiba volte a assumir a vanguarda no urbanismo brasileiro e que muito asfalto seja trocado por grama.

Cedo ou tarde todo mundo poderá ter um carro porque a renda aumenta e a tecnologia avança. E pode estar certo que quando esse dia chegar, tirando alguns poucos desprendidos, todos vão optar por ter seu belo carro. Nem precisa dizer que isso pode nos levar ao caos no trânsito e a uma tragédia ambiental, a menos que …

A menos que os carros fiquem a maior parte do tempo na garagem. A consciência ambiental evolui a passos de cágado. Vivemos na civilização da gasolina e as pessoas consideram o carro uma necessidade, embora ele seja mesmo uma comodidade e um símbolo de status. Diante disso, não adianta radicalizar. Em vez de pedir às pessoas que fiquem sem carro é melhor convence-las a reservar o carro apenas para os momentos necessários e significativos. Para ir ao trabalho: transporte coletivo; para passear com a família no final de semana: carro. Para correr para o hospital em uma emergência: carro; para levar o filho à escola todo dia: transporte escolar.

O uso essencial do carro é uma idéia mais assimilável pela população do que a extinção dessas máquinas. Nesse contexto de uso reduzido a população aceitaria meilhor iniciativas como fechar algumas áreas da cidade ao carro particular. Carro: use com moderação.