A sedução do instantâneo

Sábado, 27/06/2009

achocolatado

A Internet nos vicia em instantaneidade. Houve um tempo em que para fazer uma pesquisa era necessário se deslocar até uma biblioteca e vasculhar nos livros longamente até encontrar o conteúdo desejado. Nesse tempo, para ver um filme era preciso aguardar a sua exibição em um cinema próximo ou até que a TV programasse sua exibição. A Internet torna tudo mais rápido a ponto de criar a ilusão de que as coisas podem ser produzidas no instante em que são requisitadas.

As ferramentas para produção de conteúdo de Internet também caminham para a valorização do instantâneo. Quase diariamente recebo notícias de algum novo recurso para publicar ideias onde quer que você esteja na exata hora em que a ideia surge. O Twitter é o campeão dessa linha. Uma ideia na cabeça e um celular na mão. Pronto! Foi para a Internet. Não é uma maravilha? Sim e não. A maioria dos conteúdos não precisa de instantaneidade e ficaria bem melhor se maturasse por um tempo antes de ir ao ar. Em muitos casos, a instantaneidade do Twitter chega a me parecer arrogante. É uma pretensão achar que aquelas coisas que afloram em nossas mentes são boas para serem publicadas imediatamente após sua erupção. Eu não caio mais na armadilha de pensar que no dia seguinte o conteúdo terá o mesmo brilho da véspera. O tipo de conteúdo que me interessa mais é aquele que, como os vinhos encorpados, precisa de um tempo na garrafa antes de ir para o cálice. Instantâneo bom para mim é achocolatado e algumas poucas notícias urgentes. Esse post, por exemplo, dormiu uns dias na gaveta digital antes de chegar até você. Tempo suficiente para melhorar o texto e para uma reflexão sobre a sua relevância.

bloqueio internet

Na minha ingenuidade reincidente eu já acreditei que a Internet era uma ferramenta a serviço das liberdades democráticas. Essa crença de bom selvagem acabou de vez enquanto eu acompanhava as ações recentes da política americana no Irã envolvendo o Live Messenger e o Twitter.

Faz pouco tempo, a Microsoft deixou de fornecer o seu serviço de mensagens instantâneas MSN Live Messenger para o Irã. A justificativa da empresa é que o Messenger requer instalação de software na máquina do usuário. Como o Irã está na lista negra do governo americano, a Microsoft não pode legalmente fornecer produtos a esse país, inclusive software. O sinal do Messenger foi cortado também em Cuba e Coreia do Norte. Serviços da Microsoft ofertados exclusivamente pela web como o Hotmail continuam disponíveis nesses países que compõem o Eixo do Mal.

Logo depois do corte do Messenger no Irã, houve uma eleição por lá e a oposição derrotada começou a promover protestos pelo país. O governo iraniano tenta neutralizar as ações da oposição e isso inclui bloqueio ao Twitter. O serviço de microblog tem ajudado os oposicionistas iranianos a se articularem. A Secretária de Estado americana Hillary Clinton chegou a intervir para adiar uma manutenção programada do Twitter para não prejudicar a comunicação dos oposicionistas iranianos.

Comparando essas duas ações: o bloqueio do Messenger e o incentivo ao Twitter, dá para perceber que existe um oportunismo descarado do governo americano. O Messenger não seria útil para a comunicação dos iranianos durante esse momento de crise? Messenger não pode, mas Twitter pode e deve ser usado, desde que seja para derrubar o governo xiita iraniano. Não há nenhum compromisso com as liberdades democráticas nessas ações do governo americano. Do governo iraniano também não se espere nada íntegro. Eles bloqueiam e liberam o que bem entendem sem maiores pudores. Antes das eleições bloquearam o Facebook no Irã para garantir a “tranquilidade” do processo eleitoral.

Esses bloqueios de serviços da Internet pelo mundo afora mostram a fragilidade da rede diante dos interesses tanto de governos locais como de países que dão as cartas na política mundial. A cada dia está mais trabalhoso ser ditador. No passado, para cortar as comunicações do inimigo bastava tomar as estações de rádio, de TV e os sistemas de telefonia. No século XXI, o ditador tecnológico tem que controlar também os backbones de Internet.

Foto em Paris de Henry Cartier Bresson

Quando nossos avós viajavam para um local turístico o costume era comprar um belo cartão postal, escrever uma mensagem inspirada e remetê-lo pelo correio aos familiares. Os tempos mudaram e agora dispomos de recursos mais avançados para documentar a viagem do que o velho cartão postal. Os viajantes descolados de hoje registram sua viagem desde a partida, tirando fotos com o celular no saguão do aeroporto. Chegando ao hotel, o viajante cronista, acessa a Internet, faz o upload das imagens para o Flickr e posta um aviso no Twitter para que seus seguidores possam ver imediatamente as fotos. Não é uma maravilha? Sim e não. A tecnologia é maravilhosa, o uso que fazemos dela pode ser ou não ser. Essa sensação de vida conectada mexe com a cabeça das pessoas e pode levá-las a uma corrida pela documentação da vida em tempo real. A sedução do instante é tão forte que algumas pessoas um belo dia, tarde demais, param para fazer a pergunta fundamental: documentar ou viver? Não seria melhor esquecer celular, Flicker e Twitter para simplesmente curtir a viagem? Sim, documentar é importante. Vamos lembrar daqueles registros maravilhosos dos viajantes do passado que registraram os costumes e as belezas de terras inexploradas e esquecidas. No entanto, quem está disposto a documentar mais do que viver deveria começar refletindo sobre a relevância do que documenta. Depois, precisa decidir se vale a pena sacrificar a experiência de vida em favor do registro. Documentar ou viver, eis a questão.

seguidores
Eu estava aqui dialogando com meus botões em busca de um motivo para tanta badalação em torno do Twitter. Afinal, porque esse serviço de microblog com posts de 140 caracteres tem crescido explosivamente? Concluimos que o segredo está na possibilidade de seguir e ser seguido sem reciprocidade. Esse recurso de lifestreaming é o que distingue o Twitter de outras redes sociais.
Nas redes sociais estabelecidas como Orkut a relação entre usuários é de mão dupla. Você convida alguém para ser seu amigo e o outro deve aceitar o convite, assim cada um computa um amigo a mais e isso rende prestígio no universo paralelo das redes sociais. No Twitter, o seguido não precisa retribuir a gentileza. Você pode ter muitos seguidores sem precisar seguir ninguém e vice-versa. Graças a essa lógica, algumas celebridades como a apresentadora Oprah Winfrey alcançaram mais de um milhão de seguidores. Embora você possa ler os microblog sem compromisso, o Twitter incentiva seus usuários a seguirem outros usuários. Aí surge aquela vontade de seguir e ser seguido mais e mais.
Redes sociais como Orkut, Plaxo e Live Messenger também entraram na onda de seguir e ser seguido, mas por outro caminho. Nessas redes, cada vez que você faz alguma ação como editar o perfil ou publicar uma foto, seus contatos são alertados. É como eles fossem seus seguidores e vice-versa. O que meus botões não souberam responderam é como o público do Twitter vai se organizar para chegar a um ecossistema equilibrado de seguidores e seguidos. Consigo imaginar três tipos notáveis de twitteiros:
  • Profeta. Tem uma legião de seguidores e segue poucos.
  • Equilibrado. Segue pessoas na mesma proporção em que é seguido.
  • Ovelha. Segue muitos e é seguido por poucos.
Decididamente, já ultrapassamos a era da Web 2.0, a da Internet participativa com conteúdo gerado pelo usuário. Entramos na era da Internet das redes sociais. Seria de se comemorar se tivéssemos alcançado a comunicação franca em que as pessoas se articulam por belas causas, mas o que predomina, infelizmente, é muito marketing pessoal, exibicionismo e uma desesperada vontade de se destacar na multidão mesmo quando não se tem algo a dizer.

Para que serve o Twitter?

Quarta-feira, 06/05/2009

twitter no iphone

Twitter é o queridinho da vez entre os geeks, mas está ultrapassando os limites desse grupo experimentador por natureza e pode chegar às massas internéticas. Lembrando que no Brasil essa massa é apenas 20% da população. O crescimento explosivo do Twitter leva alguns internautas de Neanderthal como eu ao questionamento: qual seria a utilidade desse trem? Falo de utilidade em sentido amplo, psicológico, sociológico, mercadológico.

Seria um blog? É um microblog. Os posts podem ter até 140 caracteres o que o torna impróprio para posts verborrágicos como este que você está lendo. Talvez, os blogs comuns sejam feitos para publicar textos revisados e maturados. O microblog seria voltado a uma comunicação mais espontânea e rápida?

Seria um RSS? No Twitter, o usuário segue microblogs, logo o Twitter é uma espécie de RSS especializado em microblogs do Twitter.

Seria um mensageiro instantâneo? Os posts do Twitter lembram mensagens instantâneas de serviços como o Live Messenger. A diferença é que o emissor fala para uma plateia e não reservadamente para outra pessoa.

Seria uma rede social? O Twitter é formado por seguidos e seguidores, logo é uma espécie de rede social.

Seria um serviço de SMS pela Internet? Os 140 caracteres do Twitter tem a ver com os torpedos de celular. A ideia é bem essa: integrar a web com o celular.

O Twitter tem um pouco de várias ferramentas da Web e ao mesmo tempo se diferencia delas na sua simplicidade fazendo coisas que as outras ferramentas não fazem. Com ele, é possível escrever um tipo específico de post, com um tipo específico de distribuição, para um tipo específico de rede social. E como ele de certa forma complementa outros serviços, vem a pergunta: Quanto tempo vai levar para ser possível seguir pessoas pelo Messenger? O Orkut não vai ter microblogs com seguidores cedo ou tarde? A ideia do Twitter tem tudo para ser canibalizada pelos pesos pesados das redes sociais. Twitter sozinho pode entusiasmar os geeks, mas os internautas já estão acostumados a serviços com mais funcionalidades e com maior integração. Enquanto os gigantes disputam o Twitter, eu procuro uma utilidade pare ele. Quem tiver uma idéia me avise no meu Twitter.