Araçá vermelho

Eu circulava pelo final da rua Sete de Setembro em Curitiba, quando observei uns araçás caídos no chão. Pensei comigo: caraca, não como araçá desde quando era criança. Eram araçás vermelhos de um araçazeiro plantado pela prefeitura. Há muitos araçazeiros nesse trecho da avenida. Eles estão ainda em formação, mas já produzem frutos. Fui me informar e soube que se trata de um projeto da prefeitura para a substituição gradativa das espécies exóticas por plantas nativas da região.

Desde 2007, os proprietários curitibanos podem derrubar em seus terrenos uma árvore de espécie exótica como pinus e eucalipto desde que compensem a ação plantando pelo menos cinco mudas de espécies nativas como araçazeiro, guabirova ou araucária. Eu li algumas críticas ao projeto com as quais não concordo. Uma delas alertava sobre o perigo de uma repentina poda geral das árvores na cidade. Bem, eu entendi que a substituição deve ser gradativa. Outra crítica mencionava a dificuldade de se definir o que é uma espécie exótica em meio urbano. Para mim, a ideia é bem clara: valorizar as espécies nativas pelo beneficio ambiental que isso representa. As espécies nativas são adaptadas ao local e favorecem a proteção da fauna, entre outras vantagens.

Para minha felicidade, esse ano o araçazeiro lá de casa deu sua primeira safra. Um segundo araçazeiro plantado por minha filha no ano passado também cresce viçoso no quintal, indiferente aos rabugentos críticos das espécies nativas.

O desenterro do Rio Ivo

Sábado, 20/12/2008

Rua dos Chorôes com Rio Ivo em Curitiba

Por esses dias eu passava de ônibus pela Rua dos Chorões em Curitiba. No meio dessa rua passa o Rio Ivo, um pequeno córrego que atravessa a região central da cidade. Uma senhora de cabelos brancos ao meu lado comentou:

— Que horror, não é mesmo? A prefeitura devia tapar esse esgoto.

Eu estava com meu filho de 11 anos e ambos permanecemos calados diante do comentário da senhora. A maneira de pensar dela é de uma época desenvolvimentista em que era perfeitamente aceitável transformar um rio em esgoto para garantir o crescimento da cidade. Esgoto segundo essa visão é uma coisa para ser escondida e não para ser tratada.

Depois de descer do ônibus conversei com meu filho sobre o Rio Ivo. Em vez de cobrir o rio com asfalto para permitir mais carros em circulação, por que não tratar o esgoto que chega até ele? Por que não fazer o paisagismo de suas margens para que ele volte a ser uma alegria aos olhos de quem passa? E por que não deixá-lo correr a céu aberto em todo o seu percurso novamente? Hoje, boa parte do Rio Ivo está coberta por concreto e asfalto. Os mais novos sequer sabem que há um rio correndo debaixo de seus pés.

A despoluição e revitalização de um rio urbano custa dinheiro, é claro. Mas enterrar o rio também saiu muito caro. A revitalização valoriza o espaço urbano e melhora a qualidade de vida da população. Já estamos preparados para isso em termos econômicos e de tecnologia. Só não estamos preparados em nível de consciência. Talvez no dia em que as pessoas voltarem a ver o rio como fonte sagrada de vida.

Crédito de imagem: Matatias

Pensando sobre o impacto que os templos do consumo podem causar ao meio ambiente cheguei à conclusão que um shopping pode ser até positivo quando segue as melhores práticas. Por outro lado, torna-se um desastre ecológico quando adota os piores vícios desse tipo de empreendimento. Vou explicar melhor descrevendo dois shoppings imaginários: o Green Shopping onde predominam as melhores práticas e o Grey Shopping que apresenta os piores vícios.

Green Shopping

  • A concentração de lojas em um único lugar é interessante porque as pessoas podem fazer várias compras em um único deslocamento. É o one stop shop. Tudo bem que essa é uma qualidade que o Grey Shopping também apresenta.
  • O Green Shopping está estrategicamente localizado próximo dos consumidores. Essa localização favorável reduz os deslocamentos urbanos.
  • A localização em uma área adensada melhora o uso da infra-estrutura urbana (ruas, rede elétrica, rede de águas, etc.)
  • O Green Shopping revitalizou uma área urbana degradada. Foi construído onde ficava uma antiga fábrica e houve aproveitamento de construções desativadas. É a reciclagem da estrutura urbana.
  • O Green Shopping aproveita a iluminação natural. A luz do sol entra por seus corredores e lojas. Com isso, economiza-se de energia para iluminação.
  • O shopping tem boa ventilação natural. Algumas áreas ficam a céu aberto o que permite uma redução de gastos com condicionamento de ar.
  • A pavimentação no Green Shopping é do tipo permeável e, assim, ele não se torna uma gigantesca placa impermeabilizante do solo.
  • O paisagismo do Green Shopping privilegia o verde, o que ajuda a criar uma relação de afeto dos clientes com a natureza.
  • O entorno do shopping é bem servido por transporte coletivo.
  • O Green Shopping aproveita água da chuva, trata seus efluentes e tem um programa forte de reciclagem de embalagens e de resíduos sólidos.

Open air shopping

Grey shopping

  • O Grey Shopping foi projetado para estimular o consumo. As armadilhas do marketing estão nos menores detalhes e, graças a isso, as pessoas acabam consumindo mais do que precisam. Ok, essa é uma característica de todos os shoppings.
  • O ambiente luxuoso do Grey Shopping foi criado à custa de materiais e técnicas de alto impacto ambiental.
  • O Grey Shopping é um gigantesco caixote refrigerado. Seu gasto de energia para iluminação e ar condicionado é um absurdo.
  • O Grey Shopping foi construído em uma área afastada de onde os consumidores moram e trabalham, o que resulta em aumento dos deslocamentos urbanos.
  • O acesso ao shopping por transporte coletivo é ineficiente.
  • O Grey Shopping sucateou a estrutura urbana pré-existente. Antes do shopping se instalar, o comércio operava na área central da cidade que agora está degradada.
  • Os estacionamentos a céu aberto do Grey Shopping são enormes panos de asfalto que impermeabilizam o solo e mandam grandes volumes de água da chuva para o córrego próximo.

Uma das tendências do urbanismo ecológico é reduzir ao máximo os deslocamentos motorizados da população. Esses movimentos consomem combustível, exigem mais carros, mais asfalto, mais estacionamentos, etc. Se você fizer compras pela Internet não precisará se deslocar, certo? Sim, mas lembre que o entregador vai se deslocar por você. Se ele vier até a sua casa especialmente para fazer a entrega, não teremos ganho ambiental. Na maioria dos casos, felizmente, o entregador faz várias entregas na mesma viagem e assim economiza recursos de transporte. Agora, se você já passa de carro diante da loja em seu deslocamento normal faça a compra diretamente. Você aproveita a viagem que faria de qualquer forma.

Outra vantagem a levar em conta nas compras pela Internet é que na maioria dos casos, do outro lado do computador não existe uma loja física para expor os produtos. A compra vai direto do depósito para a sua casa. Sem a loja física, temos economia de área construída, iluminação, ar condicionado, etc.

Ah, mais uma coisa: talvez você pense como eu e ache que fazer compras é um saco, então você tem mais um excelente motivo para comprar tudo pela Internet. Só não dá muito certo com cafezinho expresso e sorvete de casquinha.

Ecológico é: demolir viadutos

Sábado, 25/10/2008

A Prefeitura de São Paulo anunciou licitação para demolir o viaduto Diário Popular de 540m localizado na região central de São Paulo. O viaduto vai ao chão porque outras obras absorveram o fluxo de veículos que passava por ele transformando-o em um Belo Antônio. A prefeitura considera que a área no entorno do viaduto vai se valorizar com a sua demolição. No seu lugar será implantado um parque.

A notícia boa é que um viaduto vai desaparecer, a ruim é que ele será desativado porque obras de maior porte absorveram a sua função. Recursos foram gastos para ergue-lo e mais recursos serão consumidos para destruí-lo enquanto o problema do trânsito em São Paulo continua.

Quem dera muitos viadutos fossem ao chão por falta de uso. Ouso dizer que o dia mais ecológico de São Paulo vai acontecer quando o Minhocão com seus 3km de extensão for dinamitado. Mas para isso acontecer é preciso torná-lo inútil. Conseguiremos fazer isso? Chegará o dia em que não precisaremos mais de viadutos? No lugar de viadutos, parques, no lugar do asfalto, grama. Esse é o novo progresso.

Crédito de imagem: www.skyscrapercity.com