A sedução do instantâneo

Sábado, 27/06/2009

achocolatado

A Internet nos vicia em instantaneidade. Houve um tempo em que para fazer uma pesquisa era necessário se deslocar até uma biblioteca e vasculhar nos livros longamente até encontrar o conteúdo desejado. Nesse tempo, para ver um filme era preciso aguardar a sua exibição em um cinema próximo ou até que a TV programasse sua exibição. A Internet torna tudo mais rápido a ponto de criar a ilusão de que as coisas podem ser produzidas no instante em que são requisitadas.

As ferramentas para produção de conteúdo de Internet também caminham para a valorização do instantâneo. Quase diariamente recebo notícias de algum novo recurso para publicar ideias onde quer que você esteja na exata hora em que a ideia surge. O Twitter é o campeão dessa linha. Uma ideia na cabeça e um celular na mão. Pronto! Foi para a Internet. Não é uma maravilha? Sim e não. A maioria dos conteúdos não precisa de instantaneidade e ficaria bem melhor se maturasse por um tempo antes de ir ao ar. Em muitos casos, a instantaneidade do Twitter chega a me parecer arrogante. É uma pretensão achar que aquelas coisas que afloram em nossas mentes são boas para serem publicadas imediatamente após sua erupção. Eu não caio mais na armadilha de pensar que no dia seguinte o conteúdo terá o mesmo brilho da véspera. O tipo de conteúdo que me interessa mais é aquele que, como os vinhos encorpados, precisa de um tempo na garrafa antes de ir para o cálice. Instantâneo bom para mim é achocolatado e algumas poucas notícias urgentes. Esse post, por exemplo, dormiu uns dias na gaveta digital antes de chegar até você. Tempo suficiente para melhorar o texto e para uma reflexão sobre a sua relevância.

A Internet em tabelas

Quarta-feira, 17/06/2009

quadrados

A Internet é um gigantesco repositório de informação desestruturada. Vou explicar com um exemplo: o internauta encontra facilmente informações sobre raças de cães, mas se quiser organizar essas raças pelo tamanho do animal, vai ter que garimpar as informações de peso e medidas raça por raça e tabelar os dados usando recursos cerebrais próprios. Se o internauta tiver sorte, encontrará um site que traz a tabela prontinha, mas essa não é a regra, infelizmente. Mesmo quando encontra os dados tabelados, não é simples gerenciá-los para obter combinações como, por exemplo: que raças de cães grandes têm temperamento dócil?

Estruturar a web, colocando cada dado em um quadradinho é um dos grandes desafios da Web Semântica. Uma abordagem é deixar a tarefa por conta dos geradores de conteúdo que passariam a gerar informação já estruturada. O Freebase vai por essa linha. Freebase é mais do que uma grande enciclopédia, é um banco de dados altamente estruturado com informações enciclopédicas. Outra linha de ação é aquela em que os buscadores fazem das tripas coração para estruturar a informação desarticulada e solta pela rede. Três serviços recém-lançados se propõem essa tarefa: Wolfram, Bing e Google Squared. Por trás deles têm gente de peso. Wolfram é desenvolvido pela mesma equipe que criou o software Mathematica. Google Squared conta com a experiência em buscas do Google. O Bing é da Microsoft, que também tem punch para entrar nessa briga. Cada um dos três usa uma abordagem diferente, o que é muito interessante, pois traz para os internautas soluções variadas que não competem diretamente entre si. O Wolfram faz a análise estatística dos dados da Web para fornecer resultados numéricos confiáveis. O Bing se propõe a agir em nichos específicos como viagens e compras e, dessa forma, trazer informação organizada e mastigadinha para o usuário. O Google Squared deixa o usuário estruturar a informação de forma dinâmica.

Viva! Agora sim, a Web Semântica está acontecendo. Para algumas pessoas a Internet em tabelas nunca vai fazer falta, mas convenhamos, informação bruta é quase nada, informação  gerenciável  leva ao conhecimento.

Dia mundial sem Internet

Quarta-feira, 10/06/2009

Fora da tomada, desconectado, unplugged

Existe o Dia Mundial sem Carro, o Dia Mundial sem Tabaco, além de outros dias mundiais sem coisas viciantes. Por que não o Dia Mundial sem Internet? Afinal, a dependência da rede já é considerada vício. Há alguns dias atrás, o executivo chefe do Google, Eric Schmidt, recomendou aos jovens durante uma palestra que eles saíssem da frente do computador de vez em quando e fossem viver a vida real. Sábias palavras de um cara que trabalha o tempo todo para dominar o mundo por meio da Internet.

O conselho do Eric Schmidt me tocou porque, embora não seja tão jovem, não passo um dia sem acessar a bendita rede. Trabalho com ela e a uso em casa diariamente. Pensando bem, um dia por ano sem Internet é pouco e, por isso, vou instituir o meu dia semanal desconectado. Creio que essa desintoxicação semanal vai reduzir minha alta taxa de bits no cérebro e, quem sabe, viverei mais tempo no mundo real. Mas será que existe vida fora da Internet? Deixe-me ver: meu pai nunca usou a web. Ele tem 78 anos. O Balu, nosso cão labrador também não usa Internet e parece ser bem feliz. Sim, há vida fora da Internet.

Enquanto isso, aqui no Brasil, nosso ministro das comunicações deu conselho semelhante aos jovens. O ministro Hélio Costa acha que os jovens deveriam ficar menos tempo diante do computador, assim poderiam assistir um pouco de TV e ouvir rádio. Bem, essa fala do ministro já é assunto para outro post. Amanhã não vou conferir se fizeram comentários a este post, ok? Será meu dia unplugged.

seguidores
Eu estava aqui dialogando com meus botões em busca de um motivo para tanta badalação em torno do Twitter. Afinal, porque esse serviço de microblog com posts de 140 caracteres tem crescido explosivamente? Concluimos que o segredo está na possibilidade de seguir e ser seguido sem reciprocidade. Esse recurso de lifestreaming é o que distingue o Twitter de outras redes sociais.
Nas redes sociais estabelecidas como Orkut a relação entre usuários é de mão dupla. Você convida alguém para ser seu amigo e o outro deve aceitar o convite, assim cada um computa um amigo a mais e isso rende prestígio no universo paralelo das redes sociais. No Twitter, o seguido não precisa retribuir a gentileza. Você pode ter muitos seguidores sem precisar seguir ninguém e vice-versa. Graças a essa lógica, algumas celebridades como a apresentadora Oprah Winfrey alcançaram mais de um milhão de seguidores. Embora você possa ler os microblog sem compromisso, o Twitter incentiva seus usuários a seguirem outros usuários. Aí surge aquela vontade de seguir e ser seguido mais e mais.
Redes sociais como Orkut, Plaxo e Live Messenger também entraram na onda de seguir e ser seguido, mas por outro caminho. Nessas redes, cada vez que você faz alguma ação como editar o perfil ou publicar uma foto, seus contatos são alertados. É como eles fossem seus seguidores e vice-versa. O que meus botões não souberam responderam é como o público do Twitter vai se organizar para chegar a um ecossistema equilibrado de seguidores e seguidos. Consigo imaginar três tipos notáveis de twitteiros:
  • Profeta. Tem uma legião de seguidores e segue poucos.
  • Equilibrado. Segue pessoas na mesma proporção em que é seguido.
  • Ovelha. Segue muitos e é seguido por poucos.
Decididamente, já ultrapassamos a era da Web 2.0, a da Internet participativa com conteúdo gerado pelo usuário. Entramos na era da Internet das redes sociais. Seria de se comemorar se tivéssemos alcançado a comunicação franca em que as pessoas se articulam por belas causas, mas o que predomina, infelizmente, é muito marketing pessoal, exibicionismo e uma desesperada vontade de se destacar na multidão mesmo quando não se tem algo a dizer.

Internet focada em pessoas

Sábado, 23/05/2009

Narciso de Caravaggio

Há muito tempo atrás, na era analógica, havia o risco de receber um convite saia justa:

— Passe lá em casa amanhã. Vamos receber os amigos para exibir os slides da nossa viagem a Nova York.

Que furada, pagação de mico, programa de índio (com todo o respeito aos povos indígenas). Os tempos mudaram e agora dispomos de blogs, fotologs, redes sociais, Flickr, Twitter, enfim, toda uma parafernália de ferramentas para publicar em contexto digital aquela mesma sonífera coleção de slides. Tá certo, existem amigos legais, fotos bacanas e a possibilidade de aprender alguma coisa interessante sobre Nova York, mas tirando as exceções estamos falando de feira de vaidades, exibicionismo, marketing pessoal e disputa pela atenção da plateia. Pronto, fiz meu desabafo contra o uso da Internet centrado em pessoas e não em conteúdo, contra o uso egocêntrico da rede, que é a ocupação principal de quase famosos e celebridades de pau oco. Felizmente, as ferramentas de web 2.0 são versáteis e podem ser usadas para fins interessantes, embora todo mundo saiba que o besteirol predomina.

Para completar o arsenal de recursos de Narciso, existem agora as ferramentas de lifestreaming, ideais para quem quer manter os fãs ocupados. Sites de lifestreaming como FriendFeed e Tumblr se propõem a agregar em um só local toda a presença digital da pessoa e divulgá-la para os amigos dispostos a segui-lo. Aliás, seguir pessoas é a nova febre da Internet e a ferramenta mais badalada para esse fim é o Twitter. Houve até uma corrida no Twitter para ver qual famoso alcançava o primeiro milhão de seguidores. Não é o sonho de consumo de toda celebridade? Observando bem, você vai perceber recursos de lifestreaming em sites como Orkut e Windows Live. Já notou que nesses serviços você é avisado sobre o que os seus amigos estão fazendo? Se o amigo publicar uma foto ou alterar o perfil você recebe um aviso. É você seguindo pessoas e pessoas seguindo você. Mais comunicação ou mais ruído, eis a questão.