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Posts Tagged ‘acordo ortográfico’


A mais recente reforma ortográfica lusófona unificou a grafia em língua portuguesa a partir de 2012, pelo menos aqui no Brasil. No além-mar os gajos ainda resistem em adotá-la. As mudanças mais enjoadas trazidas pela reforma se referem ao uso do hífen.  O emprego do hífen era nebuloso e, com o acordo, ficou enevoado, hermético, iniciático. Eu gosto de me expressar nos rigores do português castiço, mas confesso que não domino as novas regras do hífen e tenho uma boa razão para isso: não há regras para o uso do hífen.

Hífen é aquele risquinho horizontal que colocamos entre duas palavras como em bem-vindo ou em dia-a-dia (mas só em alguns casos, bem entendido). Na teoria, uma das funções do hífen é avisar que as palavras unidas por ele costumam andar juntas e comunicam um significado distinto daquele que vem da compreensão das palavras em separado. Por exemplo: quando falamos pé-de-meia não estamos falando do nem da meia mas de economias. Essas palavras que andam de mãos dadas graças ao hífen e que são conhecidas entre os especialistas como locuções são bem compreendidas na língua falada onde obviamente não existe hífen. Os falantes entendem as relações entre as palavras quando conversam entre si e só precisam usar hífen no discurso escrito porque algum dia no passado remoto da língua alguém achou que seria interessante usar o tal risquinho em alguns casos especiais. A utilidade prática do hífen é nula. Se analisarmos as regras da escrita em português veremos que as locuções são escritas ora com hífen (recém-nascido), ora com espaços entre as palavras que a compõem (pé de moleque) e, em outros casos juntando as palavras (paraquedas).

Gramáticos da velha guarda se desmancham em dar explicações “científicas” para o uso do hífen nesta ou naquela situação, mas o fato é que o emprego do pequeno risco horizontal virou samba-do-crioulo-doido depois do AcordoOrtográfico e ninguém mais sabe porque tudo-junto se escreve se-pa-ra-do. Uma coisa é certa. O acordo ortográfico foi acordado por pessoas do ramos das letras que tinham interesse cartorial em manter a língua repleta de exceções confusas. Se a nova ortografia tivesse sido pensada por um programador de computadores, por exemplo, haveria uma regra simples do tipo: usa-se o hífen em todas as locuções. Infelizmente, ainda há gente que vive de colocar hífen nos lugares certos. Hífen dá emprego e escasso poder a alguns pedantes. As reformas ortográficas da língua portuguesa acontecem em média a cada 30 anos. Espero que na reforma de 2040 a regra seja simples e direta: não se usa mais hífen e ponto.

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cartaz do concerto coral sinfónico

O económico agrónomo cleptómano. Se você é português não deve ter estranhado a frase anterior, mas se é brasileiro pode ter ficado com a impressão que os acentos estão errados.

A reforma ortográfica, destinada a unificar a escrita em língua portuguesa, admite muitas grafias duplas. Não falo das palavras que se escreve de dois modos tanto no Brasil como em Portugal. Refiro-me às grafias duplas geograficamente marcadas. Por aqui, ninguém escreve telefónica com acento agudo e no além mar eles não escrevem toxicômano com acento circunflexo. As palavras proparoxítonas com a vogal oral o fechada têm duas grafias: uma tipicamente brasileira com acento circunflexo e outra com acento agudo usada em Portugal.

Não sei porque os redatores do Acordo Ortográfico deixaram essa grafia dupla persistir. Foi uma bola fora, pois aqui no Brasil ninguém vai escrever anómalo, da mesma forma que os portugueses não vão escrever autômato. A presença dessas palavras na escrita vai denunciar a procedência do texto. Tudo bem que é fácil identificar se o texto é de Portugal ou do Brasil sem olhar para a grafia, afinal, existem diferenças sensíveis de vocabulário e estruturas sintáticas entre essas duas variantes do português. Mas a ideia do Acordo não era unificar a escrita? Ah, esses letrados e suas excessivas exceções. Chegam a ser cómicos/cômicos.

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frontão romano

A reforma ortográfica flexibilizou o uso de maiúsculas na grafia portuguesa. Nesse ponto, a reforma seguiu a tendência dominante pela diminuição da formalidade nas relações sociais. O uso de maiúsculas na escrita é marcadamente cerimonial. Historicamente, as maiúsculas são mais antigas, surgiram na Idade Antiga, enquanto que as minúsculas foram desenvolvidas na Idade Média. Esse aspecto histórico gerou uma associação das maiúsculas ao passado glorioso do período clássico e, por isso, elas são reconhecidas como mais nobres. Começar um nome com maiúscula dá um toque de formalidade à expressão, soa como uma reverência.

O Acordo Ortográfico deixa por conta dos escribas escolherem entre a opção mais formal (com mais maiúsculas) e a mais contemporânea como nestes exemplos:

Prédio na Rua XV de Novembro.
Prédio na rua XV de Novembro.

O Governador José Serra.
O governador José Serra.

O livro Memórias de um Sargento de Milícias.
O livro Memórias de um sargento de milícias.

As ciências naturais Biologia, Física e Química.
As ciências naturais biologia, física e química.

Em outros usos as iniciais maiúsculas foram suprimidas como nos nomes dos dias da semana, meses, estações do ano e pontos cardeais (segunda-feira, janeiro, primavera e sudoeste).

Houve um tempo em que os cavalheiros tiravam o chapéu ao cruzar com as senhoras de passagem. Atualmente, os homens sequer usam chapéu e, se usassem, dificilmente fariam mesuras às damas. Foi-se o tempo das reverências. A escrita segue o espírito da sociedade, por isso, menos maiúsculas, mais moderno. Ou seria pós-moderno?

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nippon

O Acordo Ortográfico recomenda o uso dos topônimos estrangeiros vernáculos, ou seja, devemos usar os nomes de locais estrangeiros seguindo o português tradicional. Vou exemplificar: o nome do país dos japoneses é escrito Japão aqui no Brasil, Japan pelos americanos e Nippon pelos japoneses quando eles usam o alfabeto latino. Japão é o topônimo vernáculo para o país dos japoneses e pouca semelhança tem com a forma que os nipônicos usam para se referir à sua terra. Isso acontece porque no português vernáculo era comum fazer adaptações drásticas nos topônimos estrangeiros. München passou a Munique, Milano a Milão, Genève a Genebra e assim por diante. Dá para perceber que a língua portuguesa era dominada pela idéia nacionalista de aportuguesar os nomes estrangeiros. Na atualidade, a tendência é de manter a grafia e pronúncia originais dos nomes, sempre que possível.

A regra do Acordo sobre os topônimos vernáculos não é apenas ortográfica. É também uma regra de escolha lexical, pois sugere o uso de uma palavra em lugar de outra. No caso, sugere a palavra aportuguesada em lugar da forma de origem. O Acordo Ortográfico adotou uma postura de equilíbrio nesse ponto. Manteve um pé na tradição ao recomendar o uso das formas vernáculas e se alinhou com a tendência atual do pensamento multicultural ao permitir a grafia original dos topônimos estrangeiros de formação recente. Afinal a língua não pára de evoluir e na época de Camões não existiam Zimbábue, Sri Lanka ou Mianmar.

Por isso, quando for viajar aos EUA lembre de escrever Nova Iorque enquanto estiver em solo brasileiro. Só use New York quando chegar lá. Quanto a Nova York, esqueça tanto aqui como lá.

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pizza mozzarella

O Acordo Ortográfico prescreve que grafias estrangeiras são aceitas apenas em nomes próprios estrangeiros e suas palavras derivadas. Entenda-se por grafia estrangeira formas de escrever incomuns em nosso idioma como em Shakespeare e shakespeariano. Se lêssemos a palavra Shakespeare segundo a nossa ortografia o resultado seria /xakespeare/ e não /xêykspir/.

Essa regra do Acordo tem um objetivo válido que é manter uma unidade mínima em nossa grafologia. A aplicação da regra, porém, é incerta principalmente no mundo real, que é bem diferente daquele idealizado por alguns gramáticos. Existem várias palavras em nossa ortografia que utilizam grafia estrangeira como em bacon que pronunciamos /bêicõ/ e paella que se fala /paêλa/. Até hoje eu não vi nenhuma cantina onde sirvam pitza de muçarela. Obs.: o Aurélio registra tanto muçarela como mozarela. Fiquem a vontade para escolher o queijo da sua preferência.

Nesses tempos de globalização é arriscado dizer que vamos evitar a entrada de grafias estrangeiras em nosso idioma. O problema maior, nesse caso, fica por conta das letras K, Y e W que contam como grafia estrangeira mas estão presentes em nossa língua em palavras como karaokê, software e yakisoba. Essa reflexão até que me deu a idéia para o nome de um dicionário digital: Dicionário Uébe.

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x-salada

Todo mundo conhece aquele sanduíche que leva hambúrguer, salada (alface e tomate), maionese e queijo (cheese). A maioria das lanchonetes anuncia o produto como x-salada e outras, em menor número, como cheese-salada. O x-salada é um item da culinária fast food vendido aos milhões nas lanchonetes do Brasil, mas a sua ortografia ainda não foi fixada nos dicionários nem no Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa. A análise desse caso pitoresco renderia uma monografia a um desocupado, mas para os propósitos deste post bastam algumas perguntas sem resposta.

Por que x-salada não está no dicionário se hambúrguer e misto-quente estão? Se servir de consolo, bauru e beirute também não foram dicionarizados. Que estranhos desígnios fazem com que um sanduíche popular esteja no dicionário e outro não? É porque essas palavras nasceram como nomes fantasia, dirão uns. Nem todas as palavras são palavras para dicionário dirão outros. É preciso ter paciência, vão lembrar os mais zen.

Qual é a grafia correta para x-salada (cheese-salada)? Muita gente faz piada com o x dizendo que só o usa quem não sabe escrever cheese, mas aqui vai um lembrete: o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa é contrário ao uso de grafias estrangeiras nas palavras nacionais. Assim, cheese não é uma grafia portuguesa válida, pelo menos nos rigores do Acordo.

Como escrever o nome desse calórico sanduíche, então? Já não bastava a implicância dos nutricionistas e dos anti-americanos contra o cheese-salada e agora também a dos letrados. Que tal, escrevermos xis-salada ou tchis-salada? Pensando bem, temos que levar em conta as novas regras para o hífen. Será que o correto é xissalada ou chissalada? Nossa, essa reflexão toda me deu fome. Acho que vou ali na esquina pedir um x-bacon, ou seria xisbeicom?

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Selo KYW

A regra do Acordo Ortográfico para uso das letras K, Y e W terá efeito muito reduzido sobre a ortografia real. O Acordo Ortográfico limita o uso das letras K, Y e W a três casos:

  • Antropônimos e suas palavras derivadas como Kant/kantiano, Darwin/ darwinista ou Taylor/taylorismo).
  • Topônimos e suas palavras derivadas como Kwait/kwaitiano ou Malawi/malawiano.
  • Símbolos científicos, unidades de medida e siglas internacionais como kg (quilograma), kW (kilowatt), Y (ítrio) ou KLM.

Trata-se da mesma regra encontrada no Formulário Ortográfico de 1943 e revela uma resistência contra a incorporação de grafias estrangeiras ao nosso vocabulário. Se acatada, essa regrinha xenófoba cria um problema para a entrada de novas palavras no nosso idioma. Não é novidade para ninguém que atualmente assimilamos muitas palavras do inglês, rico em palavras com K, Y e W. Se o Acordo for levado à risca teremos que abandonar a grafia consagrada e dicionarizada de palavras como software, know-how ou playground. O que fazer então? Aportuguesar a grafia de todos os estrangeirismos assimilados pelo idioma? Quem vai aportuguesá-los? O mais provável, porém, é que as restrições ao uso das letras K, Y e W sejam ignoradas sem nenhuma cerimônia pela sociedade brasileira. A saia justa vai ficar para a ABL (Academia Brasileira de Letras). Cabe à ABL publicar o Vocabulário Ortográfico que serve de referência para nossa ortografia. A ABL poderia, por exemplo, fixar copirraite como grafia oficial de copyright, mas não o fez até hoje. A Academia Brasileira de Letras não parece disposta a ir contra as formas socialmente consagradas, nem tampouco a contrariar a norma. Não abona copirraite pelo uso irrelevante, nem copyright porque emprega Y. O resultado é um Vocabulário Ortográfico defasado com a realidade da língua. Como a língua não pára, a fixação da grafia de estrangeirismos com K, Y ou W ficará a cargo de agentes mais dinâmicos como editoras, grandes jornais e lexicógrafos.

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