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Posts Tagged ‘educação’


Por que preciso estudar tudo isso? Acredito que você, caro leitor, já fez essa pergunta para si mesmo várias vezes quando estava na condição de estudante. Talvez, teve que respondê-la, quando no papel de pai e se, por ventura, batalhou como professor deve ter sido alvejado por ela inúmeras vezes. Já me deparei com essa pergunta fundamental da pedagogia enquanto estudante, pai e professor e gostaria de ter uma resposta fulminante engatilhada debaixo da língua, mas quanto mais básica a pergunta, mais difícil fundamentá-la.

Colocando em outros termos: O que o cidadão precisa conhecer para se considerar formado para a vida? Não estamos falando de conhecimentos específicos da carreira profissional, mas da matéria geral que é útil a todos independente da profissão que escolhemos. Alguns dizem que a escola nos prepara mal e não supre o mínimo necessário de conhecimento que necessitamos para o cotidiano. Outros acham que principalmente no Ensino Médio os alunos são bombardeados com excesso de conteúdo e que muito do que é despejado na cabeça dos jovens não vai ter utilidade para a vida. Quem está certo? Provavelmente, ambas as correntes. A escola não ensina tudo que precisamos, em parte por ensinar mal, em parte por não adotar um currículo abrangente. Em algumas áreas, porém, o currículo se aprofunda demais onde bastaria apenas a visão geral.

O pensador de Rodin

Até aqui falamos de currículo escolar, mas não vamos jogar a responsabilidade toda para a escola. A formação integral acontece em muitos lugares começando em casa, passando pela escola e se estendendo indefinidamente no trabalho e onde mais cada um quiser se aprimorar. O brasileiro precisa passar cerca de 10.000 horas de sua vida na escola para concluir o ensino fundamental e médio. Para a maioria, esse será o maior investimento que vai fazer na vida para formar competências essenciais.  Nos cursos de graduação dedica-se algum tempo para complementar da formação geral. Somem-se a isso cursos livres e o tempo gasto no aprendizado informal que não precisa de escola para acontecer. Provavelmente, nosso investimento em formação genérica ultrapassa 15.000 horas durante a vida, o que equivaleria a mais de sete anos de estudos em período integral. É bem mais do que investimos em formação específica para a carreira. O que fazer com todo esse tempo de formação? Como usá-lo sabiamente? O currículo nas escolas está em contínua transformação e. Infelizmente, costuma preparar o jovem para necessidades do presente, ou pior: para competências obsoletas, quando deveria prover as necessidades futuras. De qualquer forma, sempre podemos tentar uma aproximação do que seria uma formação ideal mínima.

  • Matemática. Começando pela aritmética, passando pela álgebra, trigonometria e geometria, os conhecimentos matemáticos devem abranger também probabilidade, estatística, cálculo numérico e é desejável que alcancem os fundamentos do cálculo diferencial e integral.
  • Linguagem. Dominar o uso da língua pátria e duas línguas estrangeiras é a meta. Em nossa realidade o inglês e o espanhol se destacam como possíveis segunda e terceira língua. Para isso, são importantes noções de linguística, estudo dos gêneros textuais com destaque para a alta literatura e, é claro, muitas atividades de leitura, interpretação e de expressão oral e escrita.
  • Ciências naturais. A biologia nos traz conhecimentos sobre os seres vivos e sobre nosso corpo, nos leva a entender a genética, a evolução e a dinâmica do meio ambiente. A física nos dá uma interpretação matemática sobre ondas, eletricidade, mecânica, termologia e relatividade. Pela química conhecemos a estrutura da matéria, suas reações e os compostos orgânicos e inorgânicos, além da radioatividade.
  • Ciências da terra. Conhecer nosso planeta, sua geografia física, econômica e humana; entender o clima e o tempo, interpretar mapas, conhecer o que está na terra, água e céu por meio de áreas como geologia, hidrologia e astronomia.
  • Ciências humanas. Conhecer a História do mundo, de seu país, das artes, das ciências e do cotidiano; entender as correntes de pensamento da filosofia e os fundamentos das principais religiões; saber analisar os fatos em perspectiva sociológica e antropológica; dominar os fundamentos da economia para entender a dinâmica do mercado; entender pela pedagogia como se aprende para poder ensinar; saber de Política como ciência; compreender o comportamento das pessoas pela Psicologia; esses são alguns desafios das ciências humanas.
  • Saúde. Entender sobre doenças para preveni-las; conhecer sobre esportes e atividades físicas para melhor praticá-las; conhecer sobre alimentos para uma melhor nutrição; tudo isso é necessário para cuidar da saúde.
  • Arte. Conhecer as características de cada manifestação artística, sua história e suas escolas para melhor apreciá-las ou para praticar a que tiver afinidade. Estamos falando de Arquitetura, Artes decorativas, Cinema, Dança, Design, Escultura, Fotografia, Música, Pintura, Teatro r Televisão.
  • Administração. Conhecimento sobre administração não é só para empresários. Todos precisam cuidar de suas finanças pessoais, da carreira, de negócios e contabilidade pessoais e, por vezes, gerenciar pessoas.
  • Direito. Precisamos sabe de nossos direitos de consumidor, civis, criminais e constitucionais.
  • Informática. Cada vez mais presente em nossas vidas, precisamos da Informática em nível de usuário para dominar os sistemas operacionais, os programas de produtividade, ter noções de linguagens de programação e de funcionamento de redes.
  • Tecnologias. Em um mundo regulado pela tecnologia é importante ter noções sobre as que nos rodeiam, seja em casa, no escritório ou na rua. Dessa forma, podemos nos virar na hora em que o carro dá uma pane, formatar o computador, trocar a resistência do chuveiro ou consertar a torneira que fica pingando.
  • Artes práticas. Essas artes costumam ser marcadas por questões de gênero, mas seria bom se todos, homens e mulheres, soubessem preparar um almoço, cuidar da casa e do jardim, atender vítimas em primeiros socorros, além de saber jogar xadrez, dançar uma valsa, escolher a roupa certa para cada ocasião e ter ideia do que fazer caso se perca na selva.

A lista de conhecimentos e habilidades é longa, bem mais do que previa o ideal humanista do período do Renascimento que almejava a formação integral do homem. Resta saber se alguém consegue atender a todas essas exigências da vida moderna. Tudo bem, ideal é para ser buscado, o que não significa que será alcançado.

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A correção das redações do Enem teve sua qualidade contestada nos últimos dias por alguns órgãos de imprensa que “denunciaram” correções polêmicas. Três casos chamaram a atenção:

  • Redações com erros ortográficos (enchergar, rasoável) e de concordância receberam nota máxima de 1000 pontos.
  • Em uma redação o estudante incluiu uma receita de miojo no meio do texto e recebeu 560 pontos.
  • Em outro caso o aluno escreveu trechos do hino do Palmeiras no meio da argumentação e ganhou 500 pontos.

Nos comentários às notícias sobre o tema notei que quase todos os leitores ficaram indignados com a pontuação generosa dada a redações que ferem critérios de qualidade definidos para o Enem, entre eles respeitar a norma padrão do idioma e não fugir ao tema proposto. O curioso, porém, é que quase todos os comentários continham erros ortográficos e gramaticais e vários deles fugiam do tema em discussão, ora criticando o governo Dilma, ora zombando do Palmeiras, entre outras dispersões.

Redação Enem

Eu li a redação que trazia a receita de miojo, feita por um estudante que declarou que seu objetivo era testar o sistema de correção do Enem. Ele escreveu uma redação mediana, cuja única anormalidade é apresentar um parágrafo fora de contexto (a tal receita). O estudante fugiu ao tema? Em um dos parágrafos sim, nos outros três, não. Ele alcançou 50% dos pontos, o que me parece proporcional às falhas cometidas. Quando ele disse que queria testar o sistema, será que estava esperando nota zero? A outra redação que traz trechos do hino do Palmeiras segue o mesmo padrão: texto mediano com alguns trechos fora de contexto. Zero para o palmeirense? Não bastam o rebaixamento para a segunda divisão e corte de 50% na nota da redação?

Eu estudei em um tempo em que cada erro na redação tirava meio ponto da nota, logo quem produzisse mais de 20 erros ortográficos ou gramaticais ficava devendo nota para o professor. Felizmente, esse tempo já vai longe e, hoje o respeito à norma padrão responde por uma pequena parcela da nota. A fatia maior dos pontos fica reservada para outras qualidades que devem estar presentes em um bom texto. Isso quer dizer que posso cometer um erro ortográfico a cada palavra que mesmo assim será possível alcançar uma boa nota; desde que em outros quesitos como clareza e articulação de ideias eu tenha um bom desempenho. Pode parecer estranho para alguns, mas é assim que funciona atualmente e eu acho que essa nova compreensão faz sentido. Sim, é possível alcançar uma boa nota em redação mesmo com alguns “inadmissíveis” erros de escrita. Estou falando de boa nota, não de nota máxima. Nesse ponto prefiro seguir o preceito de um velho professor de matemática do qual eu gostava muito. Ele deixava claro para os alunos que a nota máxima, 100 na época, era algo próximo do milagre e só estava reservada às provas perfeitas que resistissem à mais severa devassa em busca do erro mínimo e imperceptível. Cerca de 1% das redações do Enem alcançam mais de 900 pontos. Os 1000 pontos deveriam ser reservados às redações impecáveis, dignas de serem transformadas em placa e penduradas no hall da fama do Inep.

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A Universidade de Brasília divulgou as obras que podem ser cobradas em seu processo seletivo e a surpresa foi a inclusão da música Camaro amarelo da dupla Munhoz e Mariano na lista. Os candidatos que participam do PAS (Programa de avaliação seriada) da UnB terão que estudar criticamente esse clássico instantâneo do sertanejo universitário para se preparar melhor para as provas. Quando ouvi a notícia me veio à cabeça o pensamento: Se a ideia é fazer a garotada valorizar a cultura popular não seria melhor escolher uma canção sertaneja de raiz? Aí descobri que Cuitelinho, também entrou na lista. Perfeito. A canção interpretada por Pena Branca e Xavantinho é um belo exemplo da poética sertaneja, mas e o Camaro amarelo? Qual a razão para esse hit com mais de cem cavalos de potência ser objeto de estudo de adolescentes desesperados em busca de vaga em uma universidade de prestígio?

camaro amarelo

Quando prestei vestibular em mil novecentos e cacetadas a lista de obras da UFPR era formada por dez livros de literatura brasileira. Naquele tempo, cultura era ler Machado de Assis, Nelson Rodrigues, Dalton Trevisan, Carlos Drummond de Andrade e alguns outros. Vivíamos na ditatura da alta literatura nacional. Os tempos mudaram e hoje a UnB, por exemplo, adota uma lista mais eclética que inclui ensaios filosóficos como O príncipe de Maquiavel, músicas eruditas como Carmina Burana de Carl Orff, além de pinturas e obras arquitetônicas. Acredito que a lista da UnB é mais adequada ao ideal de formação humanística para a vida que a escola deve perseguir. Nesse ambiente moderno de abrangência e respeito à diversidade é que surge espaço para tratar da cultura popular na escola. Mesmo assim, creio que ainda não chegamos a um bom motivo para nos debruçarmos com ferramentas críticas sobre o motor do Camaro amarelo.

Estamos acostumados na escola a estudar clássicos e para ser clássico é preciso passar pela prova do tempo. Não é o caso de Camaro amarelo, lançada recentemente. Temos que lembrar, porém, que a escola de hoje sofre pressão para se dedicar aos temas atuais. Espera-se que o professor discuta em sala o que os alunos assistiram no telejornal da noite anterior. Sim, faz sentido partir do que está na boca do povo para alcançar o conhecimento formalizado. Se Camaro amarelo não é clássica certamente é o hit da vez assistido milhões de vezes no YouTube. A regra da atualidade é boa se não for aplicada a torto e a direito. Temos que nos ocupar dos clássicos também cuidando para não dar importância exagerada ao superficial, afinal o espaço da sala de aula é nobre e o tempo é curto para ser desperdiçado. Sem dúvida, Camaro amarelo pode render boas discussões em sala de aula sobre a evolução da música sertaneja, sobre consumismo e relações interpessoais frívolas. Além disso, os programas de vestibular orientam os rumos do Ensino Médio. Incluir um ponto fora da curva no currículo pode funcionar como um recado pedagógico: vocês aí na escola deem um pouco de atenção à cultura popular despidos de preconceito e com disposição para quebrar paradigmas. O que não convém concluir é que a canção seja sublime porque foi listada lado a lado com outras obras-primas. Só o tempo dirá se Camaro amarelo vai se tornar clássica como Cuitelinho.

Para arrematar, uma seleção de clássicos sertanejos:

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A edição 2011 do Enem também teve furo de segurança: alunos do Colégio Christus de Fortaleza fizeram um simulado de Enem na semana anterior a da prova oficial. 14 questões da prova simulada eram praticamente iguais às encontradas na prova oficial 2011. Parte da imprensa, alarmista e pouco informada, caiu de pau em cima do MEC cobrando explicações para o incidente e quando as explicações vieram, espalhou pelo Brasil afora mais alarme e desinformação.

O Colégio Christus de Fortaleza participa de um programa do MEC de avaliação do ensino médio que, entre outras coisas, tem a função de calibrar questões para uso futuro no Enem. Realmente, as questões do Enem não são inéditas. Antes de entrarem para a prova oficial, elas são aplicadas a pequenos grupos de amostragem para fins de calibração. Nesse processo de pré-teste as questões são validadas e seu nível de dificuldade real é estabelecido. O pré-teste é uma garantia de que na prova oficial só vão constar questões de boa qualidade com nível de dificuldade conhecido. Dessa forma, é possível garantir matematicamente a comparabilidade de provas, ou seja, alcançar a nota 700 no Enem 2010 equivale exatamente a atingir a nota 700 no Enem 2011. O fato de as questões serem aplicadas em pré-testes não é motivo para indignação, portanto. O método TRI (teoria da resposta ao item) adotado pelo Enem é matematicamente embasado e internacionalmente abonado por outras instituições renomadas que o utilizam. Escandaloso seria usar questões não calibradas em uma prova realizada por cinco milhões de estudantes.

Mas sendo assim, onde estão os furos no caso do Colégio Christus? Primeiramente, o MEC não foi cuidadoso na aplicação do pré-teste. Se alguns cadernos do pré-teste foram parar nas mãos de professores do Colégio Christus é porque faltou rigor na segurança do processo. Em segundo lugar, nota zero no quesito ética para a equipe do Colégio Christus. O colégio assumiu compromisso de confidencialidade com o MEC e fazer um simulado utilizando questões do pré-teste é no mínimo uma vergonha. Espero pelo menos que o colégio seja eliminado do processo de pré-teste do MEC. Por último, há o problema do número elevado de questões de pré-teste que foram incorporadas à prova oficial. Em uma condição ideal, o Colégio Christus não seria contemplado com tantas questões da prova oficial. O MEC está colocando muitos ovos na mesma cesta. Quem garante que situações similares não ocorreram em outras escolas pelo Brasil sem que tenham chegado a público?

Independente das falhas que anualmente acontecem, o Enem continua sendo um instrumento poderoso para direcionar o Ensino Médio no Brasil. Sim, poderia haver mais edições anuais, talvez as provas pudessem ser diferentes em cada estado. Isso amenizaria o problema da alta concentração do Enem atual em que todas as cartas são jogadas em apenas em uma prova anual e nacional. Independente das pendências ainda acredito que o Enem é o caminho a seguir. Consolidei essa ideia depois que minha filha passou na UFPR em 2010 graças à sua nota no Enem.

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Para que serve a Matemática?


Mudança de endereço

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Esses dias, meu filho me perguntou para que serve a Matemática? Por coincidência, a pergunta veio depois de uma nota baixa no boletim do primeiro trimestre. Fiquei sem resposta. Melhor: preferi não dar nenhuma das respostas padronizadas que me vieram à cabeça, pois a pergunta dele era retórica, praticamente um desabafo que precisava apenas ser ouvido e não contestado.

Obviamente, a Matemática serve para muitas coisas e não me refiro à situações práticas como calcular usando uma trena quantos galões de tinta vão ser gastos para pintar a casa. Matemática forma o caráter, pois para estudá-la é preciso cultivar virtudes como a paciência e a dedicação. A matemática nos ensina a não depender de recompensas imediatas, já que seus frutos são colhidos a longo prazo. Pela Matemática entendemos o que é progressão do conhecimento. A Matemática estimula o desenvolvimento de competências externas a ela mesma como operar em níveis altos de abstração. Em outras palavras, a Matemática pode ajudá-lo a tomar decisões complexas e a prever cenários. A Matemática fortalece o intelecto e poderia ser toscamente comparada à uma ginástica cerebral. Enfim, a Matemática é repleta de utilidades não matemáticas.

Para os matemáticos, porém, o questionamento sobre a utilidade da Matemática é totalmente inútil. Utilidade? Como assim? O conhecimento é um fim em si, dirão, não requer utilidade para ser buscado. Basta ao matemático a maravilhosa sensação da descoberta dos mistérios dos números. Além disso, o conhecimento matemático é uma experiência estética. Sim, a Matemática é bela e a beleza só é bela na maioria dos casos porque é matemática. Por fim, a Matemática é mística. Galileu dizia que a Matemática é a linguagem usada por Deus para escrever o mundo.

Diante disso tudo, para que procurar utilidade para a Matemática? Talvez, eu não consiga com esses argumentos melhorar a relação do meu filho com os números e nem há razões para forçar essa aproximação. O mundo não funcionaria se todos tivessem os mesmos interesses. É matemático: precisamos de sociodiversidade.

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10 – 7 = 4

“Os livro” pode

Kit gay

Quem acompanha as notícias de educação vai associar as frases acima com polêmicas recentes amplamente divulgadas na imprensa envolvendo materiais didáticos distribuídos pelo MEC. Será que a imprensa brasileira de repente resolveu acompanhar de perto a qualidade da educação brasileira ou o nível do material didático despencou? Antes de opinar, vamos analisar os três casos recentes que são bem representativos.

10 – 7 = 4. A conta errada aparece em um livro da coleção Escola Ativa criada pelo MEC para atender escolas rurais. É um erro grosseiro de revisão, mas que não geraria polêmica caso fosse um deslize isolado no contexto de uma obra bem elaborada. Quem já desenvolveu material didático sabe que o último erro só será removido no Juízo Final. Os especialistas contratados pelo MEC, porém, levantaram outros erros na coleção a ponto de julgaram que não seria possível resolver o problema simplesmente distribuindo uma errata. Nesse caso, os números não mentem. A coleção inteira foi condenada por causa de um controle de qualidade deficiente.

“Os livro” pode. Na coleção de língua portuguesa Por um mundo melhor, os autores tratam das diferenças entre a norma culta e a linguagem coloquial chegando a afirmar que em certos contextos os rigores da concordância podem ser deixados de lado. Aqui a polêmica foi gerada pela abordagem não ortodoxa dos autores que bate de frente com a linha conservadora de muitos setores da sociedade, em especial alguns jornalistas afeiçoados ao português castiço. Convém lembrar que a abordagem “liberal” da obra é amplamente conhecida nos meios acadêmicos e está presente em outras obras didáticas.

Kit gay. O material anti homofobia preparado pelo MEC e rotulado depreciativamente por setores da sociedade como kit gay teve sua distribuição suspensa depois de inúmeras críticas de grupos conservadores. O material atende os padrões da UNESCO e quem tiver a oportunidade de consulta-lo há de concordar que não traz nada muito diferente do que é apresentado na novela das nove. O problema desse kit, se existe, é colocar em discussão um tema ainda sensível para algumas pessoas. O combate à discriminação e o respeito à diversidade estão previstos faz bastante tempo nos PCN (Parâmetros Curriculares Nacionais).

A impressão que tenho quando leio as notícias de educação é que os canais estão bem misturados.  O fogo cerrado da imprensa direcionado ao MEC é bem-vindo quando denuncia casos de mau uso do dinheiro público. A coleção Escola Ativa foi mal acabada e impressa sem passar pelo controle de qualidade rigoroso que a produção de material didático exige. Por outro lado, quando a imprensa começa a tratar variações de pensamento como se fossem defeitos aí estamos diante de miopia preocupante.

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E se o Enem fosse on-line?


Pelo segundo ano consecutivo o Enem gerou estresse para estudantes de todo o Brasil. Em 2009 houve cancelamento de provas por vazamento. Em 2010, erros de impressão prejudicaram uma parte dos participantes. Problemas desse tipo podem acontecer nas melhores instituições, mas poderiam ser minimizados se o MEC pusesse em prática o velho ditado que recomenda não colocar todos os ovos na mesma cesta. Quando se adota um modelo de centralização máxima com uma só prova por ano para milhões de alunos o risco de ocorrerem problemas aumenta exponencialmente e o custo para repará-los fica em níveis estratosféricos. O noticiário dos dias seguintes ao Enem 2010 foi dominado por desnecessárias críticas e polêmicas em torno do exame que só causam desgaste político para o governo. O Enem evoluiu desde que foi implantado em 1998 e tem que continuar melhorando. O próximo e urgente passo desse processo é a descentralização.

Como descentralizar o Enem? Criar várias edições do exame ao longo do ano é uma opção já adotada há anos pelo SAT americano, por exemplo. Provas distintas por região seriam uma alternativa para minimizar problemas com vazamento de provas. Como o Enem adota a metodologia da TRI (teoria da resposta ao item) não há problema em os alunos fazerem provas diferentes. Poderíamos chegar ao extremo de cada aluno receber uma prova única. É claro que essa possibilidade depende da formação de um grande banco de questões testadas e calibradas. Sob essa perspectiva poderíamos chegar à aplicação on-line das provas.

No mês passado fui ao Detran revalidar minha carteira de motorista. Agendei dia e horário de acordo com minha conveniência e fiz a prova no computador em um laboratório do Detran junto com outros motoristas. Respondi na tela 30 questões selecionadas do banco do Detran e imediatamente após finalizar a prova fiquei sabendo o resultado. Por que o Enem não poderia ser assim? É claro que seria preciso montar uma logística de aplicação com muitos computadores disponíveis, mas existem alternativas para isso. As escolas de Ensino Médio poderiam ceder seus laboratórios de Informática ao Inep para a aplicação das provas. Os alunos da escola contariam com a comodidade de fazer a prova na própria escola e a escola cederia as máquinas para que outros alunos também fizessem a prova on-line. Até a redação poderia ser digitada na tela e enviada diretamente para o Inep via Internet. A aplicação on-line poderia ser adotada progressivamente, seguindo o modelo trilhado pelas eleições eletrônicas brasileiros. Se somos um país com eleições 100% digitais, por que não podemos ter exames nacionais informatizados?

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