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Posts Tagged ‘manipulação’


Sabemos que o Photoshop faz milagres que nenhum cirurgião plástico seria capaz. Esse software remove celulite, empina bumbum e aumenta seios como se fosse mágica. Estamos falando do exemplo clássico da manipulação de imagens, mas a manipulação vai além. Quando abrimos uma embalagem de pizza pronta e encontramos um produto chocho que em nada lembra a foto apetitosa que está na tampa aí temos manipulação a serviço da propaganda enganosa.  O mesmo acontece quando chegamos a um parque aquático e não encontramos aquela água azul e cristalina que vimos no prospecto da agência de turismo. Mais grave ainda é a multiplicação de eleitores em comícios de políticos inescrupulosos. Vamos lembrar que a manipulação de imagens é anterior ao Photoshop; prova disso é a foto abaixo em que Kamenev e Trotsky foram apagados a mando de Stálin na tentativa de reescrever a história russa. Esses casos de alteração indevida podem nos levar à conclusão que toda modificação da imagem original é maligna, mas o fato é que raramente uma foto nasce pronta. Quase todas precisam de algum tratamento, inclusive para deixá-las mais naturais e verdadeiras.

Lenin discursando

Edição, tratamento, manipulação, processamento; não existe um acordo entre os fotógrafos sobre as palavras que deveríamos usar para diferenciar as alterações necessárias e benignas daquelas que levam a uma percepção deturpada da imagem. Neste artigo chamamos de edição as mudanças que melhoram a qualidade da imagem original e por manipulação vamos entender as alterações mal intencionadas. E que fique bem claro: os recursos técnicos que o fotógrafo dispõe para editar ou manipular são exatamente os mesmos, só variam no grau ou na intenção com que são utilizados. O Photoshop está aí para o bem e para o mal.

Para mostrar que a edição é necessária e bem-vinda vamos partir de dez casos corriqueiros de edição mostrando a foto antes e depois:

1. Giro

Precisamos girar a foto para nivelar a linha do horizonte ou para criar linhas de concordância entre a imagem e suas bordas. O giro remove partes da foto original, por isso, fotógrafos ninja capturam a imagem bem nivelada, o que nem sempre é possível, infelizmente.

Ilha do MelIlha do Mel

A foto acima foi girada em 1,5 grau para deixar o horizonte da Ilha do Mel perfeitamente horizontal.

Castelo de Praga

Castelo de Praga

O giro na foto acima alinhou a base das estátuas do portão do Castelo de Praga.

2. Proporção

A maioria das câmeras captura imagens na proporção 2:3, que não é ideal para todas as situações. A proporção da imagem deve ser escolhida em harmonia com o motivo fotografado e com o uso que terá. O recorte pode servir para concentrar a imagem eliminando o supérfluo.  Como essa edição elimina partes da foto é preciso cuidado para não remover itens essenciais ao contexto e cair na manipulação.

Capivara

Capivara

A proporção quadrada (1:1) concentra a imagem da capivara capturada em 2:3.

Parque Barigui Curitiba

Parque Barigui Curitiba

A proporção 16:9 é mais panorâmica e se harmoniza com a horizontalidade da imagem do Parque Barigui em Curitiba.

3. Enquadramento

O recorte pode concentrar a imagem, melhorar a composição, eliminar o supérfluo, realçar a simetria, entre outras vantagens. Fica só o aviso para não descontextualizar a foto senão é manipulação. O ideal ninja, obviamente, é capturar as fotos no melhor enquadramento para não desperdiçar nenhum pixel, só que a realidade é dura.

Catedral de Dresden

Catedral de Dresden

O recorte melhorou a simetria dessa imagem do interior da Catedral de Dresden.

4. Exposição

Controlar a quantidade de luz que entra na câmera é essencial para obter uma boa fotografia.  Uma exposição perfeita não é fácil de conseguir principalmente quando a cena tem áreas com diferentes níveis de luminosidade.  O ajuste da exposição pode deixar a foto mais próxima do que o nosso olho captaria.

Parisi Udvar Parisi Udvar

O ajuste de exposição área por área ajuda a ver melhor os detalhes dessa bela galeria (Parisi Udvar) em Budapeste.

5. Temperatura de cor

As cores da foto são afetadas pela fonte de luz que ilumina o ambiente. Cada fonte de luz tem sua temperatura de cor. Para deixar a foto mais realista, às vezes é preciso ajustar a temperatura, especialmente quando temos fontes de luz com temperaturas diferentes no mesmo ambiente.

Portão de Brandenburgo

Portão de Brandenburgo

Ajustes na temperatura de cor deixaram menos azulada essa foto do Portão de Brandenburgo tirada no final da tarde em Berlim.

6. Correções de equipamento

Aberração cromática é o nome aberrante para um defeito comum nas fotos. São contornos coloridos que aparecem na imagem por causa de imperfeições das lentes. Ocorrem mais com lentes de pouca qualidade, mas também acontecem com lentes caras. Felizmente, é fácil remover os contornos com um bom software de edição. Outras distorções conhecidas podem ser corrigidas em um editor que ajusta o perfil de cada equipamento.

Essa foto tinha uma leve aberração cromática.

7. Ruído

O ruído de sensor aparece quando aumentamos a sensibilidade para conseguir fazer a foto com pouca iluminação. O ruído deixa a foto com textura granulada. Com auxílio de software, em muitos casos, é possível reduzir o ruído sem comprometer a naturalidade da foto.

8. Defeitos

Poeira, gotas d’água, reflexos internos (flare) e marcas de digitais na lente comprometem a qualidade da imagem e uma edição para remover essas imperfeições é aceitável.

mancha de poeira

Poeira na lente.

9. Elementos estranhos

Indo além na remoção de  “imperfeições”, seria aceitável em alguns casos remover elementos estranhos ao contexto da cena e que só levam à distração e ao ruído. Todo o cuidado é pouco nessa hora.

Esquilo

Esquilo

Com bituca e sem bituca de cigarro.

A utilização comercial de fotos exige que a remoção de elementos como logomarcas e placas de automóvel para não ferir direitos comerciais e de privacidade. Fica bem estranho olhar a foto de um prédio e não encontrar a logomarca da empresa que funciona ali e que todo mundo vê quando passa em frente. No entanto, essa prática é comum nos bancos de imagens.

10. Presença

É comum o fotógrafo olhar para a foto na tela e pensar: Mas ao vivo essa cena tinha mais vida! Nessa hora, é possível usar de recursos como brilho, saturação, vibração, claridade, níveis, curva de tons, contraste, etc. para ajustar as cores e a luminosidade da imagem.  Esses recursos, porém, devem ser usados com moderação pois quem persegue a naturalidade não pode cair na tentação diabólica de dourar a realidade.

Parlamento húngaro

Parlamento húngaro

Um pequeno ajuste na curva de tons dá mais vida à foto do parlamento húngaro.

A maioria das técnicas de edição é dispensável se a captura for impecável, logo quem quer passar longe do Photoshop tem que suar para acertar a foto de primeira na hora do clique. Há quem diga que o excesso de cuidado com a produção da foto também compromete sua naturalidade e que um pouco de desfoque ou de reflexos podem dar um charme à foto. Na foto abaixo você removeria o tênis pendurado no tridente de Netuno e o arco íris que se formou na base da fonte?

Fonte de Netuno, Berlim.

Além do mais, o compromisso com o realismo é uma linha de pensamento entre outras. Funciona bem em foto jornalismo e para proteger o consumidor contra propaganda enganosa, mas será que a revista Playboy deveria mostrar a celulite das modelos? Talvez os leitores prefiram ser enganados a encarar um choque de realidade.

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Atenção leitores da revista Playboy. É provável que no futuro vocês encontrem no rodapé dos ensaios fotográficos da revista uma advertência como esta: “Atenção: imagem retocada para alterar a aparência física da pessoa retratada” Isso pode acontecer porque alguns setores da sociedade estão se articulando contra a manipulação indiscriminada de imagens fotográficas. O projeto de lei 6853/2010 do deputado Wladimir Costa (PMDB-BA), por exemplo, pretende regulamentar o uso de imagens alteradas em peças publicitárias. Segundo a proposta do deputado, toda imagem manipulada deve vir acompanhada da devida advertência para que o leitor não caia em falso julgamento. Na França, também tramita pelo congresso projeto de lei similar. Os parlamentares franceses querem inibir principalmente o retoque digital de imagens femininas. Segundo eles, a idealização do corpo da mulher pela mídia influencia algumas leitoras propensas à anorexia e à bulimia.

Sinceramente, a advertência proposta nesses projetos de lei só reforça o que todo mundo já sabe: aqueles belos corpos desnudos exibidos na Playboy são um pouco menos belos do que parecem na versão impressa. Pensando bem, esses projetos de lei poderiam ser mais abrangentes. Vou exemplificar: Vá ao supermercado e compre um envelope de sopa instantânea. Em casa, compare a imagem estampada na embalagem com o resultado obtido no seu prato. É bem provável que na sua casa a sopa saia mais escura, menos cremosa e mais rala do que a exibida na embalagem. Outra sugestão: observe bem o prospecto da agência de viagem que lhe oferece um pacote turístico para uma praia paradisíaca. Talvez, chegando ao destino você encontre um mar não tão azul e águas não tão cristalinas como pareciam na foto do prospecto.

O projeto do deputado Wladimir Costa vem sendo chamado de Lei do Photoshop e não imagino como será possível definir o que é uma imagem retocada. Qual imagem não é retocada hoje em dia? Imagino que a ideia é inibir apenas os exageros de má fé. Não é admissível, por exemplo, que se amenize no Photoshop as marcas de expressão da modelo em uma propaganda de anti-rugas ou que se faça uma lipo via Photoshop na barriga do modelo que promove uma academia de ginástica. Indo além, seria bom se a lei do Photoshop alcançasse também os santinhos dos políticos para que eles não pareçam artificialmente mais simpáticos, jovens ou honestos do que realmente são. Não vai ser fácil aplicar essa lei e vai sobrar para o juiz dizer se o retoque foi corriqueiro ou se é manipulação mal intencionada.

Sou fotógrafo amador e fico pensando aqui com meus botões se teria que colocar advertência de manipulação em minhas fotos também. Sou adepto da fotografia com baixo processamento, quase crua. Procuro deixar a imagem bem próxima do que o olho humano veria em condições ideais, mas mesmo assim, todas as minhas fotos têm alguma “manipulação” digital. Além do mais, a regra que sigo não me impede de apreciar a manipulação artística da imagem feita por outros fotógrafos. Realmente, o que está em jogo não é usar ou deixar de usar o Photoshop, esse recurso tecnológico extraordinário. O que importa é a boa ou má fé de quem publica a foto.

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Observe a imagem acima e tente encontrar alguém que destoa do conjunto. Trata-se de um concurso para modelos promovido pelo site inglês Next. O candidato fora dos padrões topmodelísticos emplacou sua candidatura à final do concurso usando técnicas de manipulação de opinião pública; montou uma rede de contatos para que seu perfil recebesse votação maciça, independentemente de seu potencial de belezura. O candidato azarão queria fazer uma brincadeira e provar que é possível furar a fila. Não é a primeira vez que isso acontece na Internet e, pensando bem, esse tipo de distorção é manjada também no mundo analógico.

Quem frequentou as festas juninas de antigamente lembra dos concursos de sinhazinha. Para ganhar o título de sinhazinha da festa a garota tinha que se vestir a caráter com um belo vestido, mostrar simpatia e vender bilhetes de rifa da festa. Na maioria dos casos, a vencedora era a garota com o pai mais rico, que arrematava todos os bilhetes. Um outro exemplo de manipulação social digital: Quando o Google começou a rankear as páginas da Internet utilizava um método baseado na relevância por citação. Google contava a quantidade de links que apontavam para a página. Quanto mais referências externas, mais relevante seria a página. Esse modelo era inspirado na biblioteconomia que recorre às citações de uma obra em outras obras para definir sua importância. A regra diz que quanto mais citada a obra, mais importante ela é. O modelo parece consistente, mas é sujeito à manipulação. Os desenvolvedores de sites logo perceberam que poderiam “construir” links externos para melhorar sua relevância no Google. No mundo acadêmico, também existem as citações entre “amigos”. Funciona assim: o doutor A cita o doutor B que cita o doutor C que cita o doutor A. É um sistema circular de citações cruzadas.

Manipulação de popularidade e relevância existe desde o início dos tempos, mas parece que a Internet é mais permeável a esse tipo de prática cinzenta. A fraude do concurso Make me the next model mostra de forma bem humorada as possibilidades de distorção que a grande rede permite. Não estamos falando apenas de casos folclóricos, mas de manipulação verdadeira onde grupos econômicos e políticos tentam conduzir a manada internética para o curral que lhes convêm.

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