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Posts Tagged ‘Política’


A condenação do ex-ministro José Dirceu pelo Supremo Tribunal Federal vem causando reações dramáticas pelo país. A maioria comemora com entusiasmo, enquanto uma parcela menor lamenta uma suposta injustiça contra o ex-dirigente petista. Os indignados com a condenação invocam a biografia de José Dirceu como argumento de inocência; alegam ausência de provas documentais que o incriminem e reclamam da condenação eterna que parte da opinião pública reserva para o ex-ministro. Os sensatos vão concordar que o Supremo Tribunal está fazendo História e aproveita a publicidade do caso para melhorar o senso de justiça da população. O Supremo está dando lições tanto aos linchadores como aos que beatificam o condenado.

Biografia não é salvo conduto. A primeira crença ingênua que o STF abalou foi a de que biografias são homogêneas. José Dirceu tem um passado de luta pela democracia no Brasil e se destacou na construção de um partido que começou nos sindicatos e chegou ao Palácio do Planalto em pouco mais de 20 anos. A fase militante da biografia de José Dirceu contrasta com o período em que exerceu o poder central. Como ministro Dirceu se mostrou prepotente, arrogante e de poucos escrúpulos. Sua passagem pelo ministério de Lula não anula sua biografia de líder estudantil. Seu passado de luta conta como atenuante na hora de dosar a pena pelos delitos que cometeu, mas não pode ser tratado como uma carta branca para o exercício sem limites do poder.

O chefe sempre sabe das coisas. Condenar os chefões do crime não é fácil em nenhum lugar do mundo. Dificilmente, se consegue provas materiais para incriminar líderes de quadrilha, em especial quando estiveram em níveis altos de hierarquia como José Dirceu. Realmente, não existem gravações ou documentos assinados por Dirceu dizendo: “Eu, José Dirceu, articulei o esquema de compra de votos de parlamentares em troca de apoio político, vulgarmente conhecido como mensalão.” A abordagem do STF foi outra, partindo da ideia de que um esquema de corrupção de grandes proporções não pode acontecer sem o concordância da chefia imediata. E, convenhamos, se o chefe não sabia, era no mínimo incompetente, adjetivo que não combina com Zé Dirceu. Se sabia e não desmontou o esquema era conivente.

Cumpriu pena, tá limpo. A população precisa aceitar a ideia de que os réus condenados do mensalão vão receber penas e depois de cumpri-las poderão voltar à vida civil com todos os direitos. Lembro o caso do ex-presidente Fernando Collor que foi condenado pelo mesmo STF a ficar por oito anos afastado da vida pública. Ele cumpriu a pena e voltou à cena como senador por Alagoas. Podemos reclamar que a pena de Collor foi muito branda, mas não podemos negar-lhe o direito de se candidatar. Se o julgamento do mensalão tivesse transcorrido rapidamente, talvez os mensaleiros já tivessem cumprido a pena que lhes cabe e poderiam estar de volta à vida pública com a ficha zerada. Sem essa de condenação para o resto da vida extensiva aos descendentes. A pena deve ser proporcional ao erro e quero crer que o delito de José Dirceu não tem gravidade para condenação perpétua.

No mundo da Justiça perfeita a condenação dos culpados é garantida; a pena é proporcional ao delito; o cumprimento da pena é integral e depois de quitar seu débito com a sociedade o condenado é recebido de volta sem preconceito ou rancor. Vamos aguardar para ver o que a Justiça real nos reserva.

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A política como ela é


Entender o ecossistema eleitoral não é fácil, mas vou falar um pouco sobre a eleição municipal aqui onde eu moro.

A prefeitura de Curitiba será disputada em segundo turno por Ratinho Júnior e Gustavo Fruet.

Ratinho Júnior é filho do Ratinho Massa (ex-deputado federal pelo PRN, empresário, apresentador e dono de uma rede de comunicação).

Fruet é filho do ex-prefeito de Curitiba Maurício Fruet  (PMDB).

Ratinho Junior, 31 anos, foi do PSB, passou pelo PPS e agora está no PSC.

O PPS, por onde Ratinho Júnior passou, é dirigido no Paraná por Rubens Bueno, que foi vice na chapa do derrotado Luciano Ducci (PSB) que trocou farpas durante a campanha com Ratinho Júnior.

Uma das lideranças do PSC, atual partido de Ratinho Júnior, é Hidekazu Takayama que já foi colega de partido de Fruet no PMDB.

Fruet, 49 anos, foi do PMDB, mudou para o PSDB e atualmente está no PDT.

Um dos caciques do PDT no Paraná é Osmar Dias, irmão do senador Álvaro Dias do PSDB, partido que não quis Fruet como candidato a prefeito.

Fruet enquanto estava no PSDB criticava o PT, mas está coligado com o PT nesta eleição.

O Governador Beto Richa (PSDB) que é filho do ex-governador José Richa (PMDB) não apoiou Fruet que foi de seu partido por vários anos.

Beto Richa preferiu apostar em Luciano Ducci que não passou do primeiro turno e é do PSB, partido aliado da presidente Dilma do PT, rival histórico do PSDB de Beto.

O senador Requião (PMDB) também não apoia Fruet que foi do PMDB por vários anos.

Requião apoia Ratinho Júnior, mas em período eleitoral gosta de pegar carona na onda do PT. que apoia Fruet.

O candidato derrotado em primeiro turno Rafael Greca (PMDB, ex-PDS, ex-PDT e ex-PFL) não declarou apoio a Ratinho Júnior contrariando o cacique do seu partido (Requião), mas divergência no PMDB paranaense não causa espanto. Vários políticos do PMDB paranaense apoiaram o candidato derrotado Luciano Ducci (PSB) que é do grupo do ex-governador Jaime Lerner, arqui-rival de Requião.

No PSDB paranaense em segundo turno os apoios se dividem: alguns vão para Fruet e outros para Ratinho Júnior embora ambos estejam próximos do governo federal e o PSDB seja de oposição.

O DEM vai apoiar Fruet embora os partidos com quem ele está coligado sejam rivais do DEM.

O Partido Comunista do Brasil apóia o Ratinho Júnior (grande empresário capitalista de comunicação) embora governe com o PT que apoia Fruet. Ratinho Júnior era do PPS partido que sucedeu o PCB, o partidão, rival histórico do PCdoB.

A presidenta Dilma não vai apoiar nem Ratinho Júnior nem Fruet porque ambos a apoiam em nível federal. A ministra Gleisi Hoffmann (PT), braço direito de Dilma, ao contrário, vai entrar com tudo na campanha do Fruet.

Tenho a impressão que se eu fizer um post similar a este nas eleições de 2016 vou citar os mesmos nomes, talvez com um troca troca de partidos,  apoios e rivalidades.

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Esse mundo tá virado

Preencha as manchetes abaixo com os nomes corretos dos países. Uma dica: são notícias recentes. Para saber a resposta basta clicar no link que remete à notícia ou continuar lendo o post.

  • ________________ avalia suspender redes sociais após distúrbios. Leia a noticia.
  • Governo dos __________________chega a seu limite de endividamento e suspende investimentos. Leia a notícia
  • Dívida pública da _______________ chega a 80,3% do PIB . Leia a notícia.
  • Organização Mundial de Saúde pede para ____________ se vacinarem contra sarampo. Leia a notícia.

Vamos imaginar que os cientistas conseguiram trazer de volta à vida um homem que permaneceu congelado em uma geleira nas montanhas por mais de vinte anos. Se as notícias acima fossem apresentadas ao homem descongelado provavelmente ela preencheria as lacunas com nomes como Irã, Paquistão, Brasil ou Moçambique. Realmente o mundo está mudando. Essas notícias com cara de Terceiro e Quarto Mundo se referem a países top de linha, respectivamente, Reino Unido, EUA, França e Europa.

Nós brasileiros lemos as notícias acima e nos perguntamos: como pode esses países terem esse tipos de problema já superados aqui em terras verde amarelas? Há mais de duas décadas não precisamos de medidas políticas de exceção, nossa capacidade de investimento vai bem obrigado, o endividamento público não é de perder o sono e o sarampo é uma doença erradicada por aqui. A sensação de que estamos passando por um bom momento não deve, porém, nos contaminar pela arrogância que sempre criticamos nos tais países de primeiro mundo. O mundo é como uma roda gigante. Hoje você está lá em cima, amanhã ninguém sabe.

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A oitava praga do Egito


Os meios de comunicação são peça chave para o sucesso de qualquer revolução social, seja ela do tipo fraterna, igualitária e libertária, ou então mero golpe aplicado por oportunistas em longínquas republiquetas esquecidas. No século XX quando um grupo queria tomar o poder pela força se ocupava logo de tomar rádios e estações de TV além de controlar a circulação de jornais. Naquele tempo, os veículos de comunicação eram do tipo 1.0, ou seja, distribuíam informação de forma unidirecional. A seta da comunicação ia da redação para o público. Agora estamos na era da comunicação 2.0 e a comunicação se dá em duas vias. Além do mais, a massa passiva tornou-se agente no processo, trocando informação entre si diretamente e sem intermediação. Já vimos vários movimentos políticos sofrerem influência da Internet, mas provavelmente, a mobilização popular no Egito pela saída do presidente Mubarak é até agora a experiência mais radical envolvendo Internet e participação política.

A Internet teve papel fundamental no movimento popular egípcio e a prova disso está no fato de o governo ter aplicado um apagão de Internet e telefonia celular no país. No mesmo episódio vemos a força e a fragilidade da grande rede. Força para mobilizar e fragilidade para se manter no ar mesmo em um país de grande população e com estrutura complexidade Internet.

O Egito nos dá lições históricas sobre mobilização popular com Internet. A Internet tem força, sim; não é mais um meio secundário com alcance limitado a segmentos específicos da sociedade. A ideia original que motivou os idealizadores da Internet era criar uma rede impossível de silenciar. Os militares que lançaram a ideia da grande rede queriam criar um meio de comunicação capaz de resistir a ataques nucleares. O que vimos no Egito foi uma Internet que pode ser calada com alguns poucos telefonemas. Em nosso sonho ingênuo a Internet representa a voz do povo, mas essa voz ainda precisa de uma tecnologia mais guerrilheira que seja impossível de silenciar.

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A União Nacional dos Estudantes encabeça uma campanha para garantir que 50% dos recursos da produção de petróleo da camada pré-sal sejam destinados à educação. A lei que garantiria esse repasse foi vetado pelo ex-presidente Lula, mas a UNE se mobiliza para derrubar o veto presidencial. Lutar por mais verbas para a educação é uma louvável bandeira histórica da UNE, mas garantir o ensino público à custa de efeito estufa é outra conversa.

Esperamos da juventude idealista que lute por boas causas de forma aguerrida, mas quando associamos a qualidade da nossa educação à produção de petróleo estamos entrando em um círculo vicioso: a educação melhora a qualidade de vida dos jovens e o gás carbônico proveniente da queima do petróleo a degrada. Somos um país autossuficiente em petróleo e a exploração do pré-sal nos transformará em exportadores de CO2. Explorar o óleo do pré-sal que jaz em sono profundo há quase 7.000 m de profundidade é um oportunismo econômico imediatista que começou no governo anterior e pode se transformar em realidade no atual. Nem que 100% dos recursos fossem destinados à educação seria aceitável essa contribuição brasileira ao aquecimento global. Estudantes do Brasil, uni-vos pela energia limpa. Só ela, aliada a uma boa educação, garantirá o futuro das novas gerações.

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O Brasil tem vocação para eco-país. Temos vastas áreas de florestas nativas ainda não degradadas; nossa matriz energética está entre as mais limpas do mundo, pois geramos muita energia hidroelétrica, de biomassa e produzimos muito biocombustível; nossa população está entre as de menor impacto ambiental por conta de nossos hábitos de vida e nosso clima sem rigores excessivos. Além disso, nosso governo tem mostrado disposição para liderança mundial em conservacionismo. Alguns exemplos: o Brasil se comprometeu na COP 15 a atingir índices de redução de CO2 que fazem inveja às nações mais ecológicas; estamos entre os primeiros a eliminar o uso de lâmpadas incandescentes e aprovamos uma legislação de resíduos sólidos consistente.

Infelizmente, para alcançarmos o status de eco-país temos que superar muitos desafios. As administrações recentes têm adotado uma postura dúbia quando o assunto é meio ambiente. Protegeram com uma mão e devastaram com a outra. Este é o traço dos períodos de transição. A presidenta Dilma vai seguir pela linha pragmática sendo ecológica quando convém ou sua gestão vai ser lembrada pela firmeza na defesa do meio ambiente? Se o passado valer como referência para prever o futuro, sinto informar que a Dilma não será a presidenta verde que habita o sonho dos ecologistas. A candidata Marina Silva que disputou com Dilma foi ministra do meio ambiente no governo Lula. Sua saída do cargo e do PT está relacionada com a dificuldade para implantar as políticas ambientalistas que desejava. Segundo consta, a maior resistência contra as iniciativas do Ministério do Meio Ambiente partia de outro ministério, a Casa Civil, na época comandado por uma tal de Dilma. Quem acompanhou a última campanha eleitoral para presidente deve ter notado a veemência com que a candidata Dilma defendeu o projeto pré-sal de exploração de petróleo. Ela garantiu que vai investir forte em extração de petróleo do pré-sal apresentado como grande riqueza de todos os brasileiros. Bem, propor a duplicação da produção de petróleo de um país que já é autônomo nessa riqueza me parece oportunismo econômico de quem quer governar com folga de caixa e se lixando para as milhões de toneladas de CO2 que sairão do fundo do mar direto para a atmosfera. Torço para estar enganado e que o passado da presidenta ligado ao pragmatismo econômico não prevaleça na condução do seu governo. Pode vestir vermelho, presidenta, mas governe verde.

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Tiririca, deputado federal eleito por São Paulo em 2010, está gerando PPPs (polêmicas político pedagógicas) por todo o Brasil. O nobre abestado está sob suspeita de analfabetismo, o que pela Constituição o impediria de assumir o cargo para o qual foi eleito com a maior votação do país. A constituição não define tipo nem nível de analfabetismo e, por isso, a validação da candidatura do Tiririca está gerando a maior polêmica. Tiririca seria analfabeto em sentido restrito, total? Seria analfabeto funcional? Falta-lhe letramento? O que o Tiririca teria que provar para assumir seu cargo?

Existem níveis de alfabetização. Em sentido estrito alfabetizado é quem consegue converter o código escrito em código falado ou o contrário. Trata-se de uma habilidade de decifração que admite níveis de proficiência. Uma pessoa que lê textos devagar, aos solavancos e com muitos retornos estaria no nível mais baixo da proficiência. Quem lê com fluidez, usando entoação elegante em vez da leitura monocórdia está em um nível alto de proficiência. Para a escrita também é possível estabelecer níveis: quem escreve em desacordo com a ortografia oficial, traçando garranchos difíceis de decifrar está no nível baixo da habilidade. Aquele que escreve com correção e de forma legível é porque domina melhor a escrita para os fins sociais a que ela se destina. Até aqui consideramos o domínio da leitura e da escrita no nível da decifração. A Unesco tem uma definição mais abrangente, um pouco esotérica, para analfabetismo, mas que faz sentido:

Uma pessoa funcionalmente analfabeta é aquela que não pode participar de todas as atividades nas quais a alfabetização é requerida para uma atuação eficaz em seu grupo e comunidade, e que lhe permitem, também, continuar usando a leitura, a escrita e o cálculo a serviço do seu próprio desenvolvimento e do desenvolvimento de sua comunidade.

Para a Unesco a alfabetização não se resume à decifração, ou seja, à capacidade de associar letras com fonemas, convertendo discurso escrito em discurso falado e vice-versa. O conceito da Unesco abrange a capacidade do indivíduo interpretar o que lê e de articular o discurso quando escreve, além de considerar a habilidade de fazer operações aritméticas básicas com fluência. De forma simplificada, a Unesco considera alfabetizado quem concluiu com sucesso os primeiros anos do Ensino Fundamental.

Esse aspecto funcional da alfabetização, ressaltado pela Unesco também admite níveis de proficiência. Quem consegue interpretar textos curtos e simples estaria no estágio inicial. Quem interpreta bem e rápido textos longos, com vocabulário amplo e estrutura gramatical sofisticada estaria em níveis mais altos de domínio da leitura. Essa habilidade de leitura considerada em seus aspectos mais amplos não é de fácil aquisição. Seu desenvolvimento depende de fatores como bons hábitos de leitura, bagagem de conhecimentos, convívio com bens culturais em um ambiente social favorável, etc.

A constituição brasileira impede analfabetos de serem eleitos. Se considerarmos o analfabetismo no sentido mais raso, 7% da população brasileira fica impossibilitada de se candidatar a eleição. Se adotássemos a definição mais ampla do analfabetismo funcional, o número de brasileiros impedidos de serem eleitos saltaria para cerca de 75% da população.

Imagino que a barreira da alfabetização foi incluída na constituição para garantir uma qualificação mínima dos candidatos. Vejo dois problemas nessa barreira: preconceito e ineficiência. Vamos começar pelo preconceito. Por que os 7% de analfabetos totais não podem representar e ser representados? Como fica a situação de quem pode ser classificado como analfabeto por conta de limitações como deficiência física ou dislexia?

Se partirmos da ideia que candidato precisam provar qualificação mínima, alfabetização não é o indicador adequado. Nem a alfabetização funcional plena poderia ser considerada patamar mínimo de qualificação. Estamos em um mundo com exigências mais altas em que os requisitos para o sucesso social aumentam continuamente. Além do mais, quem disse que para votar e ser votado o cidadão precisa provar qualificação?

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